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roberto bolaño (1) – silêncio

Posted by Tony Monti em 11.05.2011

Faz poucos anos que se fala em Roberto Bolaño. Só agora fui ler algo dele. Por causa do que me disseram, fiquei com receio de encontrar mais histórias policiais do que gostaria. Li Noturno do Chile e Estrela distante, dois livros curtos antes de me afundar logo mais em um maior.

Os livros tratam de assuntos próximos, no mesmo período histórico – do fim do governo Allende, passando por todo o governo Pinochet, ao começo da redemocratização. Gostei de ambos os livros, mas no fim de Estrela distante uma mudança em algo na narrativa me pareceu escapar. Tentei criar uma hipóstese para explicar esse incômodo. Dividi então o que li em dois modos narrativos.

O primeiro modo trataria, entre outras coisas, do silêncio que caracteriza o regime autoritário. Há assuntos tabu sobre os quais não se fala. Uma superfície organizada sobrevive ignorando os porões, a tortura, as perseguições e a violência que garante a perpetuação do poder. É mais do que calar-se por um medo consciente. Há uma estrutura traumática que faz com que se cale sem guardar a memória do processo que levou ao silêncio. Assim, muitos fatos somem das discussões públicas por um processo automático que evita a referência à dor. Gosto do modo como, nos livros, é construído este apagamento.

Se esse primeiro modo trata com cuidado do Estado militarizado e, assim, policial, o segundo modo dos livros, concentrado no final de Estrela distante, faz uma simplificação formal: a narrativa transforma-se em um romance policial, uma busca simples por um desaparecido (personagem que tinha papel importante na estrutura mais complexa do começo do livro). Feita a ressalva, bom livro.

Ao dividir assim os romances em dois modos narrativos, me lembrei de Rubem Fonseca e como sua literatura oscila também em modos parecidos com esses (guardadas as imensas diferenças). Há um Rubem Fonseca d´O caso Morel e vários contos de Lúcia McCartney, O cobrador e Feliz ano novo que cria um universo ficcional opressivo e violento, sem recorrer a um formato paralisante. Estes livros foram escritos e publicados durante o regime militar brasileiro. Se nos romances de Bolaño o silêncio sobre a violência é expresso às claras, em Fonseca um silêncio mais discreto cerca a violência e a separa da ordem social regulamentar. Um segundo Fonseca, na minha opinião muito inferior ao primeiro, domina os livros a partir dos anos 80. Os formatos são mais previsíveis e uma erudição fake e pedante invade os textos sem colaborar com o que é narrado.

Bolaño insiste também em uma intersecção entre as artes e a violência sistemática no regime, esboçando uma linha para separar uma arte de oposição e uma outra que, ao mesmo tempo que tinha seu caminho facilitado pelo Estado, fazia vistas grossas para a violência que acontecia muito perto dela. Às vezes a fronteira se embaça, o que evita a simplificação da questão, mas arte e regime permanecem o tempo todo imbricados em alguma medida.

No Brasil há uma tendência crítica que localiza silêncios nas auto-imagens sociais, em particular nos relatos sobre o Regime Militar, não só devido à dificuldade traumática de lidar com a violência dos porões, mas porque em silêncio pode-se continuar tolerando a violência em determinados momentos. A violência poderia assim ser transmitida (e incentivada) pelos costumes, em surdina, ainda que no discurso público, da superfície, as arestas estejam aparadas. Segundo essa ideia, a tortura é considerada ainda, por muita gente, um método razoável. De algum modo, enquanto não se narra esta história oculta, ela se repete, na escala doméstica e nas práticas de Estado.

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