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As vísceras de Julián Fuks

Posted by Tony Monti em 28.11.2011

Na próxima quinta-feira, o escritor Julián Fuks lança seu terceiro livro e primeiro romance. Em 2009, quando eu já tinha lido os primeiros capítulos do livro, fiz uma pequena entrevista com ele para o site Terra Magazine. Reproduzo a seguir a nossa breve conversa.

_______________
Lançamento de Procura do romance, de Julián Fuks
Editora Record
Quinta-feira, 1 de dezembro, 19h

Local:
Feira Moderna
Rua Fradique Coutinho, 1246
Vila Madalena
____________________________

Julián Fuks é autor de Histórias de literatura e cegueira (2007) e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu (2004). O mais antigo ganhou o Prêmio Nascente da USP, em 2003, e o mais recente foi finalista dos Prêmios Jabuti e Portugal Telecom, em 2008.

Histórias de literatura e cegueira é um livro difícil de classificar. É composto por três segmentos razoavelmente independentes que traçam perfis de escritores (Borges, João Cabral e Joyce), a partir de suas literaturas, com o foco em uma característica biográfica comum a eles: a cegueira. Há quem tenha classificado o livro como “ensaios”, “contos” ou “romance”. Fuks alterna, em seu texto, ficção, dados biográficos e trechos da obra de cada escritor, sem se preocupar em explicitar suas fontes conforme o texto corre.

As duas perguntas a seguir tratam ao mesmo tempo deste livro e de todos os outros textos, publicados em livro ou não, que já li do escritor.

1 – Julián, dois aspectos do seu texto sempre me chamam a atenção. Um deles é a variada escolha vocabular e o outro é a sintaxe, bastante distinta daquela da língua cotidiana, com frases longas, inversões e inúmeros adjetivos. Para mim, o efeito destes recursos é às vezes a sensação de percorrer um mundo arcaico, com requintes que me soam como a construção de um palácio, com seus tapetes, louças, móveis, obras de arte, cortinas, um edifício que é certamente símbolo, na minha imaginação, de um certo passado histórico distante. Por outro lado, o estranho da linguagem funciona também como ritual, as frases longas e as inversões sintáticas configuram um ritmo um tanto encantatório que faz com que a leitura flua e me guie em seus labirintos. Me pergunto há algum tempo que intenção pode ter o autor destes textos ao escolher esta escrita, de que maneira esta escolha significa a impressão, no texto, de seu ponto de vista sobre a literatura e sobre o mundo.

Triste seria se a marca do nosso tempo fosse o empobrecimento da linguagem. Se só pudéssemos escrever as frases mais banais com as palavras mais banais e todas as outras estivessem interditadas, relegadas ao esquecimento, encarceradas nos dicionários ou em livros empoeirados. Não, para mim o escritor tem de se valer de todos os seus recursos, tem de empenhar todas as suas forças no engenho de sua expressividade. Só assim terá alguma chance de arcar, aí sim, com o empecilho maior de seu tempo: a suspensão das certezas e a noção de que talvez não se possa expressar mais nada, que talvez já não tenha sentido inventar histórias e contá-las em mais algumas páginas desgastadas. O encanto que se almeja provocar, nesse caso, ou o que eu almejo provocar, é o encanto do paradoxo: a linguagem que flui, feita de ritmo, riqueza e sonoridade, e que tenta assimilar o real em sua complexidade, ciente de que o real há de ser sempre inassimilável.

2 – Muito da literatura que é escrita hoje nas grandes cidades brasileiras é bastante agressiva e explosiva, revelando, na minha opinião, as grandes tensões existentes no tecido social destes locais. A sua literatura não é assim. Seu texto é cerebral em vários níveis, muito menos explosivo quando contraposto tanto à cidade quanto ao texto de vários de seus colegas mais próximos. Talvez pelo hábito de encontrá-las sempre à vista em certas literaturas, eu procuro as vísceras nos seus textos e só encontro lógica. Esta faceta cerebrina do seu texto são suas vísceras?

Ha, é uma idéia muito boa, fico agradecido. Se por vísceras se entende aquilo que nos faz sentar em frente à tela e pousar os dedos sobre as teclas, não tenho como discordar. O que me impele a escrever é a razão, é a suspeita de poder construir um objeto à parte com sua lógica própria, e não a emoção decorrente de uma experiência qualquer. Vivo desde sempre em uma cidade grande e de fato vivenciei meus momentos eventuais de violência, mas por algum motivo eles não me incitaram a escrever nada. Talvez por serem exceções, fatos desconexos que pouco se inserem no meu cotidiano. Meu imaginário se faz mais no interstício entre os acontecimentos corriqueiros e os debates conceituais, as procuras intelectuais, as idéias, os livros.

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