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Questões de geometria: a bicicleta

Posted by Tony Monti em 20.03.2012

1. Há cinco meses caminho cerca de 40 minutos a mais por dia. Há um mês vendi meu carro. A sensação é de que aos poucos o corpo vai se moldando aos caminhos. Já sei escolher os calçados e as velocidades confortáveis. Não sou ciclista, mas simpatizo também com as engrenagens ingênuas da bicicleta, que fazem menos barulho que os automóveis e que isolam menos o condutor e a cidade. De bicicleta é possível ver os detalhes do ladrilho da calçada, notar como o mato cresce, como a rua cheira. Gosto da sutileza da propulsão, da delicadeza do corpo um pouco mais exposto. O ciclista tem uma perspectiva melhor que o motorista para perceber os modos como seu corpo cabe na cidade.

2. Em cada bicicleta cabe apenas uma pessoa. A lei diz que o motorista de veículo automotor deve guardar 1,50m de distância do ciclista para ultrapassá-lo. Legalmente, portanto, a bicicleta é um veículo individual que tem, em certas circunstâncias, 3m de largura. Ainda, ela é em geral mais lenta que o automóvel e que o ônibus e que o metrô. As bicicletas ocupam legalmente espaço nas avenidas já bastante movimentadas da cidade. Se um ônibus fizer uma curva necessária e o motorista competente e atento não enxergar a bicicleta, pode ser que os 3m sejam sutilmente invadidos. Este motorista não é, aos meus olhos, legalmente, um assassino.

3. Corredores de ônibus regulares têm entre 2,75m e 3,30m. Um ônibus permite a mobilidade de um número significativamente maior de pessoas do que uma bicicleta. Se sobrepusermos a mobilidade urbana às vontades individuais, não me parece que a circulação de bicicletas seja uma alternativa eficiente para as grandes avenidas (mesmo que o plano seja retirar os automóveis da rua, o que não me parece ruim). Mais ônibus, mais metrô, menos automóvel. E as bicicletas poderiam fazer bem o trânsito capilar.

4. A defesa da bicicleta sem a reflexão sobre a mobilidade na cidade permite o argumento vazio, neste contexto, das liberdades individuais. Alguém quer andar de bicicleta, alguém vai querer andar de carro. No limite, começo a perceber um fetiche pela bicicleta (não muito diferente do tradicional fetiche pelo carro) e reações violentas de ciclistas a tentativas de dar desdobramentos ao pensamento sobre a cidade. Obedecer apenas às vontades individuais seria desregulamentar o trânsito como alguns querem desregulamentar a economia. Crack. Bolha. Não serve. Uns querem ganhar muito dinheiro, outros querem andar de bicicleta. A palavra liberdade perde o sentido. Falta dar contexto às vontades, matizar com o princípio de realidade as inclinações individuais. Caso contrário, não há política nem senso coletivo.

5. Sim, é possível melhorar a circulação de bicicletas na cidade dentro de um plano abrangente de mobilidade de pessoas (não especificamente de carros, mas também não especificamente de bicicletas).

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6 Respostas to “Questões de geometria: a bicicleta”

  1. ej said

    É complicado, muita gente conectada, pode haver, e sempre há, algum mal-entendido.

    Não sei como funcionam essas coisas de WordPress. Simplesmente apareceu uma mensagem que tinha ocorrido um erro porque eu tenho uma conta no wordpress e não tinha feito log in para comentar. Sei lá, não vou mais colocar o email, assim ele não me identifica.

    “Fazer o seu” no sentido de respeitar as leis de trânsito mesmo. Se não ficasse todo mundo enlouquecido achando que um minuto a menos vai fazer alguma diferença nos cento e vinte que se gasta todo dia, já estava menos difícil.

    Algumas motos emitem muito menos do que manda a legislação, se igualando ao carro. E, a tendência é a lei ficar mais rigorosa mas, aqui, a prioridade sempre foi o carro, que tem frota muito maior e, sim, mata menos, machuca menos, protege da chuva e do sol, etc.

    Já virou briga de torcida e estou pronta para atirar pedra. :-)
    É que rolou um stress grande no ano passado, então me irrita muito ver esse povo com este discurso todo na boca quando, na pratica, falta refletir um pouco sobre si mesmo (que era o que me faltava no ano passado e gerou todo o stress).

  2. EJ said

    (Eu tinha escrito uma coisa bem comprida aqui ontem mas o WordPress não me deixou publicar porque não fiz o log in e o comentário se perdeu. Nem sei se continua fazendo sentido mas, resumindo bem era: 1. Como motorista ferrenha, minha balança pende um pouco mais para o pedestre do que para qualquer outro dos lados; 2. Se cada um fizesse o seu, dava menos confusão; 3. Ciclista não é santo, principalmente em se tratando de respeito ao pedestre; 4. Motos seguem a legislação de emissão de poluentes, que tem ficado cada vez mais rigorosa, seguindo tendências européias; 5. Existem motos de baixa cilindrada com injeção eletrônica e motor flex fuel, e também com catalisadores, o problema é que a frota de motos velhas é muito grande ainda; 6. Estou me escondendo do Facebook)

    • tonymonti said

      Está se escondendo aqui também.
      Não deixou o nome, EJ … ok ok.

      1.
      2. Nem sempre é fácil saber o que é “fazer o seu”. Nos casos de conflito de interesses, é preciso criar regras para que as pessoas que querem fazer o seu saibam o que fazer.
      3. Prefiro não criar a categoria “ciclista” como uma unidade, para não virar briga de torcida, ciclista x pedestre x automóvel.
      4-5. Além de, na prática, ainda poluírem muito (entre outras coisas, porque a legislação permite), motos matam e machucam muito também. E isso é meio complicado. Você é especialista em moto?

      (obrigado pelo comentário, EJ)

      • tonymonti said

        Outra coisa, EJ, é difícil assim fazer comentário aqui?
        (Mudei umas opções de comentário,
        vamos ver se fica melhor)

  3. Fabiana said

    puxa, Tony! Adorei seu post. Concordo com você que por vezes a discussão que aumento do número de bicicletas na rua suscita perde sua potência quando vira disputa de territórios ou vontades individuais. A tensão entre pedestres e carros (e me incluo nisso, pois ando bastante a pé, e inclusive ando bastante com meu filho pequeno a pé) e a tensão entre ciclistas e carros/ônibus encena a violência de nossas escolhas urbanas. O principal problema é que é uma disputa desigual por demais – e a gente se vê querendo bater o pé e dizer, como uma vez ouvi um ciclista gritar para um ônibus que o foi encurralando na sarjeta, “eu sou uma pessoa”. Como se o respeito e o cuidado só pudessem cavar algum lugar na afirmação do direito à vida. A gente não discute o direito ao uso da cidade; a gente passa a discutir em termos de direito à vida e aí a balança pende mesmo para um dos lados. Como diria a Hannah Arendt, quando a necessidade entra em cena, a política termina… Terminando o comentário longo demais: gostei muito do seu texto, ele nomeou algumas das minhas próprias inquietações. (agora sem facebook fico com saudade de saber de você). Beijo.

    • tonymonti said

      Ótimo, Fabiana (sentia falta de notícias suas também).
      Há um fanatismo ingênuo em certo cicloativismo que me assusta, em particular a lógica de culpar um indivíduo imediatamente, como se a morte (de um ciclista) fosse ser redimida com a nomeação de um culpado. E aí a política termina.
      Ahh, você sabe disso.
      beijo.

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