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sonhos #5

Posted by Tony Monti em 16.08.2010

O que me surpreendeu hoje foi o fato de estarmos os cinco juntos, como um organismo. Logo antes, na cena anterior, eu tomei um tiro no pescoço. Poderia dizer também “sonho anterior”, porque um enredo lembra pouco o outro. Eu estava numa calçada, andando. De repente as pessoas começam a se movimentar, a fugir de um ponto específico. Na multidão eu não consigo ir com eles. Surge então, alguém com um revólver apontado para mim. Eu imaginei que, sem um motivo, ele não atiraria. Atrás de mim, a massa de pessoas era compacta e não permitia que eu me afastasse. Ele atirou. Eu não senti dor. Foi um tiro no pescoço. Não cheguei a colocar a mão no lugar do ferimento. Não caí, não perdi o a consciência. Tinha dúvida sobre o tiro ter ou não me machucado. Ao mesmo tempo, a razão me dizia que eu ia morrer. No rosto das pessoas que me olhavam, eu via a expressão em relação ao que elas viam. Talvez sangue – meu sangue nos olhos delas -, talvez pensassem o mesmo que eu, que eu ia morrer. Não apareceram pessoas conhecidas. Agora escrevendo, no entanto, imagino que meu pai chegaria tranquilo e me levaria para lugar mais protegido. A sensação é estranha e clara, e talvez estivesse já no sonho, mesmo sem a imagem do meu pai.

Na cena seguinte (no sonho seguinte) é que estamos os cinco juntos, na casa. Quando eu era criança, eu tinha uns cinco anos, pediram na escola para eu desenhar minha família. Não tive dúvida quanto a isso. Fiz os contornos e pintei meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã e eu. Quando eu estava na sexta série me pediram para me desenhar. A professora riu porque eu era dos poucos alunos da sala que intencionalmente fez uma espécie de caricatura. Eu aumentei muito meu óculos de lentes grossas enquanto a maioria dos outros tentou parecer mais bonito. No desenho do pré, eu esqueci os braços de todos. Pessoas sem braços. Parece hoje meio incrível saber bem quem é a minha família e esquecer um pedaço tão concreto do corpo de cada um. Quando tinha a mesma idade que eu, na mesma escola, pediram também ao meu irmão que nos desenhasse. O desenho dele é em resumo o mesmo que o meu. Mas as pessoas tinham braços. E os homens tinham um pênis bem evidente no meio das pernas. 

A família e a casa onde morei na infância são, quando aparecem nos sonhos, quase que uma única coisa. É tudo tão íntimo que é como se tudo fosse eu, sem divisas. N’o menino da rosa, eu falei disso mais de uma vez.  Neste sonho especificamente, além de bem unidas, as partes não entraram em grandes conflitos. A tensão era entre nós e o exterior. Homens cercavam a casa e queriam entrar. Ladrões.

Lembro de passagem de algumas cenas tranquilas. Meu pai estava um pouco inseguro se devia abrir ou fechar as cortinas. Minha irmã, em vez de falar com a policia, passa o telefone para minha mãe. Eu achava, no momento, que seria melhor que minha irmã falasse, mas logo entendi que a facilidade com que minha mãe fala poderia ajudar. Os cinco na casa e eles andando lá fora. A gente vendo os vultos.

Conforme o tempo passava eu via uma janela aberta, uma porta aberta e os os vultos foram ficando mais frequentes e nítidos. Não entendia bem o porquê de eles não terem ainda entrado. Talvez porque se eles nos assuntavam, eles também ficaavam assustados conosco. Se eles entrassem, haveria uma definição no andamento da história. Enquanto eles estavam lá fora, a ameaça deixava as sensações mais invisíveis e o futuro, potencialmente, trágico. A dúvida pode aumentar o tamanho do que ainda não é um fato. Me lembra muito o conhecido conto do Cortázar, “A casa tomada”, mas durante o sonho não fiz a associação. Na faculdade, eu fiz um trabalho sobre ele e o comparei a um do Poe, “A queda da casa de Usher”. Eu suspeitava que os casais de irmãos, que viviam nas casas dos contos, tinham uma tensão insestuosa por traz de suas ações. No meu sonho, a tensão era bem diferente, a de ter uma unidade tão evidente invadida por estranhos.

Lembro bem das gavetas, da renda da cortina, das pequenas marcas no chão. Conheço melhor esta casa onde passei a infância do que o apartamento onde eu moro hoje.

A cena acabou quando os invasores começaram a entrar, por uma janela ao lado de um armário onde minha mãe tinha se escondido e onde eu ia entrar. Meus irmãos e meu pai esperavam a vez, em fila. Sem muita pressa, sem desespero, em ordem tranquila apesar da vontade de se esconder.

Em sonhos, eu misturo lugares e pessoas, subverto o tempo e a causalidade. É curioso que eu carregue sempre essas cinco pessoas e a casa para meus sonhos, sem adicionar ninguém, sem retirar ninguém. Na infância, acordado, eu esqueci dos braços, mas não das pessoas. Não importam os braços, não importam a imagens. Na cena anterior, por exemplo, meu pai não apareceu, mas estava na matéria sonhada.

Levar tiros e ter a casa roubada são sonhos frequentes. Uma vez, de fato, na infância, acordei de manhã com um cara armado na porta do meu quarto. Nesse dia, a casa foi assaltada, mas não acho que este fato tenha motivado os sonhos. Acho que já sonhava com os roubos antes. Uma outra coisa que costuma acontecer é que o sonho acaba sem o confronto entre os assaltantes e os da casa. Ou a gente foge, ou a gente se esconde, ou eu paro de sonhar. Umas poucas vezes, eles entram com a gente lá dentro.

Falo depois de morrer, dos cachorros e dos telhados.

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2 Respostas to “sonhos #5”

  1. Joana said

    Segundo o Dicionário de Sonhos – Zolar (consta na capa: “20000 sonhos interpretados pelo astrólogo mais famoso dos EUA”)levar tiros em sonho quer dizer que você terá a oportunidade de melhorar-se (mas na mesma página diz que outra pessoa atirando em você quer dizer que “cairá em desgraça”). Sobre pescoço, diz que sonhar com seu próprio pescoço quer dizer que você está cercado por amigos falsos, já “machucar o pescoço” quer dizer que terá boas questões amorosas.
    Sobre a prte da casa, diz que ficar no lar quer dizer que terá uma vida fácil, já visitas no lar quer dizer que terá tristeza. No verbete “invasão”, diz que outras pessoas invadindo sua propriedade quer dizer que terá futuro desagradável ou, sendo estas “outras pessoas” inimigos, é sinal de que danos inevitáveis ocorrerão. O Zolar também esclarece, no verbete família, que sonhar com sua própria família é sinal de cautela em seus empreendimentos”…
    À luz de todas estas informações, arrisco toscamente interpretar seu sonho: Você, ou um de seus irmãos (acho que é você) estão em um relacionamento e você tem receio que isto ponha em risco a “vida fácil”, o conforto/segurança em seu núcleo familiar…

    (acabei adorando brincar de interpretar, estes dicionários de sonhos têm uns verbetes hilários)

    • tonymonti said

      Haha que legal, Joana, dei boas risadas enquanto lia sua interpretação. Vida fácil, sem dúvida, sou eu. Falta o relacionamento só.
      =)

      Essas tentativas de dicionarizar os sonhos são curiosas. Partem do pressuposto de que a simbologia se organiza do mesmo jeito para todo mundo. Talvez seja assim para alguns símbolos mais genéricos, mas eu acredito mais que a simbologia é menos objetiva. A interpretação, acho, teria que passar por um esforço específico do sonhador.

      (brincar de interpretar é bem divertido)

      beijo,

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