tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
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    eXato acidente
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Archive for the ‘cinema’ Category

garatuja (111) – sonho

Posted by Tony Monti em 27.10.2014

Três mulheres, em um país oriental, a Malásia talvez, tricotavam sentadas em um sofá. Das agulhas pendiam as linhas coloridas que se ligavam em uma tela mais a frente, como um cinema. As imagens se formavam conforme a linha era trabalhada. Diferente dos computadores ou do cinema mesmo, o trabalho físico e visível do corpo produzia rapidamente a matéria da fruição.

Em uma poltrona lateral, na pequena sala de projeção, eu assistia ao filme. À minha frente uma mulher me oferecia seu peito, enquanto o sofá das tricoteiras, onde agora também se encontrava minha mãe, se deslocava à frente, de modo que eu via o filme na tela costurada, mas elas não me viam. Apenas me via a que se me oferecia. E era uma mulher bonita.

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Kurosawa (1) – sonhos

Posted by Tony Monti em 20.03.2011

Os problemas recentes no Japão me impressionam muito. Em primeiro lugar, a quantidade e o absurdo das imagens me levam a pensar sobre a finitude do homem. Fatos grandes assim me retiram também da rotina. Produzem uma sensação estranhamente agradável de que há ainda algo acontecendo além de acordar e dormir, comer e trabalhar. A imagem da catástrofe, por pior que seja, tem esse lado discreto e sedutor, uma sensação incontestável de verdade. Ao mesmo tempo que me tira o chão, que me diz que sou pequeno, me religa ao mundo da matéria, das pequenas dores e prazeres concretos. Elimina por um instante as dúvidas que acompanham o mundo das crenças. Não preciso acreditar para ser influenciado por imagens assim. Não?

Fico também encantado e assustado com uma cultura tão diferente. As pessoas deixam os prédios sem gritaria nem confusão. Os abrigos abarrotados de gente são silenciosos. Eles conversam baixo, as crianças brincam em silêncio. Não querem incomodar. Em entrevistas, mais de uma vez alguém disse que o japonês sofre quieto, que guarda as energias para a reconstrução. Lembro do alto número de suicídios entre japoneses. O autocontrole tem esse perigo também, eventualmente alguém pode sentir falta de se expressar. Não é uma condenação à contenção. É uma ressalva. E a quem quiser elogiar o espontâneo com o argumento dos muitos suicídios, sugiro que compare os números de assassinatos entre os contidos e os expansivos. Admiro essa gente, apesar de ser difícil entendê-los, dífícil de assistir aos helicópteros em cima da usina, de elaborar o fato de que há ali pessoas condenando a si mesmos ao câncer e aos outros efeitos da radiação.

Fui ver Sonhos, do Kurosawa, para aproveitar meu estranhamento. Não lembrava que havia explosões nucleares no filme, que havia tantas imagens de terra devastada, não lembrava do elogio a uma vida que não dependa tanto do progresso técnico e dos riscos associados a ele. E para minha surpresa, na sequência sobre as explosões nucleares, as pessoas gritam e correm com muito menos ordem do que nas imagens da televisão nos últimos dias. Há ali desespero.

Onde é que eles escondem os gritos no silêncio dos abrigos?

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Kubrick #3

Posted by Tony Monti em 06.01.2011

1. Não sei bem o que dizer sobre O iluminado. É muito bonito, as cores, as texturas, os sons, os labirintos, as tomadas de câmara. Mas eu não encontro ali o conteúdo do enredo, só a forma. É filme de dar medo. A atuação do menininho (Danny Lloyd) e o rosto da Shelley Duvall me impressionam. Gosto do Jack Nicholson, mas por instantes vejo ali um embrião discreto das caretas do Jim Carrey. Gosto mesmo assim. 

2.O Jim Carrey tem que fazer mais uns 3 filmes bons e sem caretas antes de eu começar a pensar nele como um ator.

3. Se o filme não fosse um (lindo) jogo de assustar, se eu identificasse motivos para o comportamento dos personagens, eu compararia O iluminado com este último do Lars von Trier, O anticristo.

4. Tem um mundo de sonho ali, de pesadelo, com o qual não sei o que fazer. De olhos bem fechados, inteiro um sonho, não me causa essa sensação. Senti falta de pensar para além da beleza de tudo. Uma questão possível, que também não encontrei, foi a necessidade de pensar sobre a falta de lógica. Mas gosto.

5. Sentir falta de algo e gostar do filme, isso sim, me faz pensar. Que é que falta que eu não sei?

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Kubrick #2

Posted by Tony Monti em 03.01.2011

1. Stanley Kubrick disse em algum lugar que organizava um filme em caixas menores. Se juntasse seis ou sete caixas, tinha um longa. Não sei se usou a estratégia para tudo o que fez, mas é possível ver em 2001 e Nascido para matar algo que, nos filmes resultantes, poderia ser explicado pelo procedimento proposto.

2. Porém, alguém disse (no documentário Stanley Kubrick, a life in pictures) que há diretores que começam um storyboard por um detalhe, uma cena específica, e que Kubrick começava com traços grossos, como se pintasse um quadro inteiro antes detalhá-lo. 

3. Pode-se fazer as duas coisas, o esboço do todo e a divisão em partes. Não são ideias excludentes. Mas acho que quando ele falou sobre as caixas, quis dizer que não era preciso ter uma totalidade, bastava ter alguns bons segmentos.

4. A primeira das duas sequências de Nascido para matar é impecável. Lembra as observações mais clássicas sobre como funciona um conto: unidade de ação, de espaço, de tempo, nada acessório, efeito único e devastador. No final, o nocaute didático (Cortázar disse que é assim que os contos vencem, diferente do romance, que vence por pontos), o golpe concentrado e sintético de tudo o que se acumulava até então.

5. A segunda parte é um bom filme de guerra. Há outros bons filmes de guerra.

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Kubrick #1

Posted by Tony Monti em 27.12.2010

1. Fazia tempo que eu não via um Kubrick. Quando começou a passar o 2001 aqui em casa, me senti bem como se a vida fizesse sentido. Comoção estética com aquela imensidão.
2. Os diretores de 2001 e de Laranja Mecânica são diferentes. Um filme é tão lento e sem choques. O outro, um choque atrás do outro.
3. Mas são o mesmo na obsessão e no apuro, na criação de mundos que não são o mundo.
4*. Fiquei pensando no quanto se tornou raro hoje em dia um filme em que progresso científico esteja tão descolado de produção e consumo.
5. No começo, pensei em declarar que este era meu filme favorito do Kubrick. Depois comecei a achar lento demais, repetitivo (o que, em seu exagero, é um signo importante). E o final tem uma face científico-religiosa, o que me desagrada muito.
6. Mantenho o Laranja Mecânica por mais uns dias no topo da lista, 2001 um pouco depois.

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On the waterfront – notas

Posted by Tony Monti em 10.06.2010

Depois de assistir ao bom “12 homens e uma sentança” (12 angry men), assisti agora ao “Sindicato de Ladrões” (On the waterfront), da mesma época. É um filme precioso. Escrevo para mim mesmo, para organizar umas ideias, o que me ajuda a lembrar do filme depois. Pequenas notas chatas. Fora o que há no imdb, que informações um bibliotecário incluiria na ficha do filme para facilitar uma busca futura?

Marlon Brando no começo da carreira está muito bem. Gosto muito também do Lee J. Cobb, que também está no “12 homens e uma sentença”. “12 homens…” se passa inteiramente dentro de um tribunal. Há também em “Sindicato…” um momento decisivo no tribunal. É um elemento significativo no cinema americano. Em “Sindicato…”, é um dos símbolos maiores da civilidade em contraposição à vida à margem da lei. A vitória no tribunal é determinante para que uma pequena revolução aconteça. Depois desta vitória, o poder armado e a força bruta dos combates corpo-a-corpo tornam-se menos importantes na lógica das relações sociais no porto. Há assim uma visão bem positiva das instituições do Estado.

A pequena revolução no cais do porto é feita contra uma máfia e não contra uma empresa que agiria dentro das regras da lei. Assim, ainda que aconteça um movimento que elimina privilégios, não é exatamente contra o capital que tudo é feito. O movimento é contra a ilegalidade.

A revolução começa depois que um homem sozinho se arrisca. Apenas depois de ele enfrentar a máfia que oprimia os trabalhadores é que os outros se juntam a ele. Este heroismo tem seu lado otimista, mas não narra uma contraparte negativa: o quanto são improváveis o sacrifício e a vitória deste homem só. De qualquer modo, configura na narrativa a imagem de uma sociedade em que alguma justiça é possível.

Dois elementos que movem este homem são a morte de um familiar (um irmão) e a paixão por uma mulher. Estes afetos (próprios da casa) são motivos frequentes também no cinema americano e provocam parte dos gestos públicos.

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filmes

Posted by Tony Monti em 02.06.2010

Uma poucas linhas linhas para eu lembrar dos filmes que andei assistindo (não leia, eu conto os finais):
Alice no país das maravilhas (2D) – vi sem os óculos e duvido que uma dimensão a mais me fizesse gostar do filme. Achei a história chata, mal contada, filme ok ruim quase do começo ao fim. Na última cena piora, faz o filme parecer uma fábula sobre a mulher livre e independente que deixa a família e o casamento para fazer negócios e viver aventuras. Fiquei com vergonha do Tim Burton (como disse minha amiga Gabriela).
Luzes na escuridão – filme finlandês, melhor que Alice por ser pelo menos mais estranho.
Doze homens e uma sentença – filme clássico. Gosto da idéia de um filme de gente conversando numa sala para chegar a uma conclusão. Gosto também da premissa que sustenta o filme (pensar sobre nossas possibilidades de fazer julgamentos), mas achei tudo bem acabado demais. Ficou didático. E acho estranho que o argumento da dúvida, que me parecia forte desde o início, se submeta de certo modo à vitória do voto que inocenta. Gostei bastante do filme mas achei que em certas partes, os argumentos falham feio. O olhar afastado mais de 50 anos fez com que eu assistisse, com curiosidade e prazer, um modo de pensar que não é o meu.
À deriva – filme muito bonito e interessante. Cinema brasileiro fazendo filme como se faz na Argentina (discussão que está ficando clássica), com uma boa história, bons atores e sem a necessidade de um orçamento enorme. Gostei muito. Débora Bloch, há 25 anos, um pouquinho mais bonita a cada aparição pública. Segundo filme muito bom do Heitor Dália (O cheiro do ralo). Laura Neiva é um achado.
O escritor fantasma – achei bom, mas apenas dentro do limite em que pode ser bom um filme convencional de ação, espionagem e conspiração. Neste último item, a Gabriela disse que lembra O Código da Vinci. Numa leva de filmes ruins no cinema, aprovei.
Tudo pode dar certo (Whatever works) – tradução infeliz. Assisti um dia depois de assistir Alice. Talvez por isso tenha gostado tanto. Achei divertido e, dentro do que parece ser a proposta do filme, uma mistura interessante de bom e mau humor. Quando vejo filmes do Woody Allen, fico com vontade de parar o que estou escrevendo para escrever mais parecido com ele. Talvez seja a vontade de ver diálogos, de ver os personagens falarem. Meus personagens falam pouco.
Mademoiselle Chambon – gostei, com pequenas restrições. Considero exemplar um triângulo amoroso tão equilibrado, em que os envolvidos se respeitam e pouco se agridem (há uma ou duas pequenas exceções). Achei que o filme derrapa (um pouco) justamente quando o amor retratado, que parece tão intenso e equilibrado, entra nos caminhos convencionais dos gestos inconsequentes entre apaixonados.

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insônia 2

Posted by Tony Monti em 12.05.2010

 – madruagada de domingo para segunda –

Acabei de assistir a “Força aérea 1”, que passava na Globo agora de madrugada. Os russos sequestram o avião do presidente, mas o presidente salva sua família (esposa e filha bonitas e afetuosas) e uma parte dos passageiros, ao preço da morte dos demais, dos sequestradores, de alguns outros militares chamados para ajudar e de um antigo militar russo preso havia anos.

Estou sujeito como a maioria das pessoas à idenficação com a vontade de sobreviver e a de ter por perto as pessoas queridas. Me comovo, por exemplo, em ver uma família reconstituída. Mas a eleição de um inimigo assim, de um herói assim, de um ideal de nação assim, me incomoda mais que os livros do Fonseca (ver explicação e pesquisa em dois posts anteriores). É bem estranho ver pessoas comemorando e aplaudindo a morte do antigo militar russo para deixar claro ao espectador que aquilo é felicidade, ver a família unida ao final como se uma nação muito militarizada e uma família fossem a mesma coisa, ver um modelo militar de país ser alçado a símbolo estético e, assim, expor-se como imagem apoiado em um valor de verdade. O sacrifício da guerra assume o rosto do dia-a-dia familiar, a guerra deixa de ser o estado de exceção para ser a regra louvável, sacrificar-se por um ideal de nação. O inimigo monstruoso justificaria que o tempo todo estivéssemos dispostos à guerra.

Me lembrou um pouco o “Em busca do soldado Ryan” pelo mesmo modo de justapor o familiar e a nação em guerra, como se matar o inimigo fosse restituir a família temporariamente destruída.

Me lembrou também, de um modo torto, as torcidas de futebol que se enfrentam nas entradas de estádios e que vêem os jogadores como heróis (quando ganham) ou traidores (quando perdem) em uma lógica unidimensional, de jogo, cuja avaliação não é ética mas baseada em um critério numérico, mais gols, menos gols, e tribal, nós e eles. Nós nos afirmamos por odiarmos os diferentes.

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Herói e adulto

Posted by Tony Monti em 27.04.2010

(estou na usp, tentando adiar o estudo e a confecção do doutorado, e aguardando a hora de ir embora. um post agora então)

Assisti ao bom “as melhores coisas do mundo” no fim de semana. Não sei fazer sinopse. Já tive problemas com isso. Mais de uma vez, ao ter que escrever sobre livros ou filmes para a imprensa, me concentrei em algo que me parecia significativo, tentando descrever minha experiência, naquele lugar que nunca é o filme nem nunca sou eu, mas alguma coisa na interação entre o filme e eu, nas horas na sala de projeção.

Não é portanto a história que eu vou contar, mas duas ou três coisas que eu pensei. Gostei do filme, mas um fato em especial me fez pensar. O protagonista, um adolescente, é muito adulto. As coisas não dão sempre certo para ele, mas ele minimiza os danos com uma rapidez que me parece amadurecimento. Ele consegue encontrar papéis razoáveis para encarnar, em contextos muito semelhantes àqueles em que o irmão se perde. Filho de pais muito instruídos e pouco perspicazes, ele sai do lugar de vítima para o de participante, às vezes bastante poderoso, das organizações sociais do seu mundo, com facilidade emocional, embora não sem esforço. Há ali um retrato interessante de uma comunidade adolescente, mas é curioso como as dificuldades tipicamente adolescentes ficam para trás. Acho instrutivo, positivo e, nesse sentido, diferente do filão mais desajustado do cinema que eu costumo gostar.

Estranho é que dizer que o filme é instrutivo possa ser uma anti-propaganda. Espero que não seja. Eu também gosto de boa autodestruição. E isso é um blog e o post nem precisa fazer sentido. Embora seja razoável dizer que a história gira em torno de personagens adolescentes, fiquei com a impressão de estar diante de uma pessoa adulta, como poucos adultos chegarão um dia a ser.

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mastroianni #1 (em edição)

Posted by Tony Monti em 22.06.2009

giornata

Marcello Mastroianni é dos meus atores favoritos. Impressiona-me não só a atuação mas o fato de ter se envolvido em tantos filmes interessantes. Admiro muitos homens por particularidades diferentes. Digo às vezes que admiro o Mastroianni pelo modo como ele é homem. Tenho me proposto tarefas, como modo de vencer uma inércia que me faz pensar e dormir, mas nunca agir. Uma das tarefas recentes é assistir aos filmes do Mastroianni a que eu tiver acesso.

 

Joyce
Escrevo, leio e estudo literatura há já alguns anos. Convivo com gente que lê bastante. Um dos livros mais comentados por todo mundo é o Ulisses. Quando estudei Joyce na faculdade, o título foi citado dezenas de vezes, assim como quando se estuda Modernismo ou quando se estuda romances. O livro parece ser um marco em todas as suas facetas. Mas quando fomos estudar um texto, lemos Dublinenses e O retrato do artista quando jovem, o Joyce acessível.

Conheço de fato pouca gente que leu o Ulisses. Um professor da faculdade disse que, quando comprou o livro, anotou na primeira página duas datas: a da compra e a de vinte anos depois. O intervalo era o tempo que se dava para a leitura.

Um amigo que escreveu um texto longo sobre escritores cegos (Histórias de literatura e cegueira, Julián Fuks) não se permitiu deixar de lado as mil páginas do Ulisses. Disse que foi das leituras mais difíceis que já fez, mas que o percurso todo vale o esforço. Disse também que um dos modos de fazer o texto correr mais fácil foi ter como tarefa específica, enquanto lia, procurar referências a cegueira.

Quanto ao Mastroianni, não para facilitar, mas para valorizar a tarefa de assistir aos filmes, resolvi prestar atenção nele para ajudar a compor um personagem de um texto que estou escrevendo. O personagem assistiu a todos os filmes do Mastroianni e fez o que eu pretendo fazer: observá-lo atuando.

 

Scola
Coloquei hoje o primeiro título na lista dos assistidos: Um dia especial (Una giornata particolare, Ettore Scola, 1977). A pergunta que tentei responder é o motivo para Gabriele (Mastroianni) ser tão sedutor a Antonietta (Sophia Loren). Tomei nota de detalhes que não compõem um todo. No final das contas, a pergunta que me faço é o motivo de ele ser sedutor também para mim. Suponho então que o que anotei seja uma mistura dos meus motivos e dos motivos de Antonietta. Ainda, de modo nada rigoroso, sobrepus as imagens do ator que está em vários filmes e do personagem que é específico de apenas um deles. Assim, estou anotando tanto traços do personagem quanto do ator, sem me preocupar, a princípio, em diferenciá-los.

Em Um dia especial, Mastroianni é um borrão em uma rotina organizada. Politicamente, é considerado traidor do regime oficial. Não se enquadra também, segundo a narrativa, no padrão normal do gênero masculino. Mas não são estes traços estruturadores do filme que me chamaram a atenção hoje. Fiquei mais comovido com os detalhes da construção de uma personalidade desviante.

Gabriele é um homem mais ou menos solitário, desde sempre. Está pouco preocupado com as grandes narrativas da história, a visita de Hitler à Itália por exemplo. Parece às vezes distraído. Ao mesmo tempo que dança com leveza, é desastrado. Escapa sempre da perfeição limpa. Sua personalidade, expressa beleza de um modo melancólico, com faltas e sobras em vez de limites definidos. Lembra-se da infância, do modo como moía o café com o avô, preocupa-se com as pessoas uma a uma e não reunidas em multidões, exércitos ou partidos.

Assim, Gabriele parece um pouco mais humano, aos meus olhos, do que a turba que invadiu as ruas para assistir à consagração estranhamente extática da união política, no momento retratado, de Itália e Alemanha.

Por fim, e por outro lado, me pareceu que parte da sedução também vem de o personagem ser às vezes irritante e invasivo. Ele não é apenas uma pessoa de quem se gosta, é uma confusão atraente de elementos. Eu não gostaria que um desconhecido entrasse na minha casa e andasse de patinete pelos cômodos. Esta configuração de liberdade, encarnada no personagem, inclui necessariamente a quebra dolorosa dos limites de quem se aproxima. O objeto sedutor fascina e machuca.

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nota sobre agnelo marinelli

Posted by Tony Monti em 16.11.2008

marinelliDois cinéfilos e atentos amigos (apenas um deles antepõe duplos adjetivos a substantivos) perguntaram se o Agnelo Marinelli que escreveu a orelha do eXato acidente é o cineasta italiano que apareceu por aqui em duas ou três Mostras de cinema. É ele. O cara brinca de mudar o prenome.

Marinelli aparece em mais de um conto do livro. Para a minha surpresa, aceitou o convite para a orelha depois de trocarmos um par de e-mails em um misto de inglês, italiano, português e romeno.

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elefante branco

Posted by Tony Monti em 21.06.2008

aqui

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mondo kane

Posted by Tony Monti em 15.06.2008

Sexta passada comecei mais uma série no setelinhas. Pretendo escrever textos que se relacionem a filmes (e talvez livros, veremos). Comecei com Cidadão Kane.

Hoje, na folha, na coluna do ombudsman, uma nota sobre esse filme é, para mim, espantosa. A nota:
Para ver
– “Cidadão Kane”
    de e com Orson Welles (1941) – melhor filme da história mostra a que ponto pode chegar utilização partidária de um jornal (a partir de R$24,65).

pode o ombudsman dizer assim como um fato “melhor filme da história”? Isso me lembra a propaganda que faziam do documentário sobre o pianista Nelson Ayres na época de seu lançamento – “um filme sobre o quinto melhor pianista do mundo”. Perguntei para a mocinha que me entregava uma filipeta do filme enquanto me informava da coisa toda … “quinto na APP? (Associação dos pianistas profissionais)” hmmm, listas, melhor filme da história em que história? ganhou qual campeonato?

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ficção científica

Posted by Tony Monti em 06.06.2008

Quando se coloca a ficção científica como um gênero separado daquele dos livros que eu costumo ler (nas livrarias, por exemplo, ou na minha cabeça), eu perco a chance de ler umas coisas porque eu sou esquecido, esqueço de olhar a outra estante.

O über presente Roberto Causo escreve uma coluna sobre arte, livros, cinema e afins, de ficção científica e afins, no Terra.

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BRAZIL, o filme

Posted by Tony Monti em 06.06.2008

Sobre o tema do futuro que é passado, que me apareceu quando falava do 1984, lembrei de Brazil, filme amalucado do ex-Monty Python Terry Gilliam. Depois de assistir a este filme, uma das idéias que me vieram foi que eu tinha acabado ver uma coisa diferente. Não é um filme normal, não. É uma fantasia sobre um futuro e o que quero enunciar aqui é só uma curiosidade, um detalhe estruturador, pode ser isso?, mais ou menos como o cenário do Dog Ville, meu interesse sobre o filme vai bastante além de seu cenário, mas é difícil falar do filme sem falar deste aspecto. Em Brazil, os objetos do futuro são construído caricatamente com peças do passado, estética retrofuturista, já disseram, como, por exemplo, um videofone feito pelo acomplamento de uma televisão e um telefone evidentemente antigos já na época em que o filme foi produzido (1985).

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1984 – George Orwell

Posted by Tony Monti em 06.06.2008

Na estante da minha casa não havia muitos livros. Não era impossível conhecer o título de todos eles. Havia um volume chamado Brasil 2001 (do Mario Henrique Simonsen) e eu achava interessante que alguém escrevesse sobre o futuro. Mas eu não li o livro. 2001 foi só depois que eu conheci, no filme do Kubrick. E um pouquinho depois, devidamente alcoolizado, na sequência da festa que começou em 31 de dezembro de 2000.

Acho uma pena que essas fantasias futuristas sejam logo enquadradas na enorme categoria de ficção científica. Cada vez menos essa divisão nos grandes gêneros me serve. “Gênero não me pega mais”, escreveu a Clarice Lispector no Água Viva. Abaixo do título, vinha escrito “ficção”, provavelmente para se opor a “romance” e a “contos”, que acompanhavam os títulos de alguns dos livros anteriores da Clarice. Ficção.

Por anos, embora curioso, não me animei a ler o 1984, do Orwell. Imaginava que o livro fosse interessante, não mais que isso. Acho que o rótulo “ficção científica” enquadrava o livro, na minha cabeça, em algo mais banal do que o que encontrei agora que o li. A estrutura maior de uma sociedade sempre vigiada por um ente misterioso formalizado na imagem d’O grande irmão (big brother), idéia que é conhecida mesmo por quem não leu o livro, dá o pano de fundo para uma narrativa que se aprofunda em descrições psicológicas sutis e cenas de violência intensa que me lembraram (a violência) muito o Laranja Mecânica (Kubrick de novo, de 1971, mas também Anthony Burgess, livro, em 1962).

1984, esqueci de dizer, é de 1949. A idéia de um futuro que já é passado para o leitor de hoje é também curiosa, mas acho que, embora boa para propagar o nome do livro a quem não o leu, não dá a dimensão muito mais sutil daquilo que será encontrado com a leitura. Não se trata da descrição insípida de objetos e estruturas de uma sociedade que se parece com a(s) nossa(s) e que não se parece com a(s) nossa(s), mas também, e principalmente, a projeção dessa sociedade no comportamento e nos pensamentos de alguns dos habitantes dessa sociedade.

E a tensão armada culmina em alguns capítulos finais dos mais impressionantes que eu já li.

(Enfim, não disse muito além de que eu gostei)

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Posted by Tony Monti em 20.04.2008

festa no chiqueiro

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ABC

Posted by Tony Monti em 03.04.2008

Deleuze não costumava dar entrevista em vídeo, não gostava da idéia de responder perguntas sem que tivesse tempo para pensar um pouco sobre as respostas. Combinou-se então que a entrevista só seria exibida depois de sua morte (o que acabou não sendo respeitado).

No Abecedário, Deleuze fala, sem muita intervenção da equipe que o filma, sobre palavras escolhidas com antecedência pelos produtores da entrevista, uma palavra com cada letra do alfabeto. A princípio achei estranha a idéia e não consegui encontrar as vantagens de escolher um mesmo número (1) de palavras com C, com J e com Z. Tentei imaginar alguma palavra interessante com Z, sobre a qual ele falaria, e ainda não encontrei. Assistida a primeira hora da entrevista, localizei um ponto que eu não tinha previsto. A partir do momento que são colocadas regras assim, na aparência, esdrúxulas e não especificamente produtivas, o encontro é levado para um lugar cujas regras formais estão distantes da erudição e do aparato acadêmico (ou eu me engano).

A de animal, B de bebida e C de cultura, ainda não cheguei ao D, gostei de ver o homem falar da vida quase sem que o entrevistador interfisse. Ainda, como fala do além-túmulo, na medida em que a projeção seria feita depois de sua morte, pode-se supor algum tipo de liberdade em sua fala, sem a censura das instituições da matéria.

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cinema [8]

Posted by Tony Monti em 11.03.2008

Ainda não assisti a este último, Onde os fracos não têm vez. Estou me preparando. Tenho visto os outros filmes dos irmãos Coen, para conferir. Tenho tratado, sem me preocupar em saber mais sobre isso, “irmãos Coen” como uma entidade única sem fazer diferença entre Ethan e Joel.

O Grande Lebowski – Uns amigos insistem em repetir que o filme não é bom, mas que eles adoram.  Já comentei esse paradoxo no blog (o antigo). Acho estranho esse tipo de comentário. Dá a impressão de que há uma obrigação de fazer uma ressalva estético-moral, deixar claro que se sabe que não se deve gostar de certas coisas de que se gosta. Continuo pensando sobre o assunto. Eu gosto deste, filme sossegado. É fácil simpatizar com Lebowski, o jogador de boliche, aquele cara sossegado que não faz mal a ninguém. Mas quero fazer minha ressalva estético-moral: tenho a impressão de que é fácil gostar do Lebowski na tela, mas talvez fosse difícil conviver com a inércia dele. Enfim, não devia mas gostei, um pouco só. Ou seja lá o que for, gostar de longe e gostar de perto são coisas bem diferentes.

Na roda da fortuna – sessão da tarde, divertidinho, no máximo.

Fargo – é o que os amigos costumam apontar como o melhor. É, trama bem feitinha, bons atores, perseguição, ação, bons diálogos. É, isso é.

John Turturro em O Grande Lebowski

Barton Fink – talvez eu tenha gostado mais desse que do anterior. É o 8 1/2 dos irmãos Coen. E o John Turturro, que aparece tão bem em alguns outros filmes dos Coen (hilário no Grande Lebowski), no Barton Fink é protagonista.
Algumas tensões, algumas histórias se desenvolvem, um fim meio sem explicar. Jóia.

Mas para ganhar o Oscar, nenhum deles serve. Veremos o mais novo nos próximos dias.

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cinema [7]

Posted by Tony Monti em 25.02.2008

(no blog anterior escrevi os itens anteriores)

Bonequinha de luxo criou em mim a sensação evidente de que o livro é melhor que o filme, fato que nem sempre é verdade. Poucas vezes tenho essa sensação enquanto assito a um bom filme sobre um livro que não li.

Sem contar a Audrey Hepburn e a perigosíssima Holly Golightly (mais perigosa porque, além de linda, não parece perigosa).

Faz um tempo, fui à casa de uma aluna para sua primeira aula particular de redação. Perguntei seu nome (tinha conversado antes, rapidamente, apenas com sua mãe). Não entendi bem a resposta. Igual ao da atriz (Audrey)? Não, igual ao do astronauta (Aldrin). Aldrin passou no vestibular. O caminho entre a minha e a sua casa, que eu fiz a pé por alguns meses uma ou duas vezes por semana, inspirou o cenário de um conto d’O mentiroso.

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