tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
    (2013)


    Capa de eXato acidente
    eXato acidente
    (2008)



    Capa de o menino da rosa
    o menino da rosa
    (2007)




    Capa de O Mentiroso
    o mentiroso
    (2003)





  • e-mail do Tony:
    monti1979 arroba gmail ponto com



  • Arquivos

Não é preciso parar o trem

Posted by Tony Monti em 23.09.2012

1.
A dificuldade de inventar uma imagem para a liberdade me alertou para algo estranho: há um pressuposto às vezes esquecido em tudo o que se fala. Quando eu digo um sentimento (de liberdade, por exemplo), não digo meu corpo. Chego a esquecer que ele existe, que as opressões não são absolutas, não acontecem no vazio, mas no encontro entre as massas. Para um peixe que nada em um labirinto muito grande, liberdade são os vãos entre as pedras. Quando saio da cidade grande, deixo também minha rotina. A pressa dos outros me cai como roupa confortável. A poeira sobe do chão como um sinal de que não preciso me preocupar com as lâminas da disciplina.

2.
As finalidades constroem numerosos trilhos rígidos e funcionais, mas não construíram ainda teletransportes. Não há um mundo como o da lenda oriental em que um samurai hábil antecipa tantos movimentos do adversário que, quando pisa o território da luta, já sabe se vai sair vivo ou morto. Para ele, começar a lutar é a luta toda. O percurso é um algoritmo com uma entrada e uma saída. O confronto é a cartografia dos movimentos e das consequências, sem texturas nem desatenções.

3.
Antes de retirar a espada da bainha, o samurai mede o corpo e as habilidades do oponente. O confronto ideal começa enquanto os adversários se olham e termina depois do golpe único, ao verter do sangue. Como o enxadrista experiente, que abandona o jogo lances antes de o xeque-mate acontecer no tabuleiro, por vezes um dos samurais não se mexe. Em respeito ao outro, abandona o controle dos músculos se percebe que estender a resistência consumiria segundos da vida do samurai sobrevivente. Não existe o som repetitivo dos toques entre as lâminas. O som fica concentrado em um kiai solitário e, às vezes, em um urro transtornado de dor ladeado pelo silêncio das árvores.

4.
Vocês estão indo para onde? Há um acordo silencioso entre jornalistas para não divulgar os suicídios de quem se joga nos trilhos. Os jornais também falam pouco das gentes que vão e vêm dentro dos trens, em um suicídio lento, aos poucos. Os trilhos são paredes rígidas, uma prisão por onde é possível ir e vir.

5.
À beira do fosso onde passa o trilho, amontoam-se algumas dezenas de pares mínimos de pernas. São animais que não se conhecem. Espalham-se em objetivos diferentes (como modo particular de complicarem ou simplificarem suas vidas). Os pares de pés distantes alguns centímetros do fosso esperam o trem em aparente desorganização. A máquina vem e dispara em cada animal um sinal para o movimento, mas apenas quando ela parar. Mesmo com pressa, ninguém dá mais de dois passos até que tudo esteja imóvel e que as portas se abram como sinal de que podem ir. Hoje, eu vi, o trem veio, todos esperaram, entraram os que eram de entrar e saíram os que eram de sair. Ninguém, mais uma vez, ninguém se jogou nos trilhos.

6.
Para onde, para onde? Devem ter muita fé aqueles que entram e saem das mesmas portas todos os dias. Não sei, não é preciso parar os trens. Talvez haja outra opção, entre a escolha dos que apenas vão e vêm e a dos que se jogam na frente da máquina. Nem confundir o território com o mapa, nem provar do corpo de uma vez, desistindo dele.

7.
A linha de trem supostamente perfeita iria do ponto onde eu estou ao ponto para onde quero ir. O sonho do progresso inevitável não tem mato crescendo nem ninguém olhando. Um curto-circuito em uma vida sem becos e desatenta às assimetrias. Mas não quero esquecer, no mundo e nos mapas, daqueles trechos de estrada que começam em uma pedra e acabam em um barranco, como os vincos na pele da gente, que justificam a existência pela inutilidade.

Anúncios

5 Respostas to “Não é preciso parar o trem”

  1. Tony, sua descrição da filosofia zen ficou muito linda. As imagens dos samurais se constroem à minha frente à medida que lemos.
    Se pudesse escrever um romance entre um samurai e uma menina perdida da cidade ficaria lindo.
    Só não concordo na relação entre a cena descrita com o suicídio. Talvez tenha entendido errado. Para mim, o samurai é humilde e honrado ao mesmo tempo. Ele não se mata, apenas deixa-se morrer, o que é algo bem diferente. O apego traz sofrimento. O suicida é somente arrogante, pois acredita na importância de seu sofrimento pessoal. Seu sofrimento emerge de sua insatisfação com seu posicionamento no mundo. Queria mais, e não recebeu. O samurai aceita o fluxo da vida, e o suicida não, não aceita sua vida e sua pequenez. Para mim, o homem só se torna grande quando percebe que é pequeno, e então passa a fazer o que tem de ser feito, com menos vaidade. Pode então fazer algo grandioso.

    • tonymonti said

      Obrigado, Adriano, pelo “muito linda”. Me soou bem agradável este elogio. Eu não tinha intenção de que fosse descrição de filosofia zen. Mas, se foi, e se ficou bom, que seja.

      Também não tinha a intenção de aproximar do suicídio a morte consentida do samurai. O texto é bem fragmentado. As partes se relacionam de modos estranhos. Na verdade a relação principal, para mim, é uma impressão não muito explicável. Se fosse para explicar, eu explicaria em um texto só, inteiro, em vez de escrever fragmentos separados. Tenho a impressão de que concordo com você sobre o “espírito” do samurai.

      Obrigado novamente pelo comentário.
      E um abraço.

      • O estilo fragmentado afasta quem quer uma resposta rápida, mas permite ao leitor criar nestes espaços. Os caras bons em escrever quadrinhos sabem bem disso. O Frank Miller usou esta mesma metáfora do confronto ideal antecipado na versão dele do Batman, o retorno do cavaleiro das trevas, obra que relançou os quadrinhos “de arte”… Ficou bom mesmo. Keep writing.

  2. Fabiana said

    Tony, esse livro estava na minha lista de coisas a ler… muito bonito o seu texto. Na semana passada, perdi um compromisso por conta do trânsito que se formou após um suicídio: alguém se jogou da ponte, interrompendo o fluxo. E ontem, no banheiro feminino, ouvi um relato sobre um suicídio no metrô, que teria ocorrido na sexta. A gente não sabe, não fica sabendo… a não ser que calhe de estar por perto e, nesse acaso, ter a vida misturada àquela que terminou ali. E fiquei pensando em tudo o mais que a gente não sabe, das informações de que somos protegidos porque há tempos sabemos que desespero é meio contagioso. É preciso fé para insistir, sem dúvida.
    Gosto muito das imagens do texto, principalmente os da primeira “estrofe”.
    Beijos,
    Fabiana

  3. tonymonti said

    No ano passado, fui chamado a escrever um texto em um livro de fotos tiradas nos percursos das linhas férreas no estado de São Paulo. Meu texto publicado foi, com mínimas modificações, este acima.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s