tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
    (2013)


    Capa de eXato acidente
    eXato acidente
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    o menino da rosa
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    o mentiroso
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Archive for the ‘sonhos’ Category

garatuja (111) – sonho

Posted by Tony Monti em 27.10.2014

Três mulheres, em um país oriental, a Malásia talvez, tricotavam sentadas em um sofá. Das agulhas pendiam as linhas coloridas que se ligavam em uma tela mais a frente, como um cinema. As imagens se formavam conforme a linha era trabalhada. Diferente dos computadores ou do cinema mesmo, o trabalho físico e visível do corpo produzia rapidamente a matéria da fruição.

Em uma poltrona lateral, na pequena sala de projeção, eu assistia ao filme. À minha frente uma mulher me oferecia seu peito, enquanto o sofá das tricoteiras, onde agora também se encontrava minha mãe, se deslocava à frente, de modo que eu via o filme na tela costurada, mas elas não me viam. Apenas me via a que se me oferecia. E era uma mulher bonita.

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garatuja (55) – estrutura, o item número 31

Posted by Tony Monti em 03.01.2013

Listei ontem cinquenta experiências estranhas que vivi. O item número 50 é uma blague, é a própria lista. Incluí pequenas narrativas, descrições de estados de humor e de maneiras de estar no mundo. Evitei insistir em bebedeiras. Sóbrio, portanto. Utilizei canetas coloridas, a princípio para adicionar sentidos à lista, mas me perdi. As cores, no fim das contas, até onde eu percebo, não são mais que um aspecto sensorial que transforma a lista em um objeto mais interessante. E foi bom usar cores.

Tentei não ser repetitivo nos assuntos para que a lista não se parecesse com um catálogo das minhas sessões de psicanálise: a insistência imparável da mesma estrutura. Ainda assim, os itens 6, 11, 19, 21, 22, 23, 34, 43 e 45 podem ser mapeados, com mínimas variações, por não mais que uma dúzia de itens, funções e objetos. Mudam apenas os nomes. Passei essas décadas fazendo as mesmas coisas.

Guardei a número 31 para algo que talvez aconteça em breve. Ter um apartamento próprio me soa mais estranho que ter escrito um mestrado a mão, canetas coloridas, muitos rabiscos, figuras e remissões, e nenhum back up (número 37), ou digitar as 180 páginas do livro que eu estudava no mesmo mestrado (número 41). Ser dono de um espaço? A maluquice me apareceu primeiro pela dimensão. Percebo agora que o que me estranha é a própria noção de propriedade.

Nunca me incomodei por possuir dois pares confortáveis de tênis ou uma mochila. Facilitam o movimento. Por outro lado, neste aspecto, não me dou bem nem com os livros. Para quê? Ficam parados na estante. Ter na estante livros que não folheio há mais de 10 anos é o item número 44. Por ser uma coisa enorme, o apartamento faz do item 31 um dos onze itens com mais inércia.

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garatuja (51) – tempo

Posted by Tony Monti em 22.11.2012

1. Quando um escorpião de areia sai da toca, ele deixa atrás de si um rastro de pequenos grãos. Depois, conforme se arrasta, faz um trilho comprido. A vontade, a energia e a precisão necessárias para fazer a areia voltar à disposição inicial não são compatíveis com as habilidades do escorpião. Nem com as do vento. O tempo é assim sem volta, como um deserto de areia quando um bicho passa.

2. Sonhei com um deserto plano de areia fina. Um vento fraco fazia subir do chão uma nuvem que embaçava tudo. Eu não percebi que havia um escorpião nos processos subterrâneos do sonho. Ele brotou da areia como um pelo que desencrava e rompe a pele. Era pequeno e quase transparente. Sua casca fina parecia um olho bem claro e deixava ver seus mecanismos interiores. Resolvi que queria, por mais um tempo, apenas a areia e o vento, sem o escorpião. Talvez fosse mais cômodo dormir assim. Súbito o brotamento do bicho deixou de ser um fato do sonho e tornou-se pensamento. O deserto branco voltou a ocupar tudo o que eu via. O escorpião tornou-se um vestígio de ideia. O rastro não era mais de areia, mas de memória. Logo a memória desapareceu também, como se a gente pudesse consertar o que fez, sem deixar marcas.

3. No sonho o tempo às vezes parece um acúmulo de eventos intercambiáveis como os quadradinhos do cubo mágico.

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sonhos #9

Posted by Tony Monti em 03.04.2011

Depois de muito tempo, ontem sonhei contigo. O sonho tem tantos elementos estranhos que fico, agora que acordei, com vergonha de ser tão dissimulado comigo mesmo. Estávamos no Japão, com pessoas variadas por perto. Você estava muito queimada de sol. Alguns fatos impediam que nos aproximássemos. Houve um terremoto, você tinha um namorado vigilante, nos perdíamos no prédio enorme e não conversávamos embora fosse óbvio que deveríamos conversar. Você não estava tão bonita, mas eu te achava linda. Quando você falou, a dificuldade de nos entendermos aumentou. Tive a impressão de que suas falas obedeciam as formalidades mas não me diziam nada. Parecia mentira, mas não parecia apenas intencional. Parecia o índice de uma confusão. Me protegi do terremoto embaixo de um batente, mas pensava em você. Pedi a minha mãe que se afastasse um pouco para eu conversar contigo. Fui discreto por causa das outras pessoas. Minha mãe ficou nervosa e senti o coração dela acelerado. Tentei acalmá-la. Depois, quando acordei, era meu o coração acelerado. Talvez o terremoto também fosse meu coração. Entrelaçamos uns dedos sem nos olharmos. Você torceu o rosto apertando bem a minha mão. O Japão talvez tenha surgido na história por causa do terremoto e por causa do meu coração. Tenho vontade de falar deus, de pedir explicações. Estes sonhos são meu limite. Às vezes quando estou sozinho, andando pela casa, dirigindo, em alguma atividade rotineira que não exige concentração, eu penso frases soltas. Eu penso “o que você quer dizer?”, que normalmente é uma pergunta dirigida por uma pessoa imaginada a mim. Eu penso “para que isso?”, que é indignado como a vontade de dizer deus. Eu penso “boa, Tony”. Eu penso “Cadê você?”. Eu penso “por que não?” também como demanda, em um mundo que me prende, não como decisão de ser mais livre. Nenhuma das perguntas tem destinatário certo, nem contexto detalhado. A não ser quando é para mim mesmo. A não ser quando é para deus, em que não acredito, que não existe. Mas a palavra é deus mesmo.

(os sonhos #1 a #8 estão nos arquivos do ano passado. alguns deles têm narrativas melhores e fazem mais sentido do que este. há outros sonhos espalhados, transcritos, sem que sonhos #x seja o título do post)

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sonhos #8

Posted by Tony Monti em 19.09.2010

Estávamos no carro. Eu era adulto. Meu pai dirigia, minha mãe no banco da frente, minha irmã comigo no de trás, como quando criança. Havia mais gente no carro: duas mulheres, um homem e uma criança, não tenho certeza. Eu estava encostado, no canto atrás do motorista, tranquilo, feliz talvez por experimentar estar ali sem me esconder. A sensação que eu consigo descrever é essa. Estranha assim. Eu achava também que as pessoas desconhecidas me observavam e pensavam isso, que eu era adulto e estava ali tranquilo. Agora acordado, imagino que a sensação se relaciona com o fato de meu pai dirigir o carro, minha mão estar no banco da frente e eu estar sendo conduzido, com aquela necessidade adolescente de sobreafirmação em relação aos pais, de dizer que não era criança. Eu estava tranquilo, com a convicção íntima de ter superado essa necessidade (tento agora descrever a sensação que era muito menos explicada enquanto eu viva o sonho). Ao mesmo tempo, e isso aumentou conforme a situação ficou tensa, parecia que conforme as pessoas da família perdiam a calma, eu tentava manter o equilíbrio. Um grito solitário tentando manter a direção do carro.

Voltávamos da praia, talvez, como quando eu era criança. Meu irmão não estava conosco, como às vezes (poucas) acontece quando sonho com o núcleo familiar mais próximo.

Um policial pára o carro e abre o porta-malas. Meu pai conversa com ele. O guarda encontra alguma coisa suspeita (eu não achava que pudesse haver algo suspeito). No sonho, essa coisa era uma maleta com produtos químicos que meu pai usaria para produzir experiências curiosas e brincar com a criança do carro. Essa criança não era, mas parecia meus primos mais novos, com quem meu pai convive de perto hoje. O outro homem adulto (fora eu) também vai ajudar na argumentação fora do carro. Ele funciona como pai do menino. Quando parece que o policial encrenca mesmo com a situação, resolvemos sair com o carro e esperar meu pai em outro lugar. Minha irmã pega a direção. Havia muito trânsito na estrada, quase atropelamos meu pai e a criança quando eles atravessavam a rua. Acho que meu pai estava vestido com um agasalho que ele usava quando eu era criança. Na época, eu tinha um agasalho igual ao dele, mas só lembrei disso agora, acordado.

(Há quatro anos, meu pai ficou no hospital por semanas. Por grande parte do tempo, ele ficou sedado. Minha irmã tomou conta das questões profissionais dele. Eu tomei conta da minha mãe e a acompanhei por algum tempo nas idas e vindas diárias da casa ao hospital.)

De repente começou um tiroteio na rua. Cena de cinema em uma enorme estrada, como se as pessoas fugissem de um ciclone. Estávamos no meio do enorme fluxo de carros. Minha irmã tentou estacionar, mas, quando ela parava o carro, o tiroteio aumentou e uma correria por perto nos convenceu de que era melhor sair dali. Minha irmã acelerou, tentava voltar para a estrada. Muitos tiros. As pessoas do carro gritavam “corre, corre” e eu gritava “devagar”, com receio de que ela batesse o carro por causa da pressa. Estávamos indo de ré, saindo de um estacionamento, no meio de uma estrada, buscando um lugar para seguir um caminho e fugir dali.

(Lembrei de uma situação em que, quando eu era criança, o carro do meu pai derrapou numa estrada e quase batemos muito feio. Durante os segundos do processo, meu pai se esforçou para dirigir, minha mãe e minha irmã gritaram qualquer coisa (talvez também meu irmão) e eu fiquei quieto – por algum motivo me emociona contar este ponto. Depois, a versão da história que contávamos sempre incluía o fato de eu ter ficado quieto. Eu me julgava calmo, definitivamente calmo, e tinha algum orgulho disso. Observando nos últimos anos de novo este passado, vejo que eu não era tão calmo assim. Nem sou tão calmo assim. Sou bem mais inquieto do que eu supunha. Modulei e dei outros tons àquele pensamento chapado sobre essa minha calma. N’o menino da rosa tem algo sobre isso.)

Tenho tido dificuldades com o sono nas últimas semanas. Tenho sonhado pouco. Acordei muito agitado, com o coração acelerado. Suponho que em situações parecidas com a da narrativa, eu ficaria mais calmo do que o desespero m0mentâneo de quando acordei. No domínio estrito das imagens do sonho eu tinha estado o tempo todo razoavelmente tranquilo. Levantei depois de apenas 3 horas na cama e não voltei para lá. Olhei e-mails e rodei os jornais do dia na internet. Comecei a escrever o sonho aqui.

Quando meu pai ficou doente, houve um momento importante para mim; uma passagem clara de um estado infantil para um estado adulto. Chorei por quase dois dias sem tomar a decisão de ir ao hospital. Chorei depois no hospital em frente a todos os familiares. Eu, o calmo, estava mais desesperado que todo mundo. Dormi na noite de terça (dois dias depois de meu pai entrar na uti às pressas) na casa dos meus pais, sem meu pai (me emociono aqui também). Acordei na quarta resolvido a tomar conta da situação, a tomar as decisões certas, a analisar as questões e ajudar da melhor forma naquela enorme confusão que se acumulava. Meu irmão estava com o casamento marcado para o sábado seguinte e estava perdido a ponto de me pedir conselhos, pela primeira vez na nossa vida adulta, sobre o que fazer. Eu saía de uma relação muito turbulenta com uma namorada. Falava com ela pelo telefone, direto da casa da minha mãe, quase todos os dias de noite. Eles moram a pouco mais de 100Km de São Paulo. Tenho a impressão de que, a partir desse dia, as coisas se encaminharam. O pensamento ao qual me agarrei naquela noite era que, apesar de estar longe do meu controle fazer meu pai sobreviver ou não, eu estava vivo e, disso, eu poderia cuidar.

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sonhos #7

Posted by Tony Monti em 03.09.2010

Tenho sonhado menos nos últimos dias. Ou tenho lembrado menos. O sono tem sido mais tranquilo. Suponho que não matei nem morri recentemente. Não acho que seja coincidência que no início desse período eu tenha resolvido uma sutil e antiga pendência emocional. Um tornar leve a caminhada. Posso agora ir, dormir sem espasmos. Oportunidade de caminhar também acordado.

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sonhos #6

Posted by Tony Monti em 31.08.2010

A história dos cachorros é simples, quase que ordinária, apenas uma catalogação. Eu nunca tive cachorros ou gatos em casa. Criei peixes de aquário por muito tempo e ficava encantado ao encontrar filhotinhos novos nadando junto com os adultos, às vezes sendo devorados por eles. Mas o aquário não é comparável ao calor do contato, aos cheiros, à baba e à aspereza da língua de bicho de sangue quente. O aquário tem o afastamento de uma televisão.

Minha mãe tem agora cachorros na casa dela. Minha relação com eles se resume ao tempo de, por algum motivo, atravessar o quintal ou a quando eu me sinto sozinho e vou procurá-los na porta da sala, para ver a disponibilidade deles, para deixar que eles me cheirem a mão através da porta de tela. Gosto de vê-los, assim com a qualquer animal. Tenho a impressão de que aprendo alguma coisa. Dê uma olhada no bestiário que é meu último livro. Mas não sei conviver com eles. Com gatos, parece mais fácil, mas talvez seja devido à indiferença deles e não a algum saber meu.

Tive duas namoradas que tinham gatos. Elas os amavam muito. E tive uma história curiosa que contei rápido em um conto a ser publicado ainda este ano (não vou contar aqui para não diluir o conto). Eu era alérgico a gatos, mas a alergia passou no tempo em que fiz psicanálise (e contava sonhos para o psicanalista).

Uma vez uma moça me disse que eu olhava para ela como se eu brincasse com um cachorrinho. Acho que ela tinha certa razão. Eu gostava dela de muitas maneiras e uma delas, acho, parecia com a que minha ex-namoradas gostavam de seus gatos. Um dos modos como eu gosto das pessoas, um dos principais, é um como algumas pessoas gostam dos bichos.

O sonho é simples, mas se repetiu por anos de maneiras muito diferentes. Do mesmo modo como tomo tiros às vezes, um cachorro vem me morder. Eu reajo e chuto sua cabeça. Simples assim. Dá certo. Relatei algo parecido em conto do eXato acidente. De cachorro quase sempre eu tenho medo.

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perdi o timing

Posted by Tony Monti em 24.08.2010

  

Acordei cedo depois de dormir quase 8h, conjugacão raríssima nas últimas semanas. Uma série de pequenos fatos me deixam agitado. O mundo acontece, mas eu estou ainda fora do tempo. Sonhei muito, nada relevante demais. Eu escolhia chocolates para comer ao lado do meu pai, distraído, e da minha mãe, atenta mas em silêncio. Ninguém comentou a enorme quantidade de chocolates que eu separei antes de procurar a coca zero que os acompanharia. Tive sonhos românticos. Fazia tempo que não os tinha tão claros. Não acordei apenas disposto. Acordei maluco para fazer algo. Nos sonhos, meu timing ainda funciona e, comparado à assincronia da vigília, pede ação (ou depressão), há algo a ser compensado. Hoje, tentarei fazer coisas. 

Ontem comecei a fazer exercícios. Já omecei a fazer exercícios muitas vezes. Quase sempre, como ontem, me surpreendo como meu corpo ainda responde bem. Hoje, apesar de não ter forçado nada ontem, alguns músculos reclamam em sussurro. Talvez a agitação venha disso também. É bom que ela diminua, para que eu não me perca na pressa.

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Posted by Tony Monti em 16.08.2010

o blog anda meio mórbido, não? só publico os sonhos enrolados…

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sonhos #5

Posted by Tony Monti em 16.08.2010

O que me surpreendeu hoje foi o fato de estarmos os cinco juntos, como um organismo. Logo antes, na cena anterior, eu tomei um tiro no pescoço. Poderia dizer também “sonho anterior”, porque um enredo lembra pouco o outro. Eu estava numa calçada, andando. De repente as pessoas começam a se movimentar, a fugir de um ponto específico. Na multidão eu não consigo ir com eles. Surge então, alguém com um revólver apontado para mim. Eu imaginei que, sem um motivo, ele não atiraria. Atrás de mim, a massa de pessoas era compacta e não permitia que eu me afastasse. Ele atirou. Eu não senti dor. Foi um tiro no pescoço. Não cheguei a colocar a mão no lugar do ferimento. Não caí, não perdi o a consciência. Tinha dúvida sobre o tiro ter ou não me machucado. Ao mesmo tempo, a razão me dizia que eu ia morrer. No rosto das pessoas que me olhavam, eu via a expressão em relação ao que elas viam. Talvez sangue – meu sangue nos olhos delas -, talvez pensassem o mesmo que eu, que eu ia morrer. Não apareceram pessoas conhecidas. Agora escrevendo, no entanto, imagino que meu pai chegaria tranquilo e me levaria para lugar mais protegido. A sensação é estranha e clara, e talvez estivesse já no sonho, mesmo sem a imagem do meu pai.

Na cena seguinte (no sonho seguinte) é que estamos os cinco juntos, na casa. Quando eu era criança, eu tinha uns cinco anos, pediram na escola para eu desenhar minha família. Não tive dúvida quanto a isso. Fiz os contornos e pintei meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã e eu. Quando eu estava na sexta série me pediram para me desenhar. A professora riu porque eu era dos poucos alunos da sala que intencionalmente fez uma espécie de caricatura. Eu aumentei muito meu óculos de lentes grossas enquanto a maioria dos outros tentou parecer mais bonito. No desenho do pré, eu esqueci os braços de todos. Pessoas sem braços. Parece hoje meio incrível saber bem quem é a minha família e esquecer um pedaço tão concreto do corpo de cada um. Quando tinha a mesma idade que eu, na mesma escola, pediram também ao meu irmão que nos desenhasse. O desenho dele é em resumo o mesmo que o meu. Mas as pessoas tinham braços. E os homens tinham um pênis bem evidente no meio das pernas. 

A família e a casa onde morei na infância são, quando aparecem nos sonhos, quase que uma única coisa. É tudo tão íntimo que é como se tudo fosse eu, sem divisas. N’o menino da rosa, eu falei disso mais de uma vez.  Neste sonho especificamente, além de bem unidas, as partes não entraram em grandes conflitos. A tensão era entre nós e o exterior. Homens cercavam a casa e queriam entrar. Ladrões.

Lembro de passagem de algumas cenas tranquilas. Meu pai estava um pouco inseguro se devia abrir ou fechar as cortinas. Minha irmã, em vez de falar com a policia, passa o telefone para minha mãe. Eu achava, no momento, que seria melhor que minha irmã falasse, mas logo entendi que a facilidade com que minha mãe fala poderia ajudar. Os cinco na casa e eles andando lá fora. A gente vendo os vultos.

Conforme o tempo passava eu via uma janela aberta, uma porta aberta e os os vultos foram ficando mais frequentes e nítidos. Não entendia bem o porquê de eles não terem ainda entrado. Talvez porque se eles nos assuntavam, eles também ficaavam assustados conosco. Se eles entrassem, haveria uma definição no andamento da história. Enquanto eles estavam lá fora, a ameaça deixava as sensações mais invisíveis e o futuro, potencialmente, trágico. A dúvida pode aumentar o tamanho do que ainda não é um fato. Me lembra muito o conhecido conto do Cortázar, “A casa tomada”, mas durante o sonho não fiz a associação. Na faculdade, eu fiz um trabalho sobre ele e o comparei a um do Poe, “A queda da casa de Usher”. Eu suspeitava que os casais de irmãos, que viviam nas casas dos contos, tinham uma tensão insestuosa por traz de suas ações. No meu sonho, a tensão era bem diferente, a de ter uma unidade tão evidente invadida por estranhos.

Lembro bem das gavetas, da renda da cortina, das pequenas marcas no chão. Conheço melhor esta casa onde passei a infância do que o apartamento onde eu moro hoje.

A cena acabou quando os invasores começaram a entrar, por uma janela ao lado de um armário onde minha mãe tinha se escondido e onde eu ia entrar. Meus irmãos e meu pai esperavam a vez, em fila. Sem muita pressa, sem desespero, em ordem tranquila apesar da vontade de se esconder.

Em sonhos, eu misturo lugares e pessoas, subverto o tempo e a causalidade. É curioso que eu carregue sempre essas cinco pessoas e a casa para meus sonhos, sem adicionar ninguém, sem retirar ninguém. Na infância, acordado, eu esqueci dos braços, mas não das pessoas. Não importam os braços, não importam a imagens. Na cena anterior, por exemplo, meu pai não apareceu, mas estava na matéria sonhada.

Levar tiros e ter a casa roubada são sonhos frequentes. Uma vez, de fato, na infância, acordei de manhã com um cara armado na porta do meu quarto. Nesse dia, a casa foi assaltada, mas não acho que este fato tenha motivado os sonhos. Acho que já sonhava com os roubos antes. Uma outra coisa que costuma acontecer é que o sonho acaba sem o confronto entre os assaltantes e os da casa. Ou a gente foge, ou a gente se esconde, ou eu paro de sonhar. Umas poucas vezes, eles entram com a gente lá dentro.

Falo depois de morrer, dos cachorros e dos telhados.

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sonhos #4

Posted by Tony Monti em 09.08.2010

Como o sonho #1, eu de vez em quando sonho que matei alguém. Sofro por não lembrar dos motivos nem de como o fato teria acontecido. Há variações. Em algumas eu descubro que não matei ninguém, que me acusam injustamente. Desta vez a história seguiu por uma outra que se repete também. Eu vejo um avião cair. Normalmente, estou fora, mas acontece também de estar dentro do avião.

A pessoa que eu tinha matado era o presidente do banco central. Não costumo ter relações passionais com pessoas famosas. Não sou grande fã nem odeio profundamente ninguém que aparece na tv ou nos jornais. Minhas paixões são por pessoas com quem convivo. Tentei lembrar o nome do homem. Henrique Meirelles e Guido Mantega passaram pela minha cabeça atrapalhada pelo sono.

Essa mesma pessoa estava no avião que caiu. Assim eu não precisaria mais esconder o corpo. O avião caiu e eu não seria mais perseguido por algo que eu não sabia se tinha feito e por que teria feito. De repente uma coisa enorme, a queda do avião, esconde e resolve pelo menos parcialmente minhas confusões íntimas. Estranho.

Horas antes, de noite, eu tomava cerveja com Clara Meirelles e Henrique Rodrigues. Não exlcuo a possibilidade de eu ter feito confusão com os nomes durante o sonho.

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sonho #3

Posted by Tony Monti em 03.07.2010

Eu acordo e noto que o edredon que me cobre é escuro. O meu edredon é claro. Aos poucos percebo que não estou no meu quarto. Estou em um apartamento do nono andar do prédio onde eu moro. Encontro então a dona do apartamento. Ela não me acordou. Era bem tarde já. Me deixou dormir. Disse que me viu chegar e ir para a cama. Ela disse que, como eu tinha feito tudo direitinho, ela não quis me acordar. Eu me atrapalho procurando os pés de meia no quarto e demoro para deixar o apartamento. Antes disso encontro outros moradores e todos eles me tratam bem, sem estranhar o fato de eu errar o apartamento. Em um momento a dona me pergunta se eu erro sempre o apartamento e eu digo que não.

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sonho #2

Posted by Tony Monti em 03.07.2010

Uma série de pessoas que conheci em ambientes e épocas diferentes estão sentadas em uma mesa, tomando cerveja e conversando. Lembro de uma menina que estudava comigo logo que entrei na universidade e um rapaz que entrou na universidade no ano passado, que conheci jogando xadrez. Em algum momento eu lembro que na semana seguinte o semestre acaba. Eu então me esforço mas não me lembro de ter ido recentemente para a aula. Pergunto aos demais, supostamente todos meus colegas de escola (ensino médio), que provas nós teríamos na semana seguinte. Alguém me diz que haveria prova de biologia. Eu digo então que não sei nem o rosto da professora de biologia. Bem a minha frente na mesa, uma moça bonita me diz “eu sou a professora de biologia”. Um pouco constrangido, eu finjo que a declaração era uma brincadeira na esperança de ela talvez achar que eu tivesse estado na sala, indiferenciado entre os outros alunos.

(em outra versão, eu não me lembro de ter ido recentemente à aula de educação física e fico preocupado em (não) repetir por faltas)

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sonho #1

Posted by Tony Monti em 28.06.2010

Acusavam-me de ter matado alguém. Eu estava na porta de algo que poderia ser uma delegacia. Não havia nada concreto que restringisse meus caminhos, apenas a ideia mal definida de que seria julgado. Não havia, a princípio ninguém comigo, nem um advogado, nem um amigo. O cenário não era ainda muito visual. Eu procurava alguém com quem pudesse tirar as dúvidas, mas ninguém aparecia.

Apareceu um homem e perguntou se eu tinha matado mesmo a pessoa. Eu supus que ele era meu advogado, mas não tinha certeza. Disse a ele que não tinha matado ninguém, mas na minha cabeça, por mais esforço que fizesse, não conseguia recuperar o passado. Ele me disse que, já que não tinha matado ninguém, não precisava me preocupar.

Pouco depois apareceu outro homem, bastante grande. Agora sim, o advogado, eu pensei. Ele não me perguntou nada. Me disse que sabia o caminho até o tribunal. Eu o acompanhei em um largo corredor lateral no terreno da delegacia. Eu andava perto da parede mais externa do terreno. Ele disse para eu abaixar a cabeça e me proteger. Eu perguntei se era mesmo preciso e ele deixou claro que sim. Nós passaríamos pela cadeia. No prédio da delegacia, no segundo andar, havia variás janelas por onde jogavam alguma coisa em nós. Ele ficava bem ao meu lado, entre mim e as grades. O que eles jogavam respingava na minha camisa, nas minhas mãos e no meu rosto. Percebi que eram fezes. Fiquei grato pela proteção.

O tribunal parecia um teatro e nós sentamos um ao lado do outro no que equivaleria à plateia. O palco estava escuro e vazio. Da plateia mesmo, começaram a falar sobre o outri homem. Acusavam-no. Ele já era bem conhecido ali. Comecei a considerá-lo um pouco mais perigoso. Não era meu advogado, como eu supunha antes, mas um réu, tanto quanto eu. Os argumentos eram contra ele. Quando o julgamento dele acabou, ele se retirou e eu fiquei sozinho na fila de cadeiras em que estava sentado. Não sei se o veredito foi contra ou a favor.

Em relação a mim, eu estava preocupado com o julgamento, antes de ele começar, mas sobre isso tudo parecia mais ou menos sob controle. Eu não tinha sofrido constrangimento físico além de ser atingido por fezes. A minha liberdade física parecia ainda garantida. Minha camisa branca de botões tinha manchas marrom e cheirava um pouco mal. Isso me incomodava também. No entanto, eu estava mesmo preocupado por não lembrar se eu tinha ou não matado alguém. Esse alguém era um desconhecido, não era parte dos meus vínculos mais sólidos com a existência. Assim, não conseguia encontrar também os motivos pelos quais eu pudesse agredí-lo.

Imagino que meu julgamento estivesse em curso. Conforme ele avançava, fui lembrando da cena. Em algo que parecia uma floresta, alguém caiu em um abismo. Havia mais alguém ao meu lado. Eu estiquei meu braço e segurei a mão daquele que tinha caído, mas em um momento a mão dele escorregou. A cena se repetiu várias vezes. Eu não era culpado, portanto. Tinha tentado inclusive ajudar e procedi conforme essa intenção. Senti a recomposição da cena original como o equivalente a uma absolvição.

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sonhos

Posted by Tony Monti em 24.05.2009

É comum que pessoas que fazem psicanálise lembrem mais dos sonhos que outras pessoas. Como sabe que haverá uma circunstância futura na qual poderá ser útil contar o sonho, a pessoa deixa ligada uma faceta de seu cérebro que percebe “isso é um sonho” e toma nota enquanto as coisas acontecem.

Talvez por isso é que tenhamos tão poucas memórias de nossa vida com nenhuma idade, talvez este mecanismo de prestar atenção para relatar depois ainda não estivesse desenvolvido.

Talvez também os lapsos de memória dos bêbados se devam à falha do mecanismo de alertar sobre prestar atenção.

Talvez um médico me dê a explicação científica para isso amanhã.

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