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Violência gratuita

Posted by Tony Monti em 30.04.2010

Ontem encontrei uma conhecida. Contei do meu doutorado sobre o Rubem Fonseca. Ela disse que dele tinha lido só umas crônicas no colegial. Não, não, esse é o Rubem Braga. Normal. Quando eu estudava a Clarice Lispector, de vez em quando alguém me perguntava como andava a Cecília (Meirelles). O Fonseca é aquele dos contos super violentos (e de romances meio policiais, dos quais não gosto de quase nenhum).

Nas últimas semanas, um pensamento meu seguiu um caminho específico. Para mim, era mais ou menos evidente que quem lê e relê ficção muito violenta faz isso porque gosta. Não precisa apenas gostar, mas um dos aspectos da experiência da leitura dessas coisas é prazeroso. Pode-se expandir a idéia para o cinema também. Muita gente tem prazer em assistir Laranja Mecânica, Dogville e os filmes do Michael Haneke.

Com isso não excluo que na experiência da leitura possa haver também dor, tristeza, entre outros incômodos variados possíveis. A fruição é complexa, afetos contraditórios interagem e são parte dos significados uns dos outros (andei pensando também sobre o porquê de eu ter resistência, de raramente gostar de comédias e coisas engraçadinhas, apesar de apreciar um boa noitada de risos com amigos. Criei a hipótese e ainda não a desenvolvi: algo que se apresenta como comédia anuncia desde o início o tipo de emoção que você tem que ter, simplifica os afetos. No limite, há as risadas ao fundo para avisar a hora de rir. No limite oposto, os filmes mais desagradáveis do David Lynch nos quais a gente ouve as risadas ao fundo e não encontra em lugar algum aquilo de que rir).

Em certa medida, a minha questão é entender um pouco melhor o modo como as pessoas lêem um conto violento, o que faz com que elas queiram ler outro conto, que tipo de lembrança fica após a leitura, se o incômodo ou alguma satisfação. Um complicador é que não existe um tipo de leitor só. Na universidade, as pessoas estão muito acostumadas com arte muito estranha e, assim, é difícil que se sintam, por exemplo, muito agredidas por um texto. Por outro lado, perguntei a duas ou três pessoas se elas se sentem agredidas pelos contos do Fonseca e obtive respostas como “não, eu sinto prazer com a ação violenta” e “não gosto de lembrar, dói”.

Há poucas semanas estive em uma defesa de mestrado sobre o Rubem Fonseca e um professor, na banca, disse que o Rubem Fonseca agride o leitor. Uma série de críticos diz isso. Não sei se é onde essa idéia começou, mas por certo o fato de o Antonio Candido ter um dia também dito isso ajuda a divulgar a idéia. Entendo e concordo que ser agredido pelo texto é parte da experiência ao ler alguma coisa muito violenta, mas isso não explica por que as pessoas continuam lendo e por que, ao se lembrarem dos contos, têm sentimentos positivos e, por exemplo, associam um serial killer a algum prazer erótico ou a alguma sensação de liberdade. Se sentir-se agredido resumisse os afetos envolvidos na questão, não acredito que o Rubem Fonseca fosse um escritor tão lido. Ou então deveríamos desconfiar que nossa sociedade é um tanto masoquista.

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8 Respostas to “Violência gratuita”

  1. […] de um herói assim, de um ideal de nação assim, me incomoda mais que os livros do Fonseca (ver explicação e pesquisa em dois posts anteriores). É bem estranho ver pessoas comemorando e aplaudindo a morte […]

  2. […] aberta a pesquisa sobre fícção violenta e Rubem Fonseca. – > explicação – > […]

  3. Adriano said

    Tony.
    Refleti um pouquinho, e pensando bem. It´s all about sex.
    Violência, escatologia e serial killers são formas de sublimar compulsões sexuais. Normal. Freud já identificou isso aí. É por isso que o seriado Dexter faz sucesso.

  4. Adriano said

    Tony.
    Eu já li muitos textos (contos e romances) do Rubem Fonseca. A Li leu muito mais.
    Eu acho que a gente gosta dos livros dele pela mesma razão que vemos filmes de terror. É gostoso sentir a ansiedade da leitura. Eu gostava do Alan Poe por esta razão, quando eu tinha uns doze anos.
    Em minha leitura notei que ele se ampara em três vértices. Violência, escatologia e sexo.Todos amarrados por uma trama, geralmente policial. Tem um livro só de contos com um nome engraçado em que ele forçou a barra. Nos outros acho que é equilibrado o uso dessas “pimentas”.
    Boa sorte no doutorado, mas não vai na onda dessa moçada em meter o pau. Eu gosto mais do Saramago, mas ele também esclerosou, normal, tá velho … é igual o ronaldo. Era pra parar , mas o cara não para, e aí sai alguma coisa não tão boa, mas uma análise do cara não pode se focar só na decadência.

  5. tonymonti said

    Angélica e Lilia,
    agradeço,

    Lilia, aquele filme era difícil, hein?!,
    lembro de você pulando na rua animada depois de três horas de sala fria e filme, e eu louco para tomar uma cachaça para esfriar os ânimos e baixar a ansiedade.

  6. […] em 03.05.2010 Continua aberta a pesquisa sobre fícção violenta e Rubem Fonseca. – > explicação – > […]

  7. Lilia said

    Tony, o Rubem Fonsca pra mim é forçado, digo, ele força a barra e o slogan de que o texto vai me agredir não supende a descrença. E oh, David Lynch, ele mesmo, parece meio bobo, mas o filme dele que nós vimos há uns anos atrás também criticava essa ‘simplificação dos afetos’. Quer rir em um filme? Aí vai uma dica: um filme super quadradinho, “Foreig affair”, Billy Wilder. E claro, pra rir depende do humor do “ridor”! Muita saudade de rir coom vc!!!

  8. Angélica said

    Eu tenho certeza que as pessoas correm atrás de cenas ou palavras violentas por prazer. Talvez pelo simples prazer de pensar sobre isso, no lugar de fazer. Muitas vezes procuro filmes bobos ou de comédia para assistir pois estou com pura preguiça de pensar. Acho que o grande atrativo desses filmes e contos que chocam é o envolvimento psicológico/emocional que temos, mesmo sem vivenciar a tal coisa.

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