tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
    (2013)


    Capa de eXato acidente
    eXato acidente
    (2008)



    Capa de o menino da rosa
    o menino da rosa
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    Capa de O Mentiroso
    o mentiroso
    (2003)





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garatujas (118) – lição de desenho

Posted by Tony Monti em 10.05.2016

p3

Eu fiquei em silêncio enquanto eles olhavam meus desenhos.

Eles não sabem se os rabiscos são ou não o que eu pretendia desenhar. Assim, não pensam em comparar os rabiscos do papel com minha intenção.

Os fracassos tornam-se mínimos e as vitórias agradavelmente leves.

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garatuja (117) –

Posted by Tony Monti em 29.02.2016

e tem também gente que ganha dinheiro para tentar ser feliz

e tem também gente que fica triste para não precisar trabalhar.

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garatuja (116) – fresta

Posted by Tony Monti em 26.09.2015

Entre pela porta. Entre pela porta da frente. Eu deixo você entrar pela porta da frente. Eu te convido para entrar pela porta da frente da casa. Não entre pelas janelas. As janelas são para eu respirar. Se a porta estiver fechada, aguarde. Não entre pelas janelas. Não entre pela janelas. Por favor, não entre na casa pelas janelas.

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garatuja (115) –

Posted by Tony Monti em 07.07.2015

Mas, se os fins produzem os meios e as explicações antecedem os fatos,
Quando um barulho da rua se insere num sonho, quantas vezes aparece uma história para anteceder o barulho? Como pode o barulho ser o fim da história que ele provocou? É de se desconfiar que, acordado, a gente também produza desses enganos.

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garatuja (114) – silêncio

Posted by Tony Monti em 07.05.2015

Meu estado inercial, confortável, é o silêncio.
Tem cachorros que quase nunca latem. Não são girafas. Girafas não têm aparelho vocal. Tem cachorros que só latem em urgências, porque pisam seu rabo, porque outro cachorro passa.
Talvez toda a comunicação – as notícias, as leis, a literatura e os bons modos à mesa – seja expressão de um desespero, talvez um pedaço de desespero, um dreno antes de a explosão chegar.

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garatuja (113) – inércia

Posted by Tony Monti em 28.04.2015

1. Escrevi um livro inteiro sobre memórias;
misturei
1.1. as imagens com as quais ainda me identifico
1.2. imagens das quais, suponho, me afastei
1.3. imagens que inventei para
1.3.1. o livro se aproximar do que sou hoje ou
1.3.2. o livro se afastar do que sou eu hoje.
2. Quando criança, nas férias, de dia ia à praia; de noite, eu umas vezes pegava uma cadeira seca e salgada e um livro, saía para a rua e sentava embaixo de um poste de luz para ler enquanto o mundo passava por mim. Não faço mais isso, mas ainda sou eu.

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garatuja (112) – .

Posted by Tony Monti em 23.11.2014

de domingo,
acho estranho
as pessoas
morarem
tão longe
umas
das outras.

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garatuja (111) – sonho

Posted by Tony Monti em 27.10.2014

Três mulheres, em um país oriental, a Malásia talvez, tricotavam sentadas em um sofá. Das agulhas pendiam as linhas coloridas que se ligavam em uma tela mais a frente, como um cinema. As imagens se formavam conforme a linha era trabalhada. Diferente dos computadores ou do cinema mesmo, o trabalho físico e visível do corpo produzia rapidamente a matéria da fruição.

Em uma poltrona lateral, na pequena sala de projeção, eu assistia ao filme. À minha frente uma mulher me oferecia seu peito, enquanto o sofá das tricoteiras, onde agora também se encontrava minha mãe, se deslocava à frente, de modo que eu via o filme na tela costurada, mas elas não me viam. Apenas me via a que se me oferecia. E era uma mulher bonita.

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garatuja (110) – vento

Posted by Tony Monti em 23.09.2014

Poder não é liberdade, são coisas diferentes. Poder não é obrigação nenhuma, liberdade talvez seja. Acho que poder não dá enjoos. Liberdade, acho que dá. Tem coisas que a gente pode, se quiser. Tem as que não pode, nem se quiser. Enfim, cortei o cabelo, sei como fazer. Agora quero que ele cresça (mas não consigo). Quase sempre, quando bate o vento, eu seguro os cabelos, mas eu prefiro não segurar.

Às vezes eu acordo tarde, às vezes não. Tem gente que acorda cedo todos os dias. Eu bebi fevereiro, acordei em março, meio tarde. Quanto eu te abraço, você pode dormir. Eu tomo conta do vento. Ou a gente se estapeia até cansar. Descansamos juntos. Não é de um jeito só. Achei muito estranho quando você me abraçou, tive a impressão de que você tinha medo de que eu não deixasse você ir. Eu deixo. É estranho ter que dizer.

Ficar velho é ser do mesmo jeito sempre, só um pouco pior a cada dia. Eu preciso mudar. Às vezes deixo que o mundo dê conta disso. Escrevi, escrevi. Entendi agora. Acabou. Eu corto o cabelo, mas quem cresce o cabelo não sou eu. Bem no instante em que a tesoura corta um fio, ele está crescendo. É que cabelo cresce bem devagar. Difícil é cortar as coisas que crescem rápido.

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garatuja (109) – familia

Posted by Tony Monti em 14.09.2014

Entendo a formalidade de determinadas festas, como o casamento. Fora do ritual, todas aquelas pessoas no mesmo ambiente não conseguiriam conviver.

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garatuja (108) – perdão

Posted by Tony Monti em 01.09.2014

e,
para ser mais que um superego implacável que te impõe regras e desejos extremos e imediatos,
é preciso entender que nem sempre quem te abandona é louco.

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garatuja (107) – perdão

Posted by Tony Monti em 13.08.2014

Ele vai desistir. Está tudo bem, mas nós sabemos que ele vai desistir. Ele tem que desistir porque tem que fazer outra coisa. Ele vai desistir porque alguém faz melhor que ele. Porque alguém não gosta do que ele faz. Ele tem que fazer outra coisa, bastante íntima, que ninguém faz, ninguém entende, na qual ele é excelente. Ele vai desistir logo. Se nada de ruim acontecer, ele vai desistir por tédio, porque esquecemos de incentivá-lo, porque a vida e a morte, porque a gordura, o álcool e o pó. E, se algo der certo, ele vai comemorar e ficar eufórico como uma criança. E depois vai esquecer. Ou vai se culpar por ser tão infantil. Ele vai desistir porque não se perdoa. Ele vai desistir porque é fraco, e não sabe que todos somos fracos, aquele imbecil.

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garatuja (106) – Alberto

Posted by Tony Monti em 10.08.2014

Cachorro e gato têm que ter nome de gente, para não infantilizar o bicho.
Pelo menos, “Grande” ou “Preto”.
Ou “Cavalo”.

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garatuja (105) – caminhão

Posted by Tony Monti em 18.07.2014

como é que se chama quando um caminhão passa logo depois de você atravessar uma rua, atrás de você, balançando as molas mal lubrificadas, descarregado, um monstro pesado quase oco, só umas ferramentas secas na caçamba, e não consegue frear?

como é que se chama quando você desconfia que havia alguém na rua, quando o caminhão, mas você não olha, segue o passo, respiração regular, a rua já é lá atrás?

como é que se chama quando você imagina e faz as contas das poucas pessoas que, se morressem, fariam o mundo muito pior, bem de perto, para você?

como é que se chama quando você gasta um tempo pensando em quem você queria que morresse?

como é que se chama quando, para você, algumas pessoas, você é indiferente, morre, não morre; e outras, com intensidade, com  gravidade, você quer muito, que morram e que não morram, ambas, as mesmas pessoas, como pode?

como é que se chama quando te parece que tem gente demais, que tem gente demais, que tem gente demais, e você pensa tudo com calma, resignado, sóbrio, inteiro, sólido, simples, terra, pouco, pequeno, exato, só, como quem em pensamento mata um pai?

 

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garatuja (103) – .

Posted by Tony Monti em 22.05.2014

o que tem de infantil na gente

o que tem de bruto

o que tem de bicho

não forma

nem frase

o que tem de

não entende.

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garatuja (102) –

Posted by Tony Monti em 14.05.2014

Eu escutava os músicos de perto, com os olhos, e de vez em quando espiava o movimento no bar.
O estojo era como o de um violão, mas menor.
Você toca?
Não.
Muito prazer. Sou Anestor do Bandolim.
Antonio, respondi.
Nas duas horas em que esteve no bar, Anestor circulou e conversou. Sempre que se aproximou de um grupo, manteve a caixa colada à perna direita, ao alcance da mão. Quando andava, carregava o estojo. Não se sabe se havia mesmo um bandolim no estojo de Anestor.

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garatuja (104) – camila*

Posted by Tony Monti em 08.05.2014

te parece mais lógico,
eu sei,
sentir assim tanta falta
de um período que,
como você diz,
foi rascunho de vazio.

vazio de vazio agora.

mas eu estava construindo,
sem você ver
(você viu?) –
nas brechas da sua
(incompreensível)
necessidade de sempre ir embora –
essa falta de agora.
ruim, porque um pouco vazia.
foi o rascunho incrível
(palavra sua)
que eu escrevi.

eu não estava de brincadeira,
te escutando ler
para mim
a szymborska e o benedetti,

o tempo todo ocupado
inventando histórias
para lembrar contigo hoje.

*camila, em edição

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garatuja (101) – meu budismo (4)

Posted by Tony Monti em 24.04.2014

Uma pedra tropeça e cai no abismo. Chove bastante e o vento molha a pedra e faz barulho. Bodes gritam das brechas nas paredes do abismo. Como eles chegaram lá? Estão de olhos abertos e parecem calmos. Do ponto de vista da pedra que cai, não fazem sentido as palavras pensadas pelos gregos, pelos beats, por iguanas ou por caramujos quando não caem como pedras em abismos. Uma hora a pedra para de escutar os sons. A pedra sente um alívio, uma desopressão. A água da chuva forma um lago no vento. Por uns poucos instantes ela esquece que há outro chão no fim da queda.

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garatuja (100) – kafka

Posted by Tony Monti em 07.04.2014

1. Perguntou se ele transa bem, como se procurasse um anti-histamínico.
2. Kafka não vai te curar. Pode ser que nem te ajude.
3. Quando eu era criança, não gostava de advogados porque me eram o sinal de que as pessoas não cumprem suas obrigações, não andam na linha. Havia uma linha. Eu preferia evitar os indícios de que nossa condição era mais complicada.

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garatuja (99) – meu budismo (3)*

Posted by Tony Monti em 03.04.2014

Acredito que o monge tenha escolhido ao acaso. Não conseguíamos nos livrar dos pensamentos. Nenhum de nós. Queríamos uma justificativa para cada fato, queríamos entender as intenções do mundo. Um entre alguns, foi a mim que ele incendiou.

*em edição, como tudo.

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garatuja (98) – tempo

Posted by Tony Monti em 24.03.2014

Eu jogo um dado. Dá 6. Um sexto de chance. Sorte.
Eu jogo o dado. Dá 6. Um sexto de chance. Sorte.
Um sexto vezes um sexto, um trinta e seis avos (sorte).

Pergunta 1:
se jogar de novo, devo acreditar que vai dar 6?
dado normal,
cubo regular.
um sexto de chance.
sorte.

(eu não seria o mesmo
depois de ver um dado dar 6 por,
digamos,
17 vezes seguidas.
eu procuraria o truque.
se o fato se repetisse muito mais,
ou eu insistiria na ideia do truque,
ainda que eu não o descobrisse,
ou eu me tornaria uma espécie de místico.

longe desse cenário específico,
em tudo
continuo procurando o truque
e, quase nunca consciente,
para inventar o mundo concreto,
acredito que não sou,
eu mesmo, de mentira.

deus não existe,
mas gosta de mim.)

Pergunta 2:
eu jogo o dado de novo,
dá 1.
um sexto de chance.
sorte?

Pergunta 3 (múltipla):
não é estranho que uns caras insistam
em falar de um mundo ruim,
e que isso, de algum modo,
para alguém,
possa ser bom?

Pergunta 4:
não é estranho que a gente espere
um futuro que [negue/confirme]
o que se conhece
e aquilo em que se acredita?

pergunta 5:
quem apostaria em um mundo melhor,
ou apenas surpreendente,
se raciocinasse como no caso dos dados,
ou mesmo de um jogo mais complexo,
como o xadrez,
o futebol,
o esconde-esconde,
o salto de paraquedas
ou o suicídio?

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garatuja (97) – um homem triste

Posted by Tony Monti em 11.03.2014

Ana reclamava que eu era triste. Não é saudável escolher tristeza quando a opção é felicidade. Ana não considerava que tristeza tem outros opostos, que fora do dicionário a escolha pode ser entre tristeza e desesperar-se, reclamar obsessivamente, agredir. A tristeza às vezes é paralisante. Às vezes tristeza é o tempo de a comida esfriar, de o corpo cansar e dormir, de a fila do cinema andar antes da sala escura. É a paciência de esperar o elevador, a disciplina de aguardar em vez de explodir, a possibilidade de criar uma estratégia para abrir uma porta em vez de arrombá-la.

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garatuja (96) – nota mental*

Posted by Tony Monti em 25.02.2014

Não esquecer que burrice não é o contrário de esperteza. Mesmo os mais espertos têm sempre um arsenal de burrices prontas. Não há talento que dê conta de diminuir a burrice. Burrice, se ceder, é pelo esforço. Quase nunca cede. Burrice permanece. Burrice é aquilo que na gente não muda. A esperteza é, inclusive, um tipo de burrice, um subgênero. Burrice é o que de mais autêntico há na gente.

*em edição, como tudo.

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garatuja (95) – meu budismo (2)*

Posted by Tony Monti em 18.02.2014

O ônibus parou devagar. Desviou da poça d´água. O homem olhava para o chão, para os pés e para as mãos das pessoas. Não subiu. Nem sempre quem está no ponto pega o ônibus. Não é sempre preciso seguir o vento. O homem podia estar lá para descansar, se esconder do sol ou para fumar um cigarro que alguém jogasse inteiro e aceso no chão, porque dentro do ônibus não se fuma.

*em edição, como tudo aqui.

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garatuja (94) – meu budismo*

Posted by Tony Monti em 18.02.2014

Tem horas em que a gente acerta sem perceber. Tem horas em que o lance certo parece certo pelos motivos errados. Tem horas em que a gente é incrível apenas por existir. Ou imbecil para alguém que a gente não conhece. Sorte de principiante. Mas não quero me enganar. Não pensar é pensar pior. Não pensar é pensar melhor. Não pensar é pensar diferente. Mas não pensar nunca é não pensar.

*em edição, como tudo aqui.

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garatuja (93) – joão

Posted by Tony Monti em 13.01.2014

O João estava lendo o Oham Pamuk. Eu nunca li o Oham Pamuk. O João disse que o livro era bom. Ele disse que gostou de muita coisa nas duzentas paginas lidas até então, que tinha aprendido uma coisa interessante. Uma personagem do livro disse que homens não sabem pedir.

Eu conheço o João há uns 15 anos. Tenho muitas memórias sobre o João. O João foi quem me disse sobre o Oham Pamuk, e que os homens não sabem pedir.

Acho que mulheres também não sabem. Não é mandar. Não é cumprir uma tarefa. Quem pede precisa confiar. A gente não pode ter medo de parecer fraco. Pedir é bem difícil. Confiar é profundamente difícil.

E escutar um pedido é também estranho. Porque, quando alguém pede, a distribuição dos poderes pende. E ter poder é bem perigoso, quase tão perigoso quanto não ter.

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garatuja (86) –

Posted by Tony Monti em 25.11.2013

não é só de maneiras bonitas que a gente precisa dos outros. não é inteiramente sincero desejar sorte para alguém que vai viajar, de quem a gente gosta, alguém que a gente quer perto. o ódio é um vínculo forte, é um desespero burro que às vezes tem nomes bonitos.

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Nunca escrevi um livro infantil.

Posted by Tony Monti em 07.11.2013

Nunca escrevi um livro infantil. A partir de 2004, 2005, eu escrevi memórias da minha infância. Mas eram textos adultos. Inventei memórias para uma infância inteira. Juntos, os 29 textos tornaram-se o menino da rosa, publicado em 2007.

Capa de o menino da rosa

Eu já tinha um blog. Uma parte do que publiquei mais tarde em livro passou por ali em estado bruto, antes de eu passar o buril.

Publiquei lá, certa vez, um texto curto sobre fomes, dividir, trocar, compartilhar. Era mais ou menos isso o que eu imaginava. Em 2012, a revista Palavra, do Sesc, me pediu um texto para um especial infanto-juvenil. Eu imaginei que aquele texto complexo pudesse servir. Mudei um ou dois detalhes e enviei.

trêscoisas

Quando recebi um exemplar da revista em casa, tirei uma foto de um pedaço do texto e um pedaço da interessante ilustração que a revista providenciou. Algumas pessoas pediram para ler. Muita gente gostou. Entre outros comentários, o escritor Alessandro Garcia me escreveu “isto é um livro infantil pronto”. Eu tomei a fala dele como elogio ao meu texto complexo e adulto, mas não soube de pronto utilizar a informação.

Dois dias depois, no entanto, resolvi e enviei o texto para duas editoras. Para o Fabio Weintraub, editor da SM, enviei uma mensagem no Facebook. Enviei também um e-mail para outra editora. Era quarta-feira. Na quinta, a SM disse que queria publicar um livro infantil com meu texto complexo e bastante adulto. Na sexta, acertávamos detalhes do contrato. Na terça seguinte, a outra editora me enviou também um e-mail declarando intenção de publicar, de algum modo, o texto.

Modificamos dois ou três detalhes, abrasileiramos uma palavra e abrimos mão do rigor de uma regência verbal. O Daniel Bueno fez ilustrações muito legais e coloridas. Ele é bom com coisas coloridas. Meu texto muito adulto saiu então com formato infantil, para crianças de 6 a 8 anos, um pouco mais, para crianças mais adultas, ou um pouco menos, no caso de os pais quererem contar o texto para os filhos não alfabetizados.

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Convite – Lançamento de Três coisas que eu gosto

Posted by Tony Monti em 02.11.2013

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Três coisas que eu gosto
Tony Monti

06/11 – quarta-feira
Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena
18h30 – 22h00

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Esboço de Ana – pequena explicação aos recém-chegados

Posted by Tony Monti em 09.10.2013

Andaram me perguntando em que livro meu está o conto “Esboço de Ana” (“A Sketch of Ana”). Não está em nenhum livro meu, mas na coletânea Geração Zero Zero, da qual participo com dois contos, “Esboço de Ana” e “esc“.

Os meus livros publicados estão ali na coluna da esquerda. E há também um livro infantil, Três coisas que eu gosto. Deste, houve um lançamento na Bienal do Rio e haverá, logo mais, um lançamento também em São Paulo.

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A Sketch of Ana – Revista Machado de Assis

Posted by Tony Monti em 09.10.2013

tony_capa

Saiu o número especial para a Feira de Frankfurt da REVISTA MACHADO DE ASSIS, publicada pela Biblioteca Nacional. Meu conto “Esboço de Ana” tornou-se “A Sketch of Ana”, traduzido pela Catherine Howard, e está lá.

– clique aqui para ler o conto (pdf)
– e aqui para acessar a revista

Autores na revista:

Tony Monti
André Timm
Érica Peçanha
Brisa Paim
Luci Collin
Urariano Mota
Adriana Armony
Carlito Azevedo
Fernando Morais
Lilia Schwarcz
Luiz Vilela
Marcelo Moutinho
Marcilio França Castro
Maria José Silveira
Raphael Montes
Vanessa Barbara e Emilio Fraia

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garatuja (90) – explicação sobre o vazio

Posted by Tony Monti em 27.09.2013

O contrário de cerveja sem álcool é cão sem plumas.

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garatuja (89) –

Posted by Tony Monti em 18.09.2013

Então um dia ela acordou com dor de cabeça. Maus pensamentos. Chamaria ao hospital, para onde seria levada, uma dúzia de pessoas queridas de quem tinha saudade. Não as encontrava havia muito tempo. Fantasiava antes de levantar da cama e tomar uma aspirina. Queria olhar bem de perto, ver as ranhuras do corpo, sentir o vapor que sai quando a pele fica quente ao receber carinho. Estratégia de um cérebro triste, ficar doente para ter saudade de gente que o mundo não deixa mais a gente ver.

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garatuja (85) – olfato

Posted by Tony Monti em 10.09.2013

Senti um cheiro ruim que me faz lembrar dela. É o cheiro ruim dela. É um cheiro horrível. Me lembra dela, de tudo dela, não apenas do cheiro ruim. Quando estou com ela, o cheiro ruim dela me afasta. Quando estou longe, o cheiro ruim dela é ela, é horrível, é bom.

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Três coisas que eu gosto

Posted by Tony Monti em 09.09.2013

Livro novo.
Três coisas que eu gosto.
Para crianças.
Muita ilustração e poucas frases por página.
Ilustrações do Daniel Bueno.
(aos poucos vou dando as demais informações)

capaS

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garatuja (84) – a vigésima sexta tábua (fragmento)

Posted by Tony Monti em 01.09.2013

… porque Deus é um homem estranho, cheio de manias e trejeitos, a quem a gente não leva a sério, a não ser por uma religiosidade basal que pede para que a gente entenda e perdoe as criaturas mais excêntricas. A religião, então, é a síntese de um esforço de inclusão, para permitir a existência de Deus no mundo…

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garatuja (83) – vento

Posted by Tony Monti em 22.08.2013

Alguns de nós, os que passam o dia pensando, podem ter alguma vantagem em que as coisas não aconteçam, porque a gente pode continuar a erguer hipóteses, montar conjecturas, tomar desvios, fazer ressalvas, inventar padrões. Ao contrário, se as coisas andarem, e se derem certo, alguém pode não ter o que comentar, pode perder a construção abstrata onde mora e o gramadinho onde faz sua caminhada e toma sol. Pode passar a fazer afirmações esdrúxulas que serão desmentidas (ou ignoradas) pelo mundo. Muito pior, no entanto, é que a gente pode já estar fazendo isso.

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garatuja (41a) – tranquilidade

Posted by Tony Monti em 20.08.2013

Aos poucos, somem os borbotões, toma-se consciência das oscilações, das concavidades, da contingência e das sombras. Tudo passado. As coisas acabam. Os afetos silenciam. O mundo fica cansado e a gente dorme.

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garatuja (81) – explicação sobre os ritos de passagem

Posted by Tony Monti em 14.08.2013

Até antes dos primeiros fracassos adultos, meu senso de humanidade era um tanto perverso. Eu me comovia com multidões, me sentia parte dos grupos, mas tinha dificuldade de me reconhecer nos fracassos alheios. Nesta idade, eu achava possível arrumar as coisas sem sujar as mãos. O modo como hoje alguns dos meus mais queridos amigos tratam as questões públicas me deixa triste. Ao que parece, para alguns é mais importante manter as mãos impecavelmente asseadas do que evitar que se emporcalhe a casa inteira. É preciso não sujar o discurso. Impecavelmente: de modo a não se fazer sujeito de um pecado. A ação parece uma resposta neurótica automática. De um modo torto, a esquerda encontra a aristocracia.

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garatuja (80) – reentrada

Posted by Tony Monti em 12.08.2013

Há dez anos não entro numa piscina. Não é intencional. Não é deliberado. Apenas não vou. Não sou sócio de clube nenhum. E sou mais noturno.

Há um mês comecei a me encontrar com um medo. A princípio, um frio que me arranhava de leve as costas. Depois, um vapor onde eu entrava e demorava a sair. Parecia medo de me afogar.

Matriculei-me na natação e faço hoje minha primeira aula. No caminho para a piscina me vieram as lembranças do cheiro da água clorada e do modo agradável como os olhos ardem quando a gente mergulha para ver o fundo de perto.

Sentado na borda, olhei e escutei, para me camuflar no ambiente e adiar três minutos a reentrada.

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garatuja (79) – ab-grund

Posted by Tony Monti em 06.08.2013

Por ódio, tem gente que escreve um livro. Por egoísmo, tem gente que oferece carinho. Por gostar, tem gente que cava um abismo. Valorizo quem transforma o motivo qualquer em algo bonito. Os motivos a gente nunca conhece mesmo. É sempre confuso o que move a gente.

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garatuja (77) – mais uma explicação sobre o amor

Posted by Tony Monti em 08.07.2013

1. É a loucura a assinatura da gente. Os bons argumentos não nos fazem diferentes dos outros. A razão se apoia nas ranhuras da loucura. A razão é uma hipótese, uma abstração supostamente idêntica para todo mundo. Alguns tomam para si a intenção de ser racional o tempo todo. É a loucura deles.

2. O estilo, o específico, ainda que também seja em parte o resultado de um planejamento, é aquilo de que a gente não consegue mesmo fugir. Não se trata, vale dizer, de um destino duro, da ponta sólida de uma flecha metafísica. É aquilo que se repete em um percurso, que insiste com imensa inércia até que, embora improvável e raro, seja mudado. O estilo são os lapsos, a inconsciência, tudo o que escapa daquilo que a gente persegue. O estilo é forjado à margem, na sombra, enquanto a gente se esforça para estreitar um foco. É fabricado por um esforço, acredito que sim, mas não quando estamos olhando (ou nas frestas do que a gente vê, nas melancolias e nos desesperos que preenchem a calma).

3. Se a gente esquece que uma parte do animal racional é animal, a gente ignora os instantes em que duas loucuras se encontram. E isso pode ser tudo o que há para ver.

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garatuja (78) – explicação sobre a felicidade dos outros

Posted by Tony Monti em 03.07.2013

se digo que muito pensamento não contraria muito afeto,
que até se completam,
se eu digo que não sou maniqueísta,
que posso discordar sem deixar de gostar de alguém.
estou tentando mais evitar que você ame
os outros lugares, as outras coisas e principalmente as outras pessoas,
ou que você me engula
como prédios enormes que caem sobre aquários durante os terremotos?

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A noite do mundo – considerações quase abstratas sobre a corrupção

Posted by Tony Monti em 22.06.2013

1. A NOITE DO MUNDO

Tem gente que acha que o mundo é uma enorme máquina, eventualmente mal lubrificada, eventualmente suja, eventualmente velha. Para estas pessoas, basta azeitar as engrenagens, limpar os contatos, substituir peças vencidas e renovar os processos ultrapassados para que o mundo funcione bem. Ordem e progresso. O mundo é sempre um objeto, é sempre os outros. Não há ligação entre, de um lado, meus desejos, minhas habilidades e minhas fraquezas [eu] e (2) minha concepção do que é o que eu vejo [o mundo].

Neste modo im(positivo) de ver, não há sombras, não há falhas que não sejam gerenciáveis. Eu me imponho ao mundo e não reconheço qualquer outro sujeito no que enxergo. O único sujeito possível é meu modo de ver e o modo como me imponho.

Ao contrário, há outras pessoas que fazem uma diferença entre sujeira e sombra. Haveria uma sombra essencial nas coisas. Hegel falava em “noite do mundo”. A psicanálise fala em inconsciente. Uma região negativa seria parte inalienável do mundo que (des)conhecemos. É uma sobra difícil de lidar, que nos molda e à qual temos acesso apenas indiretamente.

Esta maneira de pensar e ver, ainda que num primeiro momento pareça frágil, minada por um fatal desconhecimento das coisas, tem consequências importantes. É apenas quando se nota que os erros são parte da existência que surgem a possibilidade do perdão tranquilo e a tentativa de agir às claras, apesar da escuridão, sem a perversa compulsão pela limpeza. A aceitação do desconhecido permite que operemos em um conjunto de subjetividades, múltiplas, que convivem na rua, ainda que discordem em seus desejos. Nós e mundo se interpenetram e se confundem, são definíveis apenas em diálogo.

Quando se tenta operar em grupo, é perigosíssimo não guardar uma plasticidade nas regras objetivas para os momentos em que algo dá errado. Sabemos intimamente que falhamos. O resultado de não conseguir projetar no mundo que vemos essa falha constitutiva é a produção de delatores cruéis, heróis suicidas e assassinos que se julgam justiceiros. É um mundo infantilmente mau, em que somos empurrados pelos instintos e não reconhecemos regra nem nenhum sujeito no mundo. É autoritário e individualista.

2. A CORRUPÇÂO

Não quero fazer uma passagem abrupta da descrição de uma personalidade autoritária para a escolha da corrupção como bandeira política. Não acho que seja uma consequência automática. No entanto, é preciso estar atento: a bandeira da corrupção é facilmente apropriada por quem não enxerga o outro como sujeito. Ninguém é a favor da corrupção. As sombras do espaço público são uma região turbulenta, incontrolável, violenta, como é o inconsciente da gente. A regra social já existe, a corrupção é o que sobra. Ainda que seja melhor evitar nossa bestialidade intrínseca, não conseguimos apanhá-la pela frente. É na consciência, nas palavras ditas, no mundo explícito e concreto que podemos agir.

Em outras palavras, a corrupção como bandeira política costuma estar associada à acusação do outro e a nenhuma autoconsciência. É preciso mudar hábitos e criar condições materiais para que as pessoas ajam às claras, sem querer se esconder dos outros e de si. Não adianta fazer a reclamação vazia sobre a corrupção porque, às claras, já concordamos sobre ela. Mas no subterrâneo, construímos modos de nos desculpar das bobagens que fazemos. No subterrâneo a gente sequer reconhece regras, a gente só tem desejos.

3. QUEM É CORRUPTO?

A acusação de corrupção desconsidera que somos uma sociedade cheia de problemas estruturais, desconsidera que a gente já inventou ao longo da história mil desculpas para descumprir regras. Se conseguirmos melhorar as condições para as pessoas viverem e agirem sem precisar se esconder, vai restar menos agitação nas sombras. Ou, pelo menos, ocuparemos as sombras com outros fantasmas (o que, reconheço, pode também ser uma conclusão bastante negativa).

Ainda, no mundo concreto do jogo político, ninguém está apenas contra a corrupção. A política real não trabalha com categorias assim abstratas, soltas no ar, em estado de dicionário. As pessoas estão contra corruptos específicos, em geral os corruptos do outro partido. Isso é bastante desonesto porque esconde intencionalmente qualquer autocrítica. No fim das contas, a gente acaba acusando pessoas, encontrando bodes expiatórios, sem modificar as estruturas do espaço público. Ser contra a corrupção é, na prática, um pouco como briga de torcida, rebaixa a discussão política a uma contraposição sectária burra.

Não quero dizer que devamos ignorar a corrupção, que não devamos estar de olho nela e tomar providências (legais) a respeito. Mas colocar o foco nesta questão é impor, no modo como escolhemos nossas demandas, uma maneira autoritária de pensar. No subtexto da reivindicação, ao escolher a corrupção como problema central, aprovamos no espaço público, discretamente, um autoritarismo que não combina com a boa convivência.

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Ontem foi tão absurdamente grande que parece que algo pede para a gente ficar só olhando.

Posted by Tony Monti em 18.06.2013

1. Na terça-feira passada, passei pela Avenida Paulista depois das 10h da noite. A polícia atirava bombas sobre poucas dezenas de pessoas que continuavam no Terceiro Ato. Tive que correr da polícia. Eu estava com um amigo. Fugimos para lugares diferentes. Acabei pegando o caminho de casa. Voltei pensando em o quanto é difícil pensar em causas complexas, quando a gente, na urgência, tem que fugir de bombas.

Ontem, no meio do Ato gigante, fiquei bastante comovido. É difícil ficar ausente no meio da multidão. O louco, penso eu agora, é que, semelhante a fugir das bombas, a comunhão na rua nos coloca em um fruir presente infinito. Por si mesma, a multidão não é muito afeita a pensar as nuances do que acontece. As bombas e a multidão são enormes imagens de provocação, mas costumam se distrair dos detalhes.

2. Os números de ontem, é claro, valem mais que vinte centavos. A causa é outra. A causa é múltipla. Não acredito que seja possível entender as manifestações em função das causas declaradas. Por isso, é ingênuo perguntar se os discursos conservadores que surgem com a insurreição não invalidam os possíveis ganhos específicos do movimento. O movimento é em si a causa. Ocupar a rua é experiência no espaço público significativa o suficiente.

3.  No começo do Ato de ontem, muitas vozes pediam que as bandeiras partidárias fossem abaixadas. É óbvio que partido nenhum colocaria tanta gente na rua. É também pela ausência de direção e causa específica que as pessoas se sentiram chamadas a manifestar suas demandas individuais. Mas não me parece razoável eliminar as tensões e as divergências desse movimento. A possibilidade da vida na rua precisa da habilidade de conviver na diferença. Eliminar (no grito) as bandeiras dos partidos me parecia ali bobo, me parecia ali perder as próprias tensões que produzem o movimento. Mais, eliminar as bandeiras era, em parte, subir bandeiras imaginárias de partidos que não têm coragem nem militância para estar ali.

4. Quando tanta gente vai à rua reclamar de alguma coisa, é claro que os discursos são incoerentes. Antes de ir à rua, de pensar e experimentar o espaço público, fora dos carros, das casas e dos pensamentos mesquinhos, essas pessoas pensavam o quê? É razoável que elas falem exatamente o que pensavam antes. Conviver na rua tem dessas, a gente tem que escutar o mundo. Como exercício, ajuda, sem dúvida, a pensar.

5. Ainda comovido, fico agora preocupado com os significados que a gente vai produzir a partir da coisa que ontem brotou do chão. Queria que a gente resistisse à tentação de se paralisar em frente à imagem da manifestação, tão absurdamente grande que parece pedir que a gente fique só olhando.

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garatuja (73) – explicação sobre a tecnologia portátil

Posted by Tony Monti em 20.04.2013

Eu acordo de manhã sem vontade de acordar. Levanto da cama e, no caminho para a cozinha, paro na sala, onde está o computador ligado. É o despertar, a possibilidade de que alguma notícia esteja me esperando, de que, durante meu sono, alguém tenha me mandado um e-mail. Às vezes, durante o dia, tiro um cochilo no quarto com o computador ao lado, na cama. Acordo, verifico os e-mails e vou até a sala, onde o computador não está, mas deveria estar. Decepção. Não há o que procurar. Nada. Não há nada lá. Nada vai acontecer.

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garatuja (72) – explicação sobre os bancos de praça

Posted by Tony Monti em 19.04.2013

Era um daqueles bancos de praça de concreto. Uns duzentos quilos. Já não estávamos sentados. Ela olhava para mim com o rosto assustado. Eu andava rápido em volta do banco. De vez em quando mudava de sentido. Ela mexia os pés quase no mesmo lugar, os joelhos unidos em súplica, ameaçava mas não dizia nada, girando aos poucos em torno de si para acompanhar com os olhos o meu percurso e o meu andar violento.

Eu também já tinha parado de falar. Suava, coração acelerado, com lágrimas encravadas. Quando eu mudava a direção do percurso, ela esticava um pouco os braços. Seus gestos pediam que eu parasse. Estávamos ali no pátio havia uma hora, não mais. Era um tempo concentrado, uma hora que continha dois anos de dificuldades de nos entendermos.

Neste momento eu parei de andar em círculos. Parecia que apenas mudaria de sentido mais uma vez. Ela já esticava os braços quando eu abaixei um pouco os joelhos, coloquei meus braços por baixo do banco e arremessei aquele bloco absurdo de concreto vinte centímetros à frente. Quando o banco caiu, eu estava ao lado dela. Havia riscos grossos de sangue no meu antebraço. Eu estava cansado. Finalmente, em dois anos, tive a impressão de que ela entendeu algo.

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garatuja (71) – explicação sobre a solidão

Posted by Tony Monti em 17.04.2013

Não, eu não me refiro à solidão da mulher bonita, quando quer deixar de ser desejada por minutos para relaxar aliviada os músculos da face. Imagine um contrário para isso, a solidão de quem é dispensável.

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garatuja (70) – explicação sobre os touros

Posted by Tony Monti em 11.04.2013

1. A gente não é o bicho mais racional. Seria ruim considerar que não há nada além de deixar-se levar? Os latinos traduziram o pathos grego por afecção, algo que vem de fora, o que torna evidente o estado passivo do apaixonado. Não é que o apaixonado não possa se mexer. É que a paixão é um outro impiedoso que toma e  controla a vítima. Freud disse que há um outro que a gente carrega conosco e a quem nunca conheceremos para além de uns cacos com pouco sentido que esse outro sempre deixa escapar (talvez “deixar escapar” não seja a ideia exata, talvez esse outro seja uma caixa preta que nos perturba sem explicação). Lacan certa vez sugeriu que o que a gente chama de Eu não é muito diferente de uma coleção desses cacos que o outro às vezes arremessa para fora de si, em cima da gente, e nos faz perceber à força a sua existência, que neste caso se confunde com nossa própria existência. Nós seríamos assim uma coleção de pedaços desconexos de paixão. Nós seríamos assim um apanhado de forças que nos moldam de fora para dentro, embora seja difícil definir fora e dentro.

2. Breve descrição sobre Eu: estou ansioso, às vezes dói, às vezes dói bastante. Já estive nesta situação outras vezes. Não é a dor enclausurante de quem não vê nada acontecendo. Estou distante da apatia. Coisas intensas acontecem. A experiência diz que parte dos fatos mais significativos da vida acontecem nestes momentos, quando estou superalerta. Em outras situações, porque dói muito, se após a dor o que vem é decepção (o nada), estas situações diametralmente opostas à apatia são o prenúncio de enormes amontoados de merda.

3. É preciso redefinir “fatos significativos”  e “enormes amontoados de merda” para não parecer que o pior é maior que o melhor que pode acontecer. O que acontece de positivo pode ser tão enorme quanto eu consigo imaginar. A experiência diz (e/ou me engana) que pode ser bem bom.

4. Pode-se inventar uma diferença entre duas palavras semelhantes para fixar uma lembrança: um rompante é uma explosão em que o descontrole pode ser enorme, mas não é absoluto.

5. Talvez sejamos, não o produto de um outro que carregamos nas costas, mas dos sacolejos da besta sobre a qual irremediavelmente estamos atados. Parece com montar (sobre) um touro, mas é o bicho que nos (sub) monta.

6. Observei com calma, conversei com amigos, a única coisa razoável a se fazer é não explodir, o que talvez seja possível. É não se destruir com os cacos que o outro (que carregamos nas costas, que nos submonta, que nos controla, que nos molda) arremessa na gente. “Apenas aguardar” seria uma descrição leviana da atitude. Apenas esperar parece com dormir tranquilamente em uma rede, temperatura morna, silêncio que se confunde com o barulho do mar e com o cheiro de comida no fogão. Refiro-me a amarrar-se em casa, fugir, sumir, quebrar o telefone celular, jogar dias seguidos partidas de xadrez de um minuto na internet, alucinadamente, comer pouco ou muito, imbecilmente, correr na rua por horas para conseguir esgotar as energias físicas, telefonar de madrugada para alguém distante que não vai entender nada, fazer o tempo passar à força, mesmo que o tempo não queira. É por isso que algumas pessoas ficam insones. Elas precisam provocar a exaustão como modo de esperar. Nada de rede para deitar. Aguardar é uma estratégia vigorosa, detalhada e absurdamente tensa. A experiência diz que as grandes merdas e as melhores experiências começam às vezes do mesmo modo. E a única chance de não provocar irrevogavelmente a queda no abismo é o esforço por não arremessar os cacos longe demais. Apenas isso. Rompantes em vez de explosões. Não há nada mais o que fazer. E pode dar errado.

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garatuja (69) – explicação sobre a pontualidade

Posted by Tony Monti em 02.04.2013

Tem gente que passa a vida procurando o que fazer, o que ser, com quem estar. Nos raros momentos em que a vida parece garantida, que é só aguardar e estar em um lugar às 8h, tem gente que se sente livre e se distrai. Aparece uma vontade de fazer coisas, ler um livro, ver um filme, desenhar, jogar uma longa partida de xadrez. Então é que se atrasa, talvez apenas porque atrasar seja possível, porque algo faz tanto sentido que seria possível esperar e existir discretamente por semanas.

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