tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
    (2013)


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    eXato acidente
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    o menino da rosa
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    o mentiroso
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Archive for the ‘eu te amo’ Category

garatuja (85) – olfato

Posted by Tony Monti em 10.09.2013

Senti um cheiro ruim que me faz lembrar dela. É o cheiro ruim dela. É um cheiro horrível. Me lembra dela, de tudo dela, não apenas do cheiro ruim. Quando estou com ela, o cheiro ruim dela me afasta. Quando estou longe, o cheiro ruim dela é ela, é horrível, é bom.

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garatuja (72) – explicação sobre os bancos de praça

Posted by Tony Monti em 19.04.2013

Era um daqueles bancos de praça de concreto. Uns duzentos quilos. Já não estávamos sentados. Ela olhava para mim com o rosto assustado. Eu andava rápido em volta do banco. De vez em quando mudava de sentido. Ela mexia os pés quase no mesmo lugar, os joelhos unidos em súplica, ameaçava mas não dizia nada, girando aos poucos em torno de si para acompanhar com os olhos o meu percurso e o meu andar violento.

Eu também já tinha parado de falar. Suava, coração acelerado, com lágrimas encravadas. Quando eu mudava a direção do percurso, ela esticava um pouco os braços. Seus gestos pediam que eu parasse. Estávamos ali no pátio havia uma hora, não mais. Era um tempo concentrado, uma hora que continha dois anos de dificuldades de nos entendermos.

Neste momento eu parei de andar em círculos. Parecia que apenas mudaria de sentido mais uma vez. Ela já esticava os braços quando eu abaixei um pouco os joelhos, coloquei meus braços por baixo do banco e arremessei aquele bloco absurdo de concreto vinte centímetros à frente. Quando o banco caiu, eu estava ao lado dela. Havia riscos grossos de sangue no meu antebraço. Eu estava cansado. Finalmente, em dois anos, tive a impressão de que ela entendeu algo.

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garatuja (70) – explicação sobre os touros

Posted by Tony Monti em 11.04.2013

1. A gente não é o bicho mais racional. Seria ruim considerar que não há nada além de deixar-se levar? Os latinos traduziram o pathos grego por afecção, algo que vem de fora, o que torna evidente o estado passivo do apaixonado. Não é que o apaixonado não possa se mexer. É que a paixão é um outro impiedoso que toma e  controla a vítima. Freud disse que há um outro que a gente carrega conosco e a quem nunca conheceremos para além de uns cacos com pouco sentido que esse outro sempre deixa escapar (talvez “deixar escapar” não seja a ideia exata, talvez esse outro seja uma caixa preta que nos perturba sem explicação). Lacan certa vez sugeriu que o que a gente chama de Eu não é muito diferente de uma coleção desses cacos que o outro às vezes arremessa para fora de si, em cima da gente, e nos faz perceber à força a sua existência, que neste caso se confunde com nossa própria existência. Nós seríamos assim uma coleção de pedaços desconexos de paixão. Nós seríamos assim um apanhado de forças que nos moldam de fora para dentro, embora seja difícil definir fora e dentro.

2. Breve descrição sobre Eu: estou ansioso, às vezes dói, às vezes dói bastante. Já estive nesta situação outras vezes. Não é a dor enclausurante de quem não vê nada acontecendo. Estou distante da apatia. Coisas intensas acontecem. A experiência diz que parte dos fatos mais significativos da vida acontecem nestes momentos, quando estou superalerta. Em outras situações, porque dói muito, se após a dor o que vem é decepção (o nada), estas situações diametralmente opostas à apatia são o prenúncio de enormes amontoados de merda.

3. É preciso redefinir “fatos significativos”  e “enormes amontoados de merda” para não parecer que o pior é maior que o melhor que pode acontecer. O que acontece de positivo pode ser tão enorme quanto eu consigo imaginar. A experiência diz (e/ou me engana) que pode ser bem bom.

4. Pode-se inventar uma diferença entre duas palavras semelhantes para fixar uma lembrança: um rompante é uma explosão em que o descontrole pode ser enorme, mas não é absoluto.

5. Talvez sejamos, não o produto de um outro que carregamos nas costas, mas dos sacolejos da besta sobre a qual irremediavelmente estamos atados. Parece com montar (sobre) um touro, mas é o bicho que nos (sub) monta.

6. Observei com calma, conversei com amigos, a única coisa razoável a se fazer é não explodir, o que talvez seja possível. É não se destruir com os cacos que o outro (que carregamos nas costas, que nos submonta, que nos controla, que nos molda) arremessa na gente. “Apenas aguardar” seria uma descrição leviana da atitude. Apenas esperar parece com dormir tranquilamente em uma rede, temperatura morna, silêncio que se confunde com o barulho do mar e com o cheiro de comida no fogão. Refiro-me a amarrar-se em casa, fugir, sumir, quebrar o telefone celular, jogar dias seguidos partidas de xadrez de um minuto na internet, alucinadamente, comer pouco ou muito, imbecilmente, correr na rua por horas para conseguir esgotar as energias físicas, telefonar de madrugada para alguém distante que não vai entender nada, fazer o tempo passar à força, mesmo que o tempo não queira. É por isso que algumas pessoas ficam insones. Elas precisam provocar a exaustão como modo de esperar. Nada de rede para deitar. Aguardar é uma estratégia vigorosa, detalhada e absurdamente tensa. A experiência diz que as grandes merdas e as melhores experiências começam às vezes do mesmo modo. E a única chance de não provocar irrevogavelmente a queda no abismo é o esforço por não arremessar os cacos longe demais. Apenas isso. Rompantes em vez de explosões. Não há nada mais o que fazer. E pode dar errado.

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garatuja (48) – solidão

Posted by Tony Monti em 11.10.2012

Já aconteceu de, ao ver uma pessoa pública ser condenada em tribunal, esquecer os motivos do julgamento e me comover com a desumanidade de tirar a liberdade de alguém. Acho que não é religioso o sentido que me toma. Mas parece. Sinto-me igual ao réu, em sua humanidade falha, talvez com medo de um dia não reconhecerem meu esforço de fazer as coisas direito.

Normalmente só afio a lâmina com gente muito próxima. Esqueço que eu não suportaria o rigor das regras com que aponto as faltas dos outros. São raros, mas reveladores estes momentos. Fico mais rigoroso com os outros quando não consigo me entender.

Preciso lembrar que às vezes acuso os outros para fugir de mim. Acho que às vezes acuso para fugir dos outros também. Às vezes é parecido. Eu só queria ir embora, mas eu não consegui ou você não deixou. Não sei. Peço perdão. Eu te perdoaria. Preciso lembrar de te perdoar. De não te acusar. Às vezes é parecido.

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garatuja (12) –

Posted by Tony Monti em 30.12.2010

1. Nunca tivemos um segundo encontro. Nos vimos muitas vezes, e nos beijamos algumas. Meses entre um abraço e outro. A repetição dos mesmos dois rituais simples. Pequenas variações. Um ritmo com pulsos intensos e pausas enormes.
1a. Eu apareço, eu a olho, eu me aproximo, ela sorri, eu me aproximo, ela sorri. Ela me morde a boca, ela puxa minha mão para sua cintura, ela me cheira, raspa a pele no meu rosto, na minha barba. Eu me rendo. Ela foge. Ela some. Ela comenta as cores das paredes, a música, o decote da nova garçonete. De novo, eu penso desde a segunda vez, de novo. Eu vou embora, a noite acaba em ódio.
1b. Eu a ignoro, ela me ignora. Eu a ignoro, as pessoas vão sumindo. Eu viro de costas para ela. Ela dança. Somem todos. Somos eu e ela. Eu de costas. Quando eu viro, ela tem raiva. Nos beijamos e temos uma noite satisfatória. Boa. Com elogios, carinhos e cheiros. Na semana seguinte, ela recusa um convite meu.
1c. Uma combinação de a e b

2. Às quatro da manhã, oito horas depois do momento em que começamos a nos ignorar, chegamos em casa. Ela olha as paredes, o sofá, eu pego dois copos d’água. Ela se senta em frente à minha estante e vasculha os livros, um por um. Comenta, sorri, repõe tudo no lugar exato. Foi a maior intimidade que tivemos, até então. Como regra, ela se desliga quando eu me entrego. Pude vê-la distraída neste dia, sem a máscara da indiferença tensa, sem que ela tenha a intenção de seduzir ou fugir. Dormimos e acordamos juntos. Ela foi embora. É das poucas lembranças dela com alguma continuidade, que faz sentido além do número, memória diferente de termos ou não nos beijado.

3. Em cinco anos talvez não tenhamos mais tantos livros de papel. Niniguém vai poder sentar no chão em frente à minha estante. É o que me parece mais negativo. Perdem-se as capas, o estímulo visual, o compartilhar do espaço. Ninguém mais sabe das 3000 músicas que cada um carrega no bolso agora. Talvez comecemos a comprar quadros, pôsteres, mas será tudo como os livros de mesa, intencionais demais. Elementos de cena. Vai faltar aquela sujeira esquecida, aquele livro solto, folheado ontem.

4. Alguns amigos meus resolveram comprar vitrolas e escutar discos em vinil. É bonito ver o disco rodando, os sulcos passando. E a capa, pegar uma pilha de discos e olhar o rosto dos cantores, as roupas, todo este discurso de cores e vontades que se perde quando tudo é binário. O som é pior, mas valoriza o encontro.

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garatuja (2) – eu também te amo

Posted by Tony Monti em 28.11.2010

Posso grifar no que você escreve cada palavra que não corresponda a nada fora dos livros?, cada jeito de dizer que seja tão interno à literatura que não signifique nada, que só sirva a celebrar os hábitos do nosso gueto pequeníssimo?, aquela vontade sua de lembrar o tempo todo que está fazendo arte? Vou comentar tudo o que pareça carência, que me soe vontade de pertencer ao grupo, que não me sirva de nada, que me lembre de eu te amo.

O eu te amo dito é aquele reforço da estrutura que nos mantém juntos, por fora, que nos deixa seguros de não estarmos sozinhos.

Vou sublinhar sua vontade de se parecer com seus autores favoritos e de se isolar de mim.

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