tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
    (2013)


    Capa de eXato acidente
    eXato acidente
    (2008)



    Capa de o menino da rosa
    o menino da rosa
    (2007)




    Capa de O Mentiroso
    o mentiroso
    (2003)





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o menino

Capa de o menino da rosa

O menino da rosa (ed. Hedra) são histórias curtas sobre a infância de um menino chamado Tony, como eu. A delicadeza desta infância a princípio bastante feliz é temperada por um tantinho de melancolia, violência e sexualidade.

Em 2003, depois da publicação d’O mentiroso, tive dúvidas sobre o que escrever. A princípio, o caminho seguido foi corrigir a rota do primeiro livro, escrevendo sobre temas e de maneiras que aprimorassem os textos do primeiro livro e que atualizassem meu jeito de escrever a minhas novas vivências. Assim, continuei com os contos sem, na superfície, me afastar demais d’O mentiroso (embora no íntimo eu sentisse que os novos contos eram significativamente diferentes dos anteriores). Eu me sentia, sem ter como explicar, um pouco mais livre. Os textos passaram a ficar mais violentos, mais bizarros e mais implacáveis na negatividade. Ou assim eu os sentia. Enquanto isso, amadurecia a idéia de escrever um romance.

O menino da rosa apareceu então como uma tentativa consciente de recuperar uma delicadeza da qual eu me afastava, no caminho paralelo, no qual eu buscava um tom mais cruel e implacável. Não imaginava, a pincípio, transformar as histórias, que para mim eram individuais, em um livro. Quando já tinha quase 15 histórias, surgiu a idéia do livro. Escrevi então outras, até um toal de 29, e o texto estava pronto. Na virada de 2007 para 2008, o livro foi publicado pela editora Hedra.

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Orelha d’o menino, escrita pelo Marcelino Freire:

ESCONDE-ESCONDE

Antes de tudo, esclareço: Rosa é o nome da mãe do escritor Tony Monti. Aqui, ele reúne historietas da sua infância. O menino do título é ele, pois.
Será?
A verdade é que não dá para confiar.
Tony é mestre no disfarce, no simulacro e ave! Esta orelha pode estar enganada.
A explicar: o autor estreou em 2003 com o elogiado livro de contos O Mentiroso, um dos primeiros a serem publicados dentro da Coleção Rocinante, da 7Letras.
Um livro ardiloso, cheio de pegadinhas. Disfarces nas entrelinhas. Engenhosas sutilezas.
Por isso, repito: este meu medo.
Tony pode estar mais uma vez cheio de noves-fora. Sei lá. Fico eu com o pé atrás: é mesmo dele essa infância, presente nos minicontos deste livro? Ou é infância roubada? Uma memória inventada? Estará ele, agora de volta, rindo da nossa cara cansada? Crédula?
E seriam mesmo minicontos aqui reunidos? Ou minicapítulos de uma novela? Nascida num só fluxo. Com tamanha beleza.
Escritor de mão-cheia, sabe ele onde vai cortando o assunto. Em tempo: pula o parágrafo em silêncio. Digo: não é pulo movido a susto. E reviravoltas. Tony tem uma elegância que envolve. É este o perigo.
Vai comendo pelas beiradas o leitor desavisado. Encantado pelo seu jeito de narrar. Devagar e colorido. Melancolicamente.
Aviso: o menino da rosa é livro ideal para este nosso tempo sem tempo. E sem passado. Coisas e sentimentos que fomos perdendo. E voltamos a ganhar. As linhas de Tony vêm nos resgatar. O elo perdido.
Será?
Repito: o que eu disser sobre este livro não estará dito. Tudo, nesta obra, é muito mais que auto-referente.
Se adentramos a casa onde o autor morava, se vamos juntos à sua escola, conhecemos a sua família, a viagem é nossa, só nossa. A nossa lembrança mais remota compactua com a dele.
Tony Monti, de alguma forma, nos estimula a visitar a nossa própria rua. Medos e quintais. Em mais um dos seus esconde-escondes. Uma verdadeira evocação ao que deixamos para trás.
Fui.

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Antes de o livro ser editado, a revista EntreLivros (abril/2006) publicou cinco dos contos com a seguinte apresentação:

Brincadeiras de quintal
Por Julián Fuks

O menino brinca no quintal de sua casa, espera o pão que a avó lhe prepara, aprende com o pai a ler; com a mãe, a faltar na escola. Aprecia o toque exposto de uma professora em suas costas, mais tarde o roçar escondido de outras costas, infantis e igualmente femininas. O menino também se encabula, sente o medo que prenuncia a culpa, vive aflições e não se importa em secar lágrimas. O menino poderia ser qualquer menino.

Não é. O menino é Tony Monti, um adulto a se aventurar nos planos fundos da memória, a desvelar histórias e escolher-lhes as palavras. A descobrir nas lembranças aquilo que lhe serve para compreender o presente – para compreender-se – e no presente aquilo que lhe serve para compreender as lembranças.

Ao menos é essa a atmosfera que nos sugerem os cinco textos que ora ocupam as próximas páginas, inéditos selecionados pelo autor especialmente para esta edição. Contos, sim, mas pertencentes a uma série um tanto mais longa, intitulada “o menino da rosa” (assim mesmo, com a modéstia das minúsculas), obra que Monti pretende tornar livro quando lhe derem a oportunidade. Não será a primeira: ele é autor de “O Mentiroso”, publicado pela 7 Letras em 2003, livro que lhe rendeu o prêmio Nascente, da Universidade de São Paulo – cidade cuja periferia desde sempre habita.

Mas o menino não é o mentiroso; não teria a maldade necessária para isso. Do primeiro livro para esta sua obra inédita, surpreende a mudança de tom, o acréscimo de delicadeza, a palavra que não parece buscar nada que não seja a beleza. Busca discrepante daquela que predomina na literatura brasileira contemporânea, mais dada a incursões pelo grotesco, pelo sujo, pela linguagem que remete a tudo o que há de mais bruto (incluído nessa tendência também o primeiro livro de Monti).

Efeito do aporte mais autobiográfico? “Não sei”, responde Monti, e a relutância em fazer qualquer afirmação mais definitiva é a tônica de sua entrevista: “Nem sei se essa foi a minha infância. Mas, sim, minha infância foi boa. E foi mais fácil olhar para ela com delicadeza do que com violência, sem dúvida.”

Com indecisão menor revela uma outra busca sua: “O que tento fazer é contar uma história que seja intensa para mim. Talvez assim essa história possa ser intensa para o leitor”. E está aí o que de mais definitivo Monti prestou-se a formular nas palavras ditas.

Das escritas, o que emerge é uma simplicidade que só aos poucos o leitor descobre aparente. As narrativas pretensamente ingênuas escondem uma dialética oscilante entre a perspectiva infantil e a do adulto, restando ao leitor o dever de redefinir suas percepções de ingenuidade e sabedoria. Sim, predomina o estranhamento do menino, seus desconhecimentos, bem como a compreensão condescendente do adulto. Mas não serão poucas as vezes em que o adulto nada compreenderá.

Se nessas vezes o menino compreende? Se intui a ignorância que por vezes o adulto viverá, anos depois? O menino não responde nada. Dá as costas e segue a brincar no quintal, sensível e indiferente.

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Flávio Izhaki, em seu blog Bohemias, em 07/01/2008

O menino da rosa

O pai pergunta para o menino o que ele quer ser quando crescer. As respostas ensaiadas na ponta da língua. Jogador de futebol, engenheiro… até que: caminhão.

Inventada ou não, memória ou imaginação, essa resposta é o ponto de inflexão do menino. No momento em que ele quis ser caminhão, por pelo menos um segundo, ele pôde, poderia escrever um livro de uma beleza pura, translúcida como esse O menino da rosa.

Tony Monti é o filho de Rosa na vida real, está lá na dedicatória do livro. Mas esse não é o mesmo escritor que lançou um livro chamado O mentiroso (7 Letras, Prêmio Nascente 2003)? Será que esses minicontos, ou contos de um suspiro, são memórias da infância do menino Tony?

Mas importa?

Importante ou não, vale uma reflexão. Três dos livros de ficção de que mais gostei em 2007 são confessadamente baseados em fatos reais da vida do autor. Vale para esse O menino da rosa, como para os ótimos O filho eterno, de Cristovão Tezza, e para A chave de casa, de Tatiana Salem Levy. Da boca do Tony ainda não ouvi (ou li), dos outros dois sei que suas experiências foram base para seus romances. Não que o escritor não tenha tido trabalho, possivelmente o contrário. Cavoucar sentimentos sabendo que são seus deve ser ainda mais desgastante. Debruçar no passado sabendo o que é o futuro, o que não foi o futuro, é dor.

No livro do Tezza, o choque das páginas iniciais, quando o narrador confessa que torcia, secretamente, para que o filho com Síndrome de Down morresse ainda jovem, para que o tormento do pai acabasse logo – e ainda, perversão maior, saísse glorificado pelos amigos e conhecidos como o pai que se sacrificou.

Na personagem-narradora da Tatiana, as fraquezas expostas. A incapacidade de reagir ao mundo real injusto, dolorido. Os sonhos irrealizáveis teimando em amarrar a narradora na cama, impedindo de realizar qualquer coisa, até se decepcionar. Mas aí os diálogos com a mãe, um alter ego gigantesco criando uma sombra sobre a filha para depois tirar-lhe o guarda-sol, os óculos escuros, a cadeira de praia, o chão.

A mãe do Tony aparece pouco no livro, basta o peso do título. O pai também não é tão grande. Estão lá a irmã, a futura primeira namorada, o jardim de um quintal minúsculo e infinito, a família italiana, o caminhão. E basta.

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Jornal do Brasil, 06/02/2008

Memórias de uma infância feliz

Bolívar Torres

Em seu segundo livro de contos, O menino da rosa, o escritor Tony Monti volta às suas lembranças de criança. Deixando para trás o universo violento de suas histórias anteriores, o jovem autor paulista – que não revela a idade, preferindo dizer que vai “completar 30 anos antes do fim desta década” – mergulha de cabeça, por meio de 29 histórias curtas, em suas primeiras experiências infantis.

– Queria escrever algo mais legível, mais bonito e mais leve – explica Monti, que recebeu o Prêmio Nascente (da USP) por seu primeiro volume de contos, O mentiroso, em 2002. – Meu trabalho estava ficando muito fragmentado, bizarro e violento, então decidi mudar. Queria uma beleza que não pretendesse chocar.

Tony Monti nasceu em São Paulo e é formado em letras. Estreou na literatura depois de cursar a oficina literária do escritor Gabriel Perissé. Para o escritor pernambucano Marcelino Freire, que assina a orelha de O menino da rosa, o mais atraente na obra de Monti é sua falta de pose.

– O que eu gosto no Tony é o seu simulacro – diz Freire. – Não é aquele escritor virtuose que fica chamando a atenção. Sua literatura está nas entrelinhas, naquilo que não está aparente. E ele é um mentiroso, com certeza.

Neste segundo livro, Monti dá a impressão de beber numa fonte autobiográfica – mas, como se trata de um “mentiroso”, convém desconfiar. A rosa do título é, de fato, a mãe do autor – chamada Rosa – a quem ele dedica a obra. Mas o título e a dedicatória são as primeiras das muitas pistas falsas do livro. Como em seu trabalho anterior, Monti engana o leitor abrindo trilhas ambíguas na narrativa. O que parece ser relato autobiográfico logo se confunde com memória inventada, assim como as reflexões de adulto se misturam com os relatos infantis.

– O primeiro personagem era eu mesmo, mas depois ele foi mudando, ganhando traços de ficção – conta Monti. – Na verdade, a infância do livro é a infância que eu inventei para mim. Uma parte é minha, outra é criada. De qualquer maneira, acredito que todo autor sempre escreve sobre si próprio, mesmo quando faz ficção.

Como em muitas obras sobre a infância, o livro é dividido em fragmentos do cotidiano. Olhares infantis se cruzam com a experiência dos adultos e os personagens vão aos poucos perdendo a inocência. Monti escreve sobre a aprendizagem da vida, numa linguagem enxuta, sem efeitos verbais e desprovida de adjetivos. Por sua unidade, as histórias do livro podem formar um romance. Ou uma pequena novela. Ou nenhum dos dois. Mais pistas falsas?

– Comecei a pôr as histórias no papel sem compromisso – lembra. – Depois de escrever 15 delas, percebi que elas podiam formar um livro homogêneo.

Diferentemente do que o leitor pode pensar, Tony não é obcecado pela infância. Nem teve experiências traumáticas na meninice – ao menos, nada mais forte do que pequenos acidentes banais, como um xixi na calça no colégio. Longe de relatos cruéis do gênero, como os clássicos Foguinho, de Jules Renard, ou O ateneu, de Raul Pompéia, seu olhar sobre o período é generoso, sem dimensões trágicas. Para Tony, se existem problemas, eles sempre podem ser superados.

– É claro que há um certa melancolia nas histórias, mas o tom é leve – avalia. – Acho que isso vem muito da minha própria personalidade. Eu não sou o cara que sofre e põe fogo em tudo.

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Santiago Nazarian, em seu blog

Outro livro que recebi foi o segundo volume de contos de Tony Monti, “O Menino da Rosa”, lançado pela Hedra. É bem bonito, ligeiro (mas não rasteiro) deixando um perfume suspenso no ar. Isso porque eu peguei assim, sentado na minha mesa para dar uma olhada. E fui lendo os contos – que são pequenos mas não “micro” , nem no tamanho, nem na fórmula, que foge da piada literária, são como prosa poética – e acabei fisgado. Olha só um pedaço de um pedaço:

“Raramente sonho com você. Sonho só com a casa, sempre. Diferente de você, a casa sou eu.”

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Nei Duclós, em seu blog

Com “O menino da rosa”, um pequeno grande livro, o segundo do autor, que já nos deu o premiado “O Mentiroso”, Tony mostra a escassez que busca o brilho, o recuo que reage, o disfarce que quebra a leitura e a transporta para outras paragens. Por ser curto, o livro engana a pressa dos olhos que acham já terem visto tudo.

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Revista Criativa, março/2008

QUASE POESIA

O Menino da Rosa (Ed. Hedra, R$ 17) é um livro bonito de verdade. Tão doce e melancólico que passei pelo vexame de chorar na padoca, 11 horas da noite, tomando uma Coca e comendo pizza. O autor, Tony Monti, nos conta suas memórias simultaneamente difusas e cristalinas, iguaizinhas àquelas que todos nós temos da infância. Alegrias e medos particulares e universais ao mesmo tempo. (DAVID MICHELSOHN)

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Nei Duclós, em seu blog

e na Revista Cronópios.

O FINO DA PROSA

 
 
Escrever literatura é um duelo de punhais num território dominado pela pólvora. A desvantagem é enorme: não há sobrevivência aparente para uma arte de armas brancas diante da capacidade do fogo inimigo. O confronto retrocede até a arena mais oculta, pois se trata de manter viva essa esgrima de lâminas curtas (letra, sílaba, palavra), que exige suor e provoca ferimentos. É manter a sobrevida num condenado, suportando o convívio desigual em relação à complexa cadeia de explosões em volta – a indústria cultural e os cânones, os lançamentos fulgurantes e a reprodução infinita dos mesmos, a percepção viciada e indevassável, a leitura recorrente e o desprezo aos que procuram emergir de alguma forma.

Ou o escritor se recolhe e imagina a luta, sabendo que não vai derrotar a força que o exclui, ou sai a campo e encontra o deserto. Mesmo que autor seja imediatamente reconhecido, como é o caso de Tony Monti, que foi celebrado já no seu livro de estréia, O Mentiroso (7letras, 2003), vencedor do projeto Nascente, da Universidade de São Paulo em 2002. O impulso inicial vale , mas não é suficiente. Não temos, no Brasil, ventos favoráveis constantes para que os talentos possam cumprir destinos e vocações. Vivemos em espasmos, em premiados que caem no esquecimento, em aplausos que o tempo cobre. Depende do autor seguir adiante e é o que Tony Monti consegue fazer, mesmo agora, desarmado do apoio inicial, quando chega ao seu segundo livro, O menino da rosa (Hedra, 46 páginas).

Tony traz embutida uma postura pessoal que reflete o da sua geração (ele está chegando aos 30 anos): as concessões não são importantes. Não fazer concessões é o lugar comum mais desmoralizado depois do revés sofrido pelas utopias. Não significa que os escritores agora aceitem a derrota, e tenham desistido de redescobrir a vida na matéria bruta. Simplesmente mudaram o foco, ou melhor, já nascem com outra embocadura. É por isso, talvez, que inúmeros escritores nessa faixa de idade trabalhem hoje em outro patamar, fora da linearidade que opunha legitimidade e farsa, verdade e mentira, realidade e imaginação.

É que sua estratégia traz carregada um baú de emergências, para o caso de a barra pesar. São mantos que espalham disfarces cada vez mais freqüentes, como se a literatura cumprisse a sina apontada pelos preconceitos e fosse realmente tudo mentira. O que decide um duelo de punhais, que por natureza é feito de maneira franca e aberta, são os detalhes especialmente que confundem o adversário. Tony se aprofundou nessa arte, como revelam os contos do seu primeiro livro, e a desconversa contínua do seu blog, o Exato Acidente (que costuma ser batizado com outros nomes).

Essa brincadeira de esconde-esconde não é a fuga em direção a uma arte superficial ou obscura. É a maneira de se chegar à essência do drama, pois o que resta para um autor que chega a uma literatura que se transformou num mega-negócio e que é cercada por milhões de pessoas que estão escrevendo ao mesmo tempo sobre tudo, na rede múltipla da web infinita? Restam sua partícula de vivência, seus verdes anos, seus sonhos mais antigos, sua pessoalidade extravagante. Morando em casas idênticas às de seus colegas, convivendo com o mesmo tipo de pessoas, cercado por famílias numerosas que se repetem em gestos e tradições, a originalidade está na linguagem raspada de toda espécie de “conteúdo”, essa palavra mentirosa que tomou conta das mídias.

Fica mais claro se pegarmos o pequeno livro à unha, que de tão curto pode ser lido sem queimar calorias. Em princípio, são memórias da infância, escritas numa clareza do universo infantil, em frases que se encadeiam na lógica realista dos olhos que enxergam pela primeira vez. Mas é mais proveitoso ler como o enxugamento total da arte a que nos referimos acima. Como se a briga feia que usa apenas punhais pudesse ser representada por poucas linhas de um design essencial.

O resultado é um terreno baldio, onde caem frutos maduros explosivos. O que vai ser quando crescer? “Aos quatro anos , eu queria ser caminhão”. Que fim deu aquela garota que roubou seu coração no Primeiro Grau? Ela volta ciclicamente, cada vez mais perto da vida adulta, e marca encontros sucessivos para o resto da vida. Por que meu nome escrito não me representa direito, como se na página ele fosse uma outra pessoa? Nesse espaço pessoal, o mar tem cheiro e, a areia, gosto. E o toque no braço da tia – um pouco mais velha -, era diferente quando o atingia, não fazia o mesmo efeito do que o toque no braço da irmã.

É pouco para que seja visto como criatura no zoológico das autorias? É o que Tony Monti tem, essa escassez que busca o brilho, esse recuo que reage, esse disfarce que quebra a leitura e a transporta para outras paragens. Por ser curto, o livro engana a pressa dos olhos que acham já terem visto tudo. Não precisa ficar relendo, o autor se entrega na primeira viagem. Mas é preciso ler de maneira decidida, pois não haverá outra chance. Se o leitor passar impune, não poderá ver o fio de água que a chuva verte pela fresta da grande janela da sala. Não se enganará de casa na busca da primeira namorada. Não reconhecerá a alegria no pai que sempre sorri e o leva para a praia.

Também não precisa cair na tentação de achar que se trata de prosa poética. Poesia é outra coisa. Aqui o que existe é o fino da prosa. Não pela espessura mínima do volume ou pela economia dos contos. Mas por ser silêncio em tempo de gritaria, por ser voz em época de mesmice, por ser dor, mesmo que só ofereça o curativo. Não que haja recados por baixo da narrativa. O que há mesmo é prosa, finíssima, para ouvidos fecundos. E uma autoria que se projeta em vôo circunflexo em meio à tempestade de almas, em linha reta.

RETORNO –

Esta resenha teve a valiosa contribuição da escritora Beth Fleury, editora da futura revista Os Sertões. Com sua leitura atenta, Beth apontou e solucionou uma série de detalhes que atrapalhavam o texto.

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Homero Gomes, no Portal Cronópios, em 08/09/2010

A LISTA DE BOTAS DE JACK NICKOLSON

Voltar a ser criança por alguns minutos.

Antes de bater as botas, sabendo ou não a data fatídica, gostaria de abandonar o mundo chato dos adultos e

voltar a ser criança por alguns minutos.

Mas não adianta apenas agir feito criança, é preciso imaginação e isso já se foi. A imaginação de criar um mundo enquanto espera a fila andar no posto de saúde, só se o adulto for esquizofrênico. Isso eu não quero. A doença da literatura rende apenas textos com este e como o seu, Tony.

Literatura é também válvula de escape. Dá a possibilidade de pensar com liberdade, livre de preconceitos; e a liberdade de não pensar no tratamento de canal que estou fazendo. De não pensar no sonho abandonado de ser caminhão.

Ninguém morre de necrose da polpa (CID: K041),mas que dói, dói, criança não passa por isso. Há poucas coisas realmente preocupantes, chatas, por isso antes de morrer quero

voltar a ser criança por alguns minutos

pra sentir de novo o gostinho da minha época de menino.

Talvez, nem todo adulto tenha boas lembranças dessa época. Mas não consigo pensar em outro item da Lista de Botas de Jack Nickolson.Enquanto espero o nervo do meu molar ser totalmente raspado, vou fazendo esse exercício de abstração, vou pensando no que gostaria de fazer antes de bater as botas.

Tudo é culpa do filme protagonizado por Nickolson e Morgan Freeman: Antes de Partir. Dele extraí a ideia da lista. Mas o principal culpado por essa obsessão atual é você, Tony Monti, e seu livro de contos O Menino da Rosa. Antes de terminar este parágrafo vejo “papai” escrito por minha filha, coisa que só um adulto poderia viver. E fico desejando

voltar a ser criança por alguns minutos

pra poder brincar direito com ela. Porque adulto nenhum sabe brincar; mas os filhos são pacientes, com eu de boca aberta há mais de uma hora, deitado nessa cadeira odontológica.

Mas talvez uma criança não teria paciência de ler os contos de um adulto relembrando/inventando histórias de sua infância. Primeiro, porque criança não quer ficar sabendo sobre a vida, ela vive; segundo, por que mesmo sendo um livro pequeno, muito bem escrito, de um timbre maduro, não tem figura nenhuma. Embora haja espaços em branco onde se pode rabiscar à vontade.

Eu gostaria de poder rabiscar seu livro, Tony, mas seria ridículo um marmanjo “estragando” um exemplar adquirido no risco e na vontade de conhecer.

Mas se eu pudesse

voltar a ser criança por alguns minutos

não sobraria espaço em branco nas páginas de O Menino da Rosa.

Porém, ser adulto complica tudo, impede tudo; não há liberdade pra despreocupação, pro extravasamento, pra euforia profunda e constante.

Voltar a ser criança por alguns minutos

não seria, entretanto, fuga dos problemas (eles também existem na infância), mas uma maneira de enxergá-los de outra maneira e depois sair dando cambalhotas.

___________________
Agustín Arosteguy, em sua página do Facebook, 21/05/2014

EL FANTÁSTICO MUNDO DE TONY – MOSAICO # 12: En el libro “O menino da rosa”, Tony despliega un arsenal de lo más estimulante y colorido. Del estilo de los que se despliegan para matar el aburrimiento, el protagonista del libro lucha contra todo: el tedio, la soledad, los días nublados. Todo eso conforma un libro maravilloso y entretenidísimo, en donde abunda la ternura, las sutilezas y una escritura magistral. Da la sensación de que es un regalo, de esos que se guardan en varios envoltorios, y que para descubrirlos se debe abrir o rasgar innúmeros papeles o cartones. Lo que más me gustaría destacar es que son un conjunto de relatos de una preciosura tal que despiertan la imaginación de cualquier persona y te dejan con unas ganas terribles de, por un lado, vivenciar lo que narran esos textos y, por otro, escribir, escribir y escribir, y no parar hasta caer rendido de sueño o agotamiento.

En algún punto, el nombre de Tony Monti me remite a algún personaje de alguna película de Tim Burton; por ejemplo encajaría perfecto en Charlie y la fábrica de chocolates.

_______________________
Jornal La Capital (Mar del Plata), 28/06/2015.
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4 Respostas to “o menino”

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