tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago




  • três coisas que eu
    gosto - infantil -
    (2013)


    Capa de eXato acidente
    eXato acidente
    (2008)



    Capa de o menino da rosa
    o menino da rosa
    (2007)




    Capa de O Mentiroso
    o mentiroso
    (2003)





  • e-mail do Tony:
    monti1979 arroba gmail ponto com



  • Arquivos

garatuja (12) –

Posted by Tony Monti em 30.12.2010

1. Nunca tivemos um segundo encontro. Nos vimos muitas vezes, e nos beijamos algumas. Meses entre um abraço e outro. A repetição dos mesmos dois rituais simples. Pequenas variações. Um ritmo com pulsos intensos e pausas enormes.
1a. Eu apareço, eu a olho, eu me aproximo, ela sorri, eu me aproximo, ela sorri. Ela me morde a boca, ela puxa minha mão para sua cintura, ela me cheira, raspa a pele no meu rosto, na minha barba. Eu me rendo. Ela foge. Ela some. Ela comenta as cores das paredes, a música, o decote da nova garçonete. De novo, eu penso desde a segunda vez, de novo. Eu vou embora, a noite acaba em ódio.
1b. Eu a ignoro, ela me ignora. Eu a ignoro, as pessoas vão sumindo. Eu viro de costas para ela. Ela dança. Somem todos. Somos eu e ela. Eu de costas. Quando eu viro, ela tem raiva. Nos beijamos e temos uma noite satisfatória. Boa. Com elogios, carinhos e cheiros. Na semana seguinte, ela recusa um convite meu.
1c. Uma combinação de a e b

2. Às quatro da manhã, oito horas depois do momento em que começamos a nos ignorar, chegamos em casa. Ela olha as paredes, o sofá, eu pego dois copos d’água. Ela se senta em frente à minha estante e vasculha os livros, um por um. Comenta, sorri, repõe tudo no lugar exato. Foi a maior intimidade que tivemos, até então. Como regra, ela se desliga quando eu me entrego. Pude vê-la distraída neste dia, sem a máscara da indiferença tensa, sem que ela tenha a intenção de seduzir ou fugir. Dormimos e acordamos juntos. Ela foi embora. É das poucas lembranças dela com alguma continuidade, que faz sentido além do número, memória diferente de termos ou não nos beijado.

3. Em cinco anos talvez não tenhamos mais tantos livros de papel. Niniguém vai poder sentar no chão em frente à minha estante. É o que me parece mais negativo. Perdem-se as capas, o estímulo visual, o compartilhar do espaço. Ninguém mais sabe das 3000 músicas que cada um carrega no bolso agora. Talvez comecemos a comprar quadros, pôsteres, mas será tudo como os livros de mesa, intencionais demais. Elementos de cena. Vai faltar aquela sujeira esquecida, aquele livro solto, folheado ontem.

4. Alguns amigos meus resolveram comprar vitrolas e escutar discos em vinil. É bonito ver o disco rodando, os sulcos passando. E a capa, pegar uma pilha de discos e olhar o rosto dos cantores, as roupas, todo este discurso de cores e vontades que se perde quando tudo é binário. O som é pior, mas valoriza o encontro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s