tony monti eXato acidente

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exato clipping, de novo

Posted by Tony Monti em 13.02.2009

O texto a seguir, da Fabiana Jardim, foi publicado no blog Margens Sociológicas.

(espero que logo minha preguiça passe
e que eu tenha, com maior freqüência, textos meus para publicar,
além das citações,
dos textos sobre o eXato acidente
e dos links para as colunas no Terra Magazine)

“O menino, o acidente
Para Ana Lúcia

Meu orientador, pelo breve período em que fui aluna do Departamento de Teoria Literária, me aconselhava a anotar sempre as primeiras impressões que um texto me provocava – sem pensar muito, imediatamente após terminar de ler. Segundo ele, as primeiras impressões que o texto causavam eram a melhor porta de entrada para a análise, apontando as pistas a serem seguidas. Acho que ele tem razão (lembrem-se que estamos falando de textos literários).

Quando acabei de ler eXato acidente, o terceiro e mais recente livro de contos de Tony Monti, fiquei um pouco sem palavras, anotando uma espécie de incômodo, a lembrança do conto “O Bufálo” (Clarice Lispector) e a sensação de que – ao contrário do que o próprio autor propunha – o livro não chegava a representar uma mudança radical em relação ao anterior (e lindo) O menino da rosa.

Então, recentemente, me peguei pensando sobre o que me levou a deixar a Sociologia e ir para a Teoria Literária, e minha decisão tinha fundamentalmente a ver com o método de análise do texto literário. Eu me sinto incapaz de construir uma análise que não esteja pautada pelas sugestões do próprio texto. É claro que não acho que o contexto social-econômico-cultural-etc. não seja relevante para a tessitura da análise – sou socióloga, afinal. Mas me incomodava que o estilo da análise que me interessava fazer sempre recebesse o mesmo comentário: isso não é sociologia.

Desde a primeira vez que li os contos do Tony – O Mentiroso, ganhador do Prêmio Nascente da USP em 2002 – senti que havia ali algo diferente em relação aos autores contemporâneos, em especial os mais jovens (nota: isso é uma generalização, uma impressão geral e, por isso mesmo, não é a verdade inteira, não é nem sequer uma meia verdade). Os livros dos autores jovens que eu lera até então me pareciam marcados pela agressividade e pela violência – não pelos termos utilizados (ou não apenas), mas pela relação com a linguagem: eles usavam as palavras como armas de destruição em massa. Ou, para usar um termo que está super na moda há algum tempo, eles usavam as palavras para “desconstruir”. Oras, como diz uma amiga minha, quem “desconstrói” é empresa de demolição! Esse tipo de literatura realmente não me toca: ainda que eu possa partilhar das inquietações que possibilitam sua emergência, não me agrada a solução formal encontrada por elas. E é justamente na solução formal que os contos do Tony são primorosos.

Foi me dando conta disso que consegui (acho) compreender melhor as impressões que a leitura de eXato acidente me provocou.

Os contos do livro são permeados – algumas vezes inteiramente mergulhados – em situações absurdas. Às vezes, o absurdo está no ponto de partida; outras, ele simplesmente irrompe num cotidiano que tinha tudo para ser normal. Algumas resenhas lembraram as relações com Cortázar, por exemplo. Mas como estou seguindo a pista das minhas primeiras impressões, vou aqui argumentar que o absurdo aparece porque ele adota olhos de menino (daí minha sensação de uma mudança menos incisiva em relação ao livro anterior).

eXato acidente é uma espécie de busca de compreensão da violência – daí a referência ao conto “O Bufálo“, em que a Clarice narra o percurso de uma mulher que busca aprender o ódio. Ela vai ao zoológico, esperando aprender com os bichos a odiar – procurando na violência do ódio uma resposta à violência de ter sido abandonada por um homem. São violências que o próprio Tony já ensaiara pensar – em “Pão e Circo”, por exemplo, d’O Mentiroso – mas que agora, narradas por um autor mais maduro, ganham acabamento formal original, transfiguram-se, viram ficção. E, na medida em que se descolam de um olhar mais horizontal e descritivo, ganham em eloquência.

O absurdo pode ser revelador da ordem, e – mais frequentemente – da desordem. É possível que narrativas com elementos de absurdo, permaneçam no reino do absurdo, o que de certa forma é mais confortável para o leitor. Os contos do Tony, porém, não nos dão essa facilidade: ele mistura real e absurdo de uma maneira que um necessariamente confronta o outro.

A epígrafe do livro é uma das minhas citações prediletas do Tony – “Vem comigo, te explico no caminho”. É um convite e uma promessa, tão singela e tentadora que é difícil não estender a mão e andar com ele. O que a gente não sabe é que o caminho que o Tony escolheu é um labirinto, e que no meio tem uns espelhos de reflexos incômodos, que mudam nossa percepção sobre nós mesmos.

O livro fala de violência, embora apenas um um conto haja uma situação de violência propriamente dita. O modo de escrever não é agressivo, ao contrário, é límpido e claro (como nos outros livros, aliás). Mas é um livro profundamente incômodo: literatura das melhores.

Na dedicatória que o Tony me escreveu – comprei o livro direto com ele e ele me enviou pela correio – ele fala em “arsenal de ficções e vida”. Realmente, não me seduzem os livros que parecem armas de destruição em massa. Sou muito mais as soluções encontradas pelo Tony, soluções propriamente literárias, capazes de suscitar emoções e pensamentos que, ao invés de ter que destruir tudo pelo caminho, são “armas” precisas para que a gente faça esse exercício cotidiano de sobreviver e viver.

E o que isso tem a ver com um método sociológico de análise do texto? Parto do princípio de que, além do conteúdo expresso, a solução formal encontrada pode ser uma fonte de conhecimento sociológico. Nesse sentido, é tão legítimo analisar um livro de literatura engajada, sobre temas sociais por exemplo, quanto analisar um livro que trata de outros temas. Para fazer uma sociologia da literatura, a forma importa, a solução formal importa – às vezes bem mais do que o contexto – e é capaz de lançar luzes sobre aspectos da sociedade que as categorias sociológicas não estão acostumadas a olhar.

O problema portanto é ampliar os instrumentos de análise para que se possa começar a olhar em direções para as quais normalmente não olharíamos.”

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