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mastroianni #1 (em edição)

Posted by Tony Monti em 22.06.2009

giornata

Marcello Mastroianni é dos meus atores favoritos. Impressiona-me não só a atuação mas o fato de ter se envolvido em tantos filmes interessantes. Admiro muitos homens por particularidades diferentes. Digo às vezes que admiro o Mastroianni pelo modo como ele é homem. Tenho me proposto tarefas, como modo de vencer uma inércia que me faz pensar e dormir, mas nunca agir. Uma das tarefas recentes é assistir aos filmes do Mastroianni a que eu tiver acesso.

 

Joyce
Escrevo, leio e estudo literatura há já alguns anos. Convivo com gente que lê bastante. Um dos livros mais comentados por todo mundo é o Ulisses. Quando estudei Joyce na faculdade, o título foi citado dezenas de vezes, assim como quando se estuda Modernismo ou quando se estuda romances. O livro parece ser um marco em todas as suas facetas. Mas quando fomos estudar um texto, lemos Dublinenses e O retrato do artista quando jovem, o Joyce acessível.

Conheço de fato pouca gente que leu o Ulisses. Um professor da faculdade disse que, quando comprou o livro, anotou na primeira página duas datas: a da compra e a de vinte anos depois. O intervalo era o tempo que se dava para a leitura.

Um amigo que escreveu um texto longo sobre escritores cegos (Histórias de literatura e cegueira, Julián Fuks) não se permitiu deixar de lado as mil páginas do Ulisses. Disse que foi das leituras mais difíceis que já fez, mas que o percurso todo vale o esforço. Disse também que um dos modos de fazer o texto correr mais fácil foi ter como tarefa específica, enquanto lia, procurar referências a cegueira.

Quanto ao Mastroianni, não para facilitar, mas para valorizar a tarefa de assistir aos filmes, resolvi prestar atenção nele para ajudar a compor um personagem de um texto que estou escrevendo. O personagem assistiu a todos os filmes do Mastroianni e fez o que eu pretendo fazer: observá-lo atuando.

 

Scola
Coloquei hoje o primeiro título na lista dos assistidos: Um dia especial (Una giornata particolare, Ettore Scola, 1977). A pergunta que tentei responder é o motivo para Gabriele (Mastroianni) ser tão sedutor a Antonietta (Sophia Loren). Tomei nota de detalhes que não compõem um todo. No final das contas, a pergunta que me faço é o motivo de ele ser sedutor também para mim. Suponho então que o que anotei seja uma mistura dos meus motivos e dos motivos de Antonietta. Ainda, de modo nada rigoroso, sobrepus as imagens do ator que está em vários filmes e do personagem que é específico de apenas um deles. Assim, estou anotando tanto traços do personagem quanto do ator, sem me preocupar, a princípio, em diferenciá-los.

Em Um dia especial, Mastroianni é um borrão em uma rotina organizada. Politicamente, é considerado traidor do regime oficial. Não se enquadra também, segundo a narrativa, no padrão normal do gênero masculino. Mas não são estes traços estruturadores do filme que me chamaram a atenção hoje. Fiquei mais comovido com os detalhes da construção de uma personalidade desviante.

Gabriele é um homem mais ou menos solitário, desde sempre. Está pouco preocupado com as grandes narrativas da história, a visita de Hitler à Itália por exemplo. Parece às vezes distraído. Ao mesmo tempo que dança com leveza, é desastrado. Escapa sempre da perfeição limpa. Sua personalidade, expressa beleza de um modo melancólico, com faltas e sobras em vez de limites definidos. Lembra-se da infância, do modo como moía o café com o avô, preocupa-se com as pessoas uma a uma e não reunidas em multidões, exércitos ou partidos.

Assim, Gabriele parece um pouco mais humano, aos meus olhos, do que a turba que invadiu as ruas para assistir à consagração estranhamente extática da união política, no momento retratado, de Itália e Alemanha.

Por fim, e por outro lado, me pareceu que parte da sedução também vem de o personagem ser às vezes irritante e invasivo. Ele não é apenas uma pessoa de quem se gosta, é uma confusão atraente de elementos. Eu não gostaria que um desconhecido entrasse na minha casa e andasse de patinete pelos cômodos. Esta configuração de liberdade, encarnada no personagem, inclui necessariamente a quebra dolorosa dos limites de quem se aproxima. O objeto sedutor fascina e machuca.

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2 Respostas to “mastroianni #1 (em edição)”

  1. Erica said

    Tony,

    o Mastroiani é o meu preferido, e se resolveu esta empreita, pois então te recomendo dois da sua maturidade, imperdiveis, Estamos todos bem do Tornatore e Paginas da Revolução, do Scola tbm, a partir da obra do Tabucchi, este melhor ainda, numa atuação emocionante.

    um abraço

  2. Ivan said

    Tony, pra incentivar você a não desistir, vou comentar um pouco sobre o Ulisses.

    Depois que foi lançada a segunda tradução brasileira, houve uma certa polêmica sobre qual era a melhor tradução. Eu diria que com o caprichado modo com que essa segunda tradução foi publicada, com introduções e anotações, os leitores brasileiros na verdade agora podem ler Ulisses não uma, mas duas vezes, cotejando a coloquial reversão de Dona Bernardina com a rebuscada abdução perpetrada pelo Senhorzinho Houaiss –

    e logo logo, ainda mais que isso: em 2012 deve ser publicada a translação operacionalizada pelo meu amigo Dr. Caetano Galindo, por ocasião de seu doutoramento na veneranda USP.

    Assim, a exemplo do que escreveu Jorge Luis Borges sobre as versões homéricas, os brasileiros que não tem a desvantagem de saber inglês o suficiente pra ler Joyce no original terão ao seu dispor três Ulisses em português para começo de resto da eternidade (quatro, se contarmos com a translusitanização que um João fez lá em Portugal…)…

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