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O vermelho das carpas frias

Publicado por tonymonti em 19.12.2011

“Duas estradas chegam a Schroeder, no centro de Santa Catarina. Nesta época do ano, em ambas a paisagem é a mesma: quadras enormes, imersas em água, encravadas em um descampado às vezes interrompido por pequenas plantações. Lagos quadrados em um terreno vasto. Poderiam ser uma titânica criação de carpas que esconderia, sob a superfície, movimentos e tons de vermelho na paisagem parada, azul, marrom, verde e um pouco cinza. Mas não, o que as lâminas d’água quase imóveis encobrem são pequenos caules de arroz que vão crescer no terreno alagado. Bem perto da cidade, no descampado começam a aparecer pontos escuros sobre a terra e o mato, animais inertes, não grandes como bois nem pequenos como galinhas. Não é preciso chegar muito perto para ver que são porcos, parados ou arrastando-se lentos. Além da lentidão e do precoce envelhecimento dos bichos, nota-se que todos eles têm uma ou duas pernas decepadas acima da altura do joelho.”

Este é um trecho do meu conto “O vermelho das carpas frias”.

O texto integral acaba de ser publicado e pode ser lido na Revista Pesquisa Fapesp: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=71825&bd=2&pg=1&lg=

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Não gosto de Natal

Publicado por tonymonti em 17.12.2011

Não gosto de Natal. Tudo meio triste, tudo muito parado. Não gosto dessas grandes paradas, tudo pára, a padaria fecha. Algumas pessoas se fecham também. Não gosto de feriado, nem de fim de semana, nem dessas horas em que todo mundo pára junto, à força. Se parassem juntos mesmo, mas param juntos separados. Seria religioso pararmos juntos. Sou muito religioso. Cada um compra suas coisinhas numa loja. Lojas diferentes, presentes diferentes, sentimentos diferentes. Eu não gosto.

Gosto só porque alguns amigos gostam. Eu queria poder ir à Avenida Paulista, andar na calçada, tomar uma cerveja, encontrar os amigos e não ver as luzinhas piscando. Natal é triste porque é a evidência da solidão para os que são sós. Sem festa, sem árvores, sem presentes, sem musiquinhas, sem presépio. A não ser que você queira.

Feliz Natal, ainda assim, se você quer um. Seja feliz. Se você fica feliz em ouvir Feliz Natal: Feliz Natal. Porque se você quer, não tenho algo definitivamente contra os desejos de boas festas. Feliz Natal, e que é que isso vai mudar? E se você não quiser meus votos, fico quieto e desejo as felicidades só, e te deixo saber que também eu não gosto de Natal. Não gostaremos, juntos, de Natal.

E tem mais, meus votos de felicidades, falsos assim, de que é que valem? Se eu desejar, você vai ficar feliz numa mágica? Eu desejo aqui, você fica feliz aí. É assim que quero, então, na base da mágica. Não acredito em Natal mas acredito em mágica. E, mesmo sem mágica, porque gosto de você, gostaria que você soubesse que, se houvesse mágica, desejaria a você e produziria num truque a sua felicidade, neste Natal em que não acredito. Se saber disso vale alguma coisa, Feliz Natal. Não pelo Natal. Pelo feliz e por você.

[este texto é de 2004 - não é o texto que eu escreveria hoje, mas ainda não me é estranho o sentimento geral, conitnuo mais ou menos o mesmo]

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Esboço de Ana

Publicado por tonymonti em 06.12.2011

Além de “esc”, há um segundo conto meu em Geração Zero Zero:fricções em rede. Chama-se “Esboço de Ana”. Abaixo, um trecho dele.

“Estava já preocupado com que não sobrasse vidro no chão para o dia seguinte porque, ainda que me cortar um pouco com a raiva pulsando nos músculos pudesse ser em parte agradável, coerente com a vontade de destruir, seria ruim cortar o pé depois, quando a tristeza estivesse mais tranquila. Lembrei de ter algumas vezes gritado em suposto desespero anteparado por um travesseiro para que os vizinhos não me escutassem. Lembrei de ter mais de uma vez aproximado a mão das nádegas de uma mulher desconhecida, sem tocá-las, sem que ela me visse. Nem falar com ela com a lentidão e o sofrimento próprios de uma tentativa de acordo, nem arriscar o prazer tonitruante de segurar a bunda com força, e depois aceitar o revide ou perder-me em fuga na multidão.”

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Baixas (reflexão numérica otimista sobre as possibilidades de se ter um apartamento próprio)

Publicado por tonymonti em 06.12.2011

Se uma pessoa economizar 1000 reais por mês durante 300 meses, poderá comprar um [micro/pequeno] apartamento de [1/2] dormitório(s) e [40/55/65]m2 [nas imediações das ruas Bela Cintra e Frei Caneca/no Butantã/em Barueri] (não incluo os apartamentos muito novos e modernos nesta reflexão, pois estes custam 400 mil reais e não 300 mil). É possível cumprir os 300 meses entre o fim da faculdade e os 50 anos de idade. Caso surja algum(a) [imprevisto/doença/filho/desemprego/psicanálise] durante este período de quase 30 anos, talvez seja necessário economizar 1500, 2000 reais mensais por certo período.

O método mais provável de cumprir a tarefa, no entanto, chama-se herança. Pode ser um fluxo sutil de influências e contatos, que facilita a inclusão em empregos mais rentáveis [que o de professor de escola pública]. Pode ser um fluxo de oportunidades construído a partir do estudo em boas escolas (que custam mais que mil reais mensais). Pode ser a simples doação do imóvel ou do dinheiro para comprá-lo, entre pessoas que nem sempre se amam, ou que incluem na definição de amor esta doação. Em geral é um método híbrido. Um vínculo afetivo forte pode ser construído, assim, ao preço de 300 mil reais, pouco mais, pouco menos.

Algumas pessoas, por não possuírem este dinheiro, terão sua família desestruturada. “A burguesia extirpou da família seu véu sentimental e transformou a relação familiar em simples relação monetária” (Marx, desatualizado em mais de 150 anos, ou 5 períodos de 30 anos) Não estou preocupado agora com o véu retirado, que suponho ser de grande complexidade.

Há também apartamentos mais caros e famílias mais unidas.

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O menino aprende sobre futebol para ser menino

Publicado por tonymonti em 04.12.2011

Tenho dito, o futebol reúne em torno de si algumas das parcelas mais violentas, infantis e machistas do mundo. Se eu gosto de futebol?, não é simples assim. O menino aprende sobre futebol para ser menino. É parte da construção da identidade. Tem menos o formato dos gostares que o dos vícios. Quando saio de São Paulo, costumo gostar das cidades por onde passo. Chego a pensar que moraria tranquilo em algumas. Quando volto, sei que não vou sair daqui. Não é gostar, é estar preso. Do Sócrates eu gostava. Não tinha nada de futebol. Talvez o melhor do futebol não tenha muito de futebol mesmo.

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Publicado por tonymonti em 30.11.2011

Procuro bons textos recentes (contos, poemas e romances escritos nos últimos 20 anos) que se refiram, mesmo que discretamente, ao regime militar ou à transição para o chamado regime democrático (até meados dos anos 90). Alguém pode me indicar algo?

Percebo no trabalho de alguns amigos que escrevem e estudam literatura que os limites das duas atividades se invadem o tempo todo, que os autores estudados estão bastante presentes em seus poemas, contos e romances, que os temas das dissertações e das teses são quase sempre próximos dos temas da ficção e da poesia feitas por eles.

Comigo acontece o mesmo. No mestrado, estudei Clarice Lispector. Houve momentos, quando eu escrevia meus textos, que não tinha certeza se as frases eram minhas ou dela. No doutorado, houve um processo um pouco diferente. Embora eu tenha escrito contos que lembram o Rubem Fonseca, o processo todo redundou mais em um afastamento do que em uma mimese. Da violência explosiva dele, eu derivei uma vontade de estender os momentos críticos, de narrar na extensão em vez de concentrar as tensões em um tiro ou um grito. Mesmo nos textos dele, tirei os olhos dos choques e passei a entender melhor a periferia dos cenários, aquele quase-nada que acontecia pouco antes ou pouco depois de as pessoas se matarem.

Tenho um romance em andamento e nenhum projeto na universidade. Me acostumei com a dinâmica de estudar e escrever, com as duas coisas brigando e se reforçando. Procuro agora bons textos recentes (contos, poemas e romances escritos nos últimos 20 anos) que se refiram, mesmo que discretamente, ao regime militar ou à transição para o chamado regime democrático (até meados dos anos 90). Alguém pode me indicar algo? Dou preferência a autores nascidos durante o regime.

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As vísceras de Julián Fuks

Publicado por tonymonti em 28.11.2011

Na próxima quinta-feira, o escritor Julián Fuks lança seu terceiro livro e primeiro romance. Em 2009, quando eu já tinha lido os primeiros capítulos do livro, fiz uma pequena entrevista com ele para o site Terra Magazine. Reproduzo a seguir a nossa breve conversa.

_______________
Lançamento de Procura do romance, de Julián Fuks
Editora Record
Quinta-feira, 1 de dezembro, 19h

Local:
Feira Moderna
Rua Fradique Coutinho, 1246
Vila Madalena
____________________________

Julián Fuks é autor de Histórias de literatura e cegueira (2007) e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu (2004). O mais antigo ganhou o Prêmio Nascente da USP, em 2003, e o mais recente foi finalista dos Prêmios Jabuti e Portugal Telecom, em 2008.

Histórias de literatura e cegueira é um livro difícil de classificar. É composto por três segmentos razoavelmente independentes que traçam perfis de escritores (Borges, João Cabral e Joyce), a partir de suas literaturas, com o foco em uma característica biográfica comum a eles: a cegueira. Há quem tenha classificado o livro como “ensaios”, “contos” ou “romance”. Fuks alterna, em seu texto, ficção, dados biográficos e trechos da obra de cada escritor, sem se preocupar em explicitar suas fontes conforme o texto corre.

As duas perguntas a seguir tratam ao mesmo tempo deste livro e de todos os outros textos, publicados em livro ou não, que já li do escritor.

1 – Julián, dois aspectos do seu texto sempre me chamam a atenção. Um deles é a variada escolha vocabular e o outro é a sintaxe, bastante distinta daquela da língua cotidiana, com frases longas, inversões e inúmeros adjetivos. Para mim, o efeito destes recursos é às vezes a sensação de percorrer um mundo arcaico, com requintes que me soam como a construção de um palácio, com seus tapetes, louças, móveis, obras de arte, cortinas, um edifício que é certamente símbolo, na minha imaginação, de um certo passado histórico distante. Por outro lado, o estranho da linguagem funciona também como ritual, as frases longas e as inversões sintáticas configuram um ritmo um tanto encantatório que faz com que a leitura flua e me guie em seus labirintos. Me pergunto há algum tempo que intenção pode ter o autor destes textos ao escolher esta escrita, de que maneira esta escolha significa a impressão, no texto, de seu ponto de vista sobre a literatura e sobre o mundo.

Triste seria se a marca do nosso tempo fosse o empobrecimento da linguagem. Se só pudéssemos escrever as frases mais banais com as palavras mais banais e todas as outras estivessem interditadas, relegadas ao esquecimento, encarceradas nos dicionários ou em livros empoeirados. Não, para mim o escritor tem de se valer de todos os seus recursos, tem de empenhar todas as suas forças no engenho de sua expressividade. Só assim terá alguma chance de arcar, aí sim, com o empecilho maior de seu tempo: a suspensão das certezas e a noção de que talvez não se possa expressar mais nada, que talvez já não tenha sentido inventar histórias e contá-las em mais algumas páginas desgastadas. O encanto que se almeja provocar, nesse caso, ou o que eu almejo provocar, é o encanto do paradoxo: a linguagem que flui, feita de ritmo, riqueza e sonoridade, e que tenta assimilar o real em sua complexidade, ciente de que o real há de ser sempre inassimilável.

2 – Muito da literatura que é escrita hoje nas grandes cidades brasileiras é bastante agressiva e explosiva, revelando, na minha opinião, as grandes tensões existentes no tecido social destes locais. A sua literatura não é assim. Seu texto é cerebral em vários níveis, muito menos explosivo quando contraposto tanto à cidade quanto ao texto de vários de seus colegas mais próximos. Talvez pelo hábito de encontrá-las sempre à vista em certas literaturas, eu procuro as vísceras nos seus textos e só encontro lógica. Esta faceta cerebrina do seu texto são suas vísceras?

Ha, é uma idéia muito boa, fico agradecido. Se por vísceras se entende aquilo que nos faz sentar em frente à tela e pousar os dedos sobre as teclas, não tenho como discordar. O que me impele a escrever é a razão, é a suspeita de poder construir um objeto à parte com sua lógica própria, e não a emoção decorrente de uma experiência qualquer. Vivo desde sempre em uma cidade grande e de fato vivenciei meus momentos eventuais de violência, mas por algum motivo eles não me incitaram a escrever nada. Talvez por serem exceções, fatos desconexos que pouco se inserem no meu cotidiano. Meu imaginário se faz mais no interstício entre os acontecimentos corriqueiros e os debates conceituais, as procuras intelectuais, as idéias, os livros.

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Espera um momento, arrombei sua porta, mas é para conversar.

Publicado por tonymonti em 13.11.2011

1. Escrevi meu post anterior sobre os recentes acontecimentos na usp para os poucos leitores frequentes do blog, mas o texto teve umas cem vezes mais acessos do que o normal. Isso pede uma pequena explicação: (1) não acho que ocupar a reitoria seja o melhor método para reivindicar qualquer coisa agora. Ainda assim, apesar de a ocupação ter sido proposta vencida em assembleia, (2) fui e sou solidário às pessoas que ocuparam a reitoria porque considero, de maneira geral, suas causas justas frente à postura autoritária do reitor e do governador na administração da universidade.

Mais do que isso, é preciso mesmo fazer algo, mesmo que seja sem precisão, mesmo sem prever as consequências. Às vezes são as consequências imprevistas que justificam os atos.

2. É bastante ingênuo supor que reivindicar mudanças estruturais em uma comunidade grande como a universidade aconteça sem nenhuma desobediência às regras. Não são as próprias regras que estamos questionando?

3. Do pequeno para o grande, da miopia a alguma tentativa de pensar: (1) não estamos falando de consumo de drogas; (2) a presença da PM na usp é parte de uma questão maior, de (3) um enfrentamento político que quer discutir a estrutura de poder na universidade, o que inclui o governador do estado. (4) Parte dos envolvidos diretamente no problema querem resumir a questão a um slogan ou a uma ideia simples, pois lhes é conveniente que imagens simples paralisem o diálogo. Não se trata de maconheiros, não é apenas a PM. É a dificuldade de decidir os rumos de uma universidade que, em parte, quer receber verbas da iniciativa privada, o que leva a que seu funcionamento seja moldado por uma lógica de mercado e que, por outro lado (para a pesquisa em humanidades, em ciência básica e na formação de professores), não sobrevive na toada da livre iniciativa (privada) pois não tem um produto para colocar na prateleira. É por isso que as greves e os gritos vêm sempre dos mesmos departamentos. Queremos fechar os cursos de geografia, letras e filosofia ou vamos deixar os prédios em pé, gastando o suficiente apenas para que esse pessoal reclame pouco?

4. Não há como pensar as questões da universidade sem questionar o funcionamento do Estado. Me assusta que a defesa aparentemente unânime de que é preciso investir em educação seja esquecida de um momento para outro e substituída por um moralismo cegueta. A tendência a privatizar as decisões na universidade, a querer que todos trabalhem em silêncio (em favor de um lucro silencioso), evita o investimento na formação de professores e na pesquisa em humanidades. A parte da universidade favorecida pelas parcerias com empresas privadas sobrevive e considera que o campus vai bem. Viram as costas para os prédios vizinhos que se debatem sem verba. Não queremos formar professores então, é isso? Há uma oposição inevitável que não está sendo feita: como a livre iniciativa (do ideário neoliberal), no campus ou fora dele, vai formar professores? É mentira então que queremos investir em educação?

5. Há um conhecido conto do Rubem Fonseca (“O Cobrador”), escrito durante o regime militar, no qual um homem comete assassinatos em série em nome de uma liberdade idealizada. Ele esbarra o tempo todo na ideia de contestação dos mecanismos que o marginalizam. Contra uma opressão gigante, às vezes é preciso fazer qualquer coisa, sair do lugar. É o bebê que chora. No limite, armar-se e sair dando tiros. “O ato surrealista mais simples consiste em sair à rua com um revólver e atirar a esmo, tanto quanto for possível, contra a multidão.” (André Breton) Não, não estou defendendo pegar em armas, estou cavando um trilho para o pensamento. Podemos conversar ou vamos ficar nos bordões publicitários? Estou tentando pensar sobre liberdades, sobre fazer escolhas a respeito do espaço público. Queremos que as crianças tenham bons professores de português e matemática ou que escolas que deem lucro?

6. Por que é preciso ocupar a reitoria? A quem é direcionada a mensagem? Em um primeiro momento, (1) se nosso interlocutor é o reitor, nós o desagradamos, (2) se nosso interlocutor é o governador (que escolheu o reitor e que toma as decisões mais importantes da universidade), nós o desagradamos, (3) se nosso interlocutor é o aluno da universidade que supõe que um bando de maconheiros que não pegam em livros estão atrapalhando sua tranquilidade confortável, nós os desagradamos, (4) se queremos apoio da opinião pública fora da universidade, porque ela pode moldar o comportamento do governador (que se alimenta de voto), nós a desagradamos. A princípio, a ocupação da reitoria não agregou ninguém à discussão. Talvez, no máximo, tenha tornado o movimento mais coeso. Talvez. Mas há algo mais.

7. É como no conto. Para “o cobrador”, é preciso fazer algum barulho antes de dar direção às reclamações. Mas depois é preciso contar uma história, deixar de ser nos jornais “o louco da Magnum”, como o personagem do conto ficou conhecido. Suponho que seja agora a hora de evitar a simplificação publicitária e mostrar a universidade em maior detalhe.

8. “O louco da Magnum”, “um bando de maconheiros” e a imagem reprisada várias vezes dos alunos quebrando o portão da reitoria são o resumo espetaculoso, ideal para vender os produtos nos intervalos comerciais. Há um dilema do qual é difícil fugir. Os argumentos mais elaborados não conseguem ser escutados se não forem gritados, se não se engrossarem numa imagem explosiva ou numa frase de efeito. Mas aí eles deixam de ser argumentos. As ocupações e as greves são um modo de fazer-se escutar, de abrir o canal de comunicação. A ocupação e a greve não são a mensagem, são o aviso de que alguém quer falar.

9. Espera um momento, arrombei sua porta, mas é para conversar.

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USP – notas sobre uma esquizofrenia conveniente

Publicado por tonymonti em 07.11.2011

Estudei na USP por muito tempo, graduação, mestrado, doutorado. Ainda venho à biblioteca para ler e escrever. Oficialmente, há alguns meses não sou aluno da universidade. Neste instante, escuto daqui as vozes dos alunos em assembleia. A 300 metros daqui, a reitoria está ocupada por alunos. Os fatos se repetem. Gostaria de dar alguns palpites desarticulados.

1. A cidade universitária é um espaço estranho. Ele é em alguns contextos integrado à cidade e em outros isolado dela. Quando uma parcela dos frequentadores do campus quer a PM fora da universidade, eles se alinham com as situações em que a USP se afasta das leis urbanas. Por virar as costas para a cidade, o campus deixou também de ter uma estação de metrô.

À primeira vista, pode parecer que são sempre os mesmos grupos que defendem um dos dois lados da estrutura, incluir-se na cidade ou excluir-se dela. Não acho que seja assim. Para o grupo que usualmente ocupa o poder, a esquizofrenia é conveniente. Pode-se querer integrar os elementos da cidade que reforçam a autoridade do reitor, sem ter que abrir a universidade a um debate público sério.

Fica mais fácil assim acusar o grupo opositor de “machonheiros que escondem o rosto como bandidos” a partir de uma estrtura autoritária e fechada da universidade, ainda que, à primeira vista, a entrada da PM seja uma abertura dos portões. Troca-se uma questão política que envolve o governador e a estrutura de Estado por uma questão moral rebaixada, três pessoas supostamente fumando maconha.

Imagino, sem saber a resposta, se não seria melhor abrir os portões para todo mundo, o tempo todo.

2. A cidade unviersitária é um lugar esquisito também porque parece que muito é feito para isolar. Os prédios são distantes e alguns dos frequentadores do campus acabam não convivendo para além do seu grupo de trabalho ou estudo específico.

O campus da universidade não é mesmo um lugar seguro. Há grandes espaços vazios, escuros, ermos. A segurança desses espaços é complicada. Suponho que iluminação e câmeras de segurança poderiam resolver em parte os problemas.

Àqueles que estão preocupados com o uso de drogas, com delinquência e com a cirminalidade associada, sugiro frequentar a usp e depois dar uma passada na cracolândia. A lei não é uma faca tão afiada assim, ela responde a interesses que não são neutros. Há atos ilícitos em toda a cidade. Abordar alunos que supostamente fumavam maconha me soa como provocação e demonstração de um poder moralista e enviesado, além de, como já foi dito, reduzir uma questão política ampla a um delito (suposto) isolado e com consequências restritas.

3. A universidade não é uma só. Além do enfrentamento político, é evidente que uma parte do campus é mais bem tratada que o outra. Caminhe pelas diferentes unidades, pelas salas de aula e verifique a aparência dos locais. Na FFLCH, há alguns anos, houve uma greve pela contratação de professores porque havia disciplinas com mais que duzentos alunos matriculados (ainda que dar aula para 200 alunos pudesse ser um método pedagógico, não havia espaço físico para receber tantos alunos ao mesmo tempo). Por motivos assim, há greves. Poucos anos antes, também na FFLCH, instalaram ventiladores nas salas de aula. Um deles desabou do teto. Para não machucar ninguém, todos os demais foram desligados. Justo. Na FEA, a poucos metros dali, havia já cadeiras estofadas e ar condicionado, acabamento de primeira no chão e nas paredes, turmas pequenas. Onde você acha que a placa que diz que há internet sem fio corresponde a uma rede wi-fi estável? Onde você acha que os computadores funcionam?

É muito difícil gerir um espaço assim. Não existe uma usp homogênea, nem um aluno, nem um professor, nem um funcionário. Há vários. É óbvio. Mas há um perigo quando se respode a esta fragmentação de pensamento com uma simplificação absurda que diz que de um lado estão os corretos e do outro estão os maconheiros. Inventaram um pacote de características fixas para cada lado. Aderir a uma ideia ou comportamento de um lado seria como comprometer-se com um partido. O debate fica suspenso. A universidade, que deveria ser um espaço de discussão, da palavra, passa a ser um lugar onde o detentor do poder elimina o outro com a força (policial). A ocupação da reitoria pode não parecer para alguns um método razoável, mas o que fazer quando o comportamento dos ocupantes de cargos de direção na universidade têm um governador, uma lei que distribui mal o poder no campus e a polícia a seu lado? Não foi a ocupação da reitoria que suspendeu o diálogo. É bastante óbvio que a polícia no campus cumpre um papel político que ajuda a suspender o debate público.

4. Não vejo solução. Invadir a reitoria faz barulho fora dos muros do Campus. Acho importante. Mas isso não tem comovido a opinião pública, que vota no governador e que poderia fazer pressão em quem tem poder para decidir. Não consigo imaginar uma estratégia, mas suponho que qualquer uma passaria por conseguir explicar para pessoas fora do campus e para os contrários à ocupação(dentro do campus) que a situação tem mais nuances do que uma briga de torcidas. As pessoas que invadiram e ocuparam a reitoria não são ogros truculentos acéfalos e inconsequentes.

A politização, se for possível, é um processo, não é um decreto. Leva tempo.

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Vagões de metrô individuais

Publicado por tonymonti em 25.10.2011

O último dos treze fragmentos de “esc”, o primeiro dos meus contos publicados em Geração Zero Zero.

13. Epílogo

De noite, na rua Augusta, uma moça tirou um notebook da mochila e o atirou ao chão. Em seguida, segurando -o com as duas mãos, deu joelhadas até que a tela se separasse do teclado. Depois de chutar mais algumas vezes, apoiou os dois pedaços em ruínas na guia, fazendo duas rampas entre a rua e a calçada. Saltou e pousou com um pé em cada metade.

Com licença, um rapaz se aproximou com cuidado e arrancou a tecla esc que ainda sobrevivia no teclado.

Ele colecionava teclas esc.

Os vagões do metrô um dia serão individuais.

Vou tatuar uma tecla esc, disse o rapaz, e apontava com o indicador o lugar exato no outro braço.

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Isto é um blog – bicho geográfico (notas de pensamento browniano)

Publicado por tonymonti em 18.10.2011

Tenho feito leituras aletórias, sem percurso ordenado, apenas um acúmulo caótico de informação. Meu pensamento tem ficado um pouco assim também, um pouco browniano. Não está fácil escrever um texto com avanços e recuos, com orientação. Tudo bem.

Também não tenho conseguido ler livros até o fim. Tudo parece chato. Ou mesmo que pareça interessante, prefiro começar outro livro a insistir. Logo me ajeito. Exceção é “O velho e o mar”, que eu não tinha lido e que me rendeu algumas reflexões sobre escrever e viver.

Ontem, na sala de espera de um médico, abri “Diferença e repetição”, do Deleuze, que estava na mochila e me pareceu melhor que as edições antigas da Veja que estavam numa mesinha perto. Retirei do livro uma citação que me deu aquele prazer de ver uma ideia organizada. “Pius Servian distinguia, com razão, duas linguagens: a linguagem das ciências, dominada pelo símbolo da igualdade, no qual cada termo pode ser substituído por outros, e a linguagem lírica, em que cada termo, insubstituível, só pode ser repetido. Pode-se sempre “representar” a repetição como uma semelhança extrema ou uma equivalência perfeita. Mas passar gradativamente de uma coisa a outra não impede que haja diferença de natureza entre as duas”. Simples assim.

O trecho me lembrou da diferença entre enigma e mistério, a que já me referi neste blog. Meu contato com a ideia veio a partir de um texto do professor José Antonio Pasta Jr. publicado na revista Novos Estudos (CEBRAP). Lá ele diz
“Como se sabe, enigmas pedem decifração; mistérios admitem unicamente culto e celebração”. Não se parecem enigma e linguagem das ciências, mistério e linguagem lírica? Pasta Jr. defende que devido à formação do país, que passa pelo paradoxo de um liberalismo escravista, na literatura brasileira há manifestações de uma confusão de sujeito e objeto, de eu e outro, e de mistério e enigma. O homem é igual e diferente, senhor de escravos e indivíduo em um Estado Moderno, compadre e cidadão, o outro e o mesmo.

O fato de isto ser um blog e não uma revista acadêmica me dá a liberdade de não explicar nada. Em vez disso, indico os links para o artigo do Pasta e para uma revista que publicou uma entrevista e um artigo dele até então inédito em português.

“O Romance de rosa” – http://pt.scribd.com/doc/54548192/PASTA-Jose-Antonio-O-romance-de-rosa

Entrevista e artigo de José Antonio Pasta Jr na Revista Sinal de menoshttp://sinaldemenos.org/2011/02/24/sinal-de-menos-4/

O Pasta escreve tão pouco…

Enviado em blog, livros | 3 Comentários »

garatuja (27) – sumários distintos de um mesmo livro

Publicado por tonymonti em 26.09.2011

1. Tédio é uma espera que não pode ser dividida em pedaços menores.
2. Violência é o hábito ao resumo em sua expressão episódica e aguda.
3. Pode haver contradição e tristeza em definições técnicas com menos de 140 caracteres.

Enviado em garatuja, propaganda | 1 Comentário »

As três mais do meu top 5 (versão editada do post anterior)

Publicado por tonymonti em 22.09.2011

1-2. segunda lei da termodinâmica e o princípio da seleção natural: não se engane, eu sou durão.

3. ódio: quem só acredita no amor, agride sem perceber, o tempo todo, e não tem como organizar suas sobras.

4. amor: até segunda ordem, é uma palavra inútil.

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Top 5 assuntos que têm moldado meu pensamento (além dos autores, dos amigos, das pessoas com quem converso, dos filmes e dos cachorros)

Publicado por tonymonti em 22.09.2011

1. segunda lei da termodinâmica: acho que minha dificuldade de comunicação diminuiria se as pessoas compreendessem a segunda lei da termodinâmica. É a lei que diz que, se não fizer nada, pode estragar. É um pouco antibudista, na medida em que ir com o vento muitas vezes não ajuda. Talvez haja uma comunhão possível, um budismo entrópico, mas queria que as pessoas percebessem que quando um touro entra na loja de louças, não tem volta.

2. seleção natural: é curiosa a ideia de os melhores sobreviverem, com o complemento de que uma multidão de piores não sobrevive. Os melhores sobrevivem por acaso, vale dizer, não por um plano, uma intenção.

3. ódio: quem só acredita no amor, agride sem perceber, o tempo todo, e não tem como organizar sua sobras.

4. amor: até segunda ordem, é uma palavra inútil.

5. detalhe: acho que não vão conseguir me convencer com uma verdade grande. Talvez seja mais adequado acrescentar um detalhe ou distorcer um pouco aquilo que eu digo. Seduzir pode ser lento.

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Políticas de cultura no Brasil – privatização de decisões e de dinheiro

Publicado por tonymonti em 01.09.2011

Nas últimas semanas, frequentei um curso chamado “Estratégias de captação de recursos para projetos culturais”, no Senac. Foi um esforço para tentar a entender um pouco como é direcionado o dinheiro para as artes e a cultura. De modo geral, fica claro agora para mim que os patrocínios, com raras exceções, estão longe de consituir uma política de cultura. As leis de incentivo, em particular a Lei Rouanet, funcionam como um mecanismo de transferência de recursos públicos para instituições privadas.

- os números - a Lei Rouanet tem dois artigos que estabelecem os limites de isenção fiscal. Um deles (26) se destina basicamente à música popular e não dá isenção integral, o que não é um problema para as empresas já que os grandes eventos musicais são muito lucrativos e dão muita exposição às marcas. No outro artigo (18), as empresas podem pegar uma porcentagem do seu imposto e utilizar o dinheiro integralmente em ações de patrocínio. Assim, o que era imposto (e teria seu destino decidido por uma instância coletiva pública) passa a ser dinheiro para a empresa (verba de publicidade). Há ainda a lei do audivisual, que é tão descarada que me assusta. A empresa que quiser patrocinar um filme tem isenção fiscal de 100%, como no artigo 18 da lei Rouanet, e ainda pode declarar a verba do patrocínio como custo operacional da empresa (o que tem um desconto de 25% no imposto). Isso significa que se a empresa escolhe destinar 100 reais para patrocinar um filme, nada sai dos cofres da empresa e ela ainda paga 25 reais a menos de imposto. Ou seja, a lei do audiovisual da lucro para a empresa - a cada 100 reais que ela destina de dinheiro frio (imposto) para a cultura, ela recebe 25 reais de dinheiro quente de volta!

- a privatização das decisões - para ter um projeto aprovado na Lei Rouanet, o proponente deve enviar uma proposta ao Ministério da Cultura. A maior parte dos projetos bem resolvidos contabilmente é aprovada. Depois, o proponente tem que conseguir o dinheiro com as empresas, o que costuma ser a parte mais difícil. Os departamentos de marketing, a assessoria de comunicação ou algo semelhante a isso nas empresas é que dizem que projeto merece ser patrocinado. Qualquer ideia de valor artístico fica subordinada assim aos interesses das empresas (lucro).

- as contrapartidas – na minha opinião um patrocínio seria a associação da marca de uma empresa a um fato artístico, associação que daria prestígio à marca. Um exemplo que para mim é satisfatório é o modo como a Petrobras patrocina cinema, por exemplo. A marca é valorizada apenas pela associação recorrente de sua imagem à produção de cinema no país. No entanto, nos exercícios em sala de aula no curso que eu frequentei ficou claro que essa contrapartida menos tangível não é a que a maioria das empresas esperam. Por exemplo, quando um grupo de teatro com sede própria abordou uma empresa, ele ofereceu como contrapartida a utilização de um dos auditórios do grupo para eventos da empresa. Ofereceu também oficinas de teatro na companhia. O dinheiro que era imposto, transformado em verba de propaganda para a empresa, é agora dinheiro vivo para alugar um auditório ou contratar um curso de teatro para os executivos. Durante o exercício fiz essa reflexão em voz alta na sala, sobre isso não ser um mecanismo de patrocínio. O professor, com experiência em mediar a relação das empresas com os artistas, mostrou-se insatisfeito com as leis de incentivo, mas afirmou que é assim que as coisas têm funcionado.

- para a literatura - as empresas querem grandes eventos, espetáculos onde a marca seja vista o tempo todo. Patrocinar livros não oferece a exposição que as empresas esperam. O que acontece às vezes é o patrocínio a livros de fotografia e arte, cheios de imagens, que serão distribuídos pela própria empresa a altos funcionários e parceiros de negócios, ou ficam nas mesas de centro das salas de espera da diretoria. Segundo este mecanismo, as empresas compram e distribuem brindes com o imposto que não precisam recolher.

- visibilidade - a vontade de as empresas terem a marca muito exposta provoca deformações no processo. Peças de teatro e filmes com atores muito conhecidos, que já sobreviveriam com a renda da bilheteria ou com o patrocínio de dinheiro quente (sem os benefícios fiscais da lei) vendem cotas com muita facilidade. Ações culturais menos convencionais, que não conseguiriam viabilidade comercial, não conseguem ser viáveis também com os mecanismos das leis.

- propaganda - outra desfiguração do espírito da lei é que, por exemplo, revistas de cultura podem vender páginas de propaganda para instituições privadas com o dinheiro público da lei.

- editais - apesar de as leis federais de incentivo à cultura favorecerem em todos os seus aspectos a submissão do dinheiro ao lucro da empresa, umas poucas instituições têm mecanismos que incentivam a produção de arte que não dá visibilidade grande nem oferece contrapartidas materiais. Umas poucas empresas, como a Petrobras, faz editais de patrocínio que, ao que parece, funcionam bem.

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Vida corrida (isto é um blog, parte 4)

Publicado por tonymonti em 26.08.2011

Pouco antes da defesa do doutorado, foi lançado o Geração Zero Zero. O lançamento em SP foi movimentado e confuso, cheio de gente. Defendi o doutorado no dia 5 de julho. Foi tudo tranquilo, dentro do esperado. No mesmo dia, de noite, fui para a FLIP, onde houve uma mesa redonda e um pequeno lançamento do livro.

Estive também em Santos com o imparável Flávio Viegas Amoreira (lançamento) e no Festival Nacional do Conto, em Jaraguá do Sul, para um debate com autores do livro. Foi bom, neste período que seria apenas o fim do doutorado, publicar textos em livro e escutar os comentários e as curiosidades de leitores. Melhor ainda foi conhecer os outros autores do livro e conviver um pouco mais com alguns que já conhecia.

Somos muito heterogêneos nas propostas literárias e na vida cotidiana. Nossas literaturas têm poucos pontos em comum. Apesar das grandes e evidentes diferenças, acho que funcionamos bem como grupo. Temos nos suportado a contento. Talvez os licores tenham nos azeitado.

Com um pouco mais de tempo, tenho agora trabalhado em um romance, ainda sem nome. Recebi também duas encomendas de textos ficcionais – um para um livro de fotografias e outro para uma revista. Este fim de ano vai ser movimentado também. Bom.

- parte 1 –
- parte 2 –
- parte 3 –

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Vida corrida (isto é um blog, parte 3)

Publicado por tonymonti em 25.08.2011

O trabalho nos meses seguintes ficou concentrado na tese de doutorado. Foi um período de organizar o pensamento, de muita análise e pouca síntese. É curiosa a tendência que uma tese em literatura tem de se afastar do pensamento especificamente literário. Para mim, é clara a impressão de que a cabeça funciona em regimes diferentes quando se escreve ficção ou quando se escreve crítica acadêmica. Procurei não me afastar demais da produção de imagens também na tese, mas, no fim das contas, não há muita poesia na tese, não. Houve um consciente esforço de linguagem também, para evitar a solução fácil do jargão, para tornar o fluxo das frases também instigante, para além do fluxo finalista das ideias.

Como de costume, considero o processo mais rico do que o resultado. Talvez eu tenha cedido a uma demanda acadêmica mais do que eu gostaria. Falei de modernidades e de interpretações do Brasil talvez mais do que devesse, talvez mais do que eu acredite na funcionalidade destes modos de pensar. Mas gosto das análises dos textos. Acho que a tese é mais forte nos pequenos elementos e mais fraca nos momentos de síntese.

Já estou na escola, como aluno, há bastante tempo. Estar em processo de aprendizado é confortável para mim. A tese reflete este conforto. Enquanto caminho em terreno de análise e de dúvidas, vou bem. Escorrego nas sínteses, na hora de interpretar. Talvez por desconfiar da força de grandes interpretações.

Durante o período, um dos meus contatos com o fazer literário foi anotar fragmentos soltos, eventualmente, quando surgia alguma ideia. Tomei nota também para um romance que finalmente volta a caminhar. Comecei a escrevê-lo há cerca de quatro anos. Nas últimas semanas, muitas páginas de texto têm se acumulado. E, durante a tese, escrevia aqui no blog as “garatujas”, que eram mais anotações para mim mesmo do que textos para mostrar. Mas mostrei. As garatujas ficaram levemente contaminadas pelo doutorado e mesmo o romance tem nele algo da tese.

O doutorado seria uma comparação entre personagens artistas (escritores) e personagens assassinos (criminosos) em contos do Rubem Fonseca durante o Regime Militar. A parcela dos assassinos cresceu. Os personagens assassinos são mais interessantes. Trabalho pronto, texto escrito, noto agora que uma das vontades que me guiou o tempo todo foi a de entender por que é que se gosta de violência em arte. Acho que aprendi algo sobre isso e com isso.

- parte 1 –
- parte 2 –
- parte 4 –

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Vida corrida (isto é um blog, parte 2)

Publicado por tonymonti em 23.08.2011

Pouco depois de entregar os contos para o Geração Zero Zero, fui chamado para o Rock Book. Aceitei. Intimamente eu torcia para o projeto andar devagar e, assim, a entrega dos contos ficar para muito tempo depois. Mas logo eu tinha mais um prazo. Pensei em desistir. Pouco tempo depois, tive uma ideia e escrevi um conto sem muito sofrer.

A proposta do livro são contos com o tema genérico “Rock”. Sei que muitos dos autores citam nominalmente alguma banda ou canção. Eu escolhi um caminho diferente. Lembrei de quando na adolescência eu era guitarrista do Buraco da bala, aquela banda que você não conheceu e que tinha as melhores versões do universo para “Here comes your man”, “Just like heaven”, “Psycho killer” e meia dúzia de canções do U2. Não descrevi a banda. Fantasiei como teria sido minha vida de pop star se a banda continuasse. Desconfio que eu iria enjoar de tanta euforia e barulho, aquela idiotia juvenil própria do rock. Fingi que escrevia sobre rock, mas meu conto é sobre o silêncio, ou no máximo sobre a necessidade de alternar a intensidade sonora com algum invólucro mais quieto. O cenário são os camarins de um grande show, antes de o narrador entrar no palco.

Gosto de escrever sob encomenda. Nunca pensei em escrever sobre rock. Foi bom ter que brincar com esta impossibilidade.

Meus colegas de coletânea são Cadão Volpato, André Sant´Anna, Xico Sá, Marcia Denser, Abilio Godoy, Ivan Hegen, Carol Bensimon, Carol Zoccoli, Alex Antunes, Glauco Mattoso, Sérgio Fantini, Luiz Roberto Guedes, Danislau, Fernando Bonassi, Mario Bortolotto, Andréa Del Fuego, Andrea Catropa, Nelson de Oliveira, Antonio Vicente Pietrofote e Claudio Bizotto. Uma turma boa. Joca Terron orelhou. O livro que sai em outubro.

– parte 1 –
– parte 3 –
– parte 4 –

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Vida corrida (isto é um blog, parte 1)

Publicado por tonymonti em 22.08.2011

Desde o ano passado, a vida profissional tem estado corrida. Em alguns momentos, como nas últimas semanas, este blog ficou parado sem atualizações. Vai então, de uma vez, em alguns posts separados, o resumão:

No começo de 2010, passei os meses preocupado com a qualificação do doutorado. Estive na biblioteca da FFLCH quase todos os dias. Quando ela entrou em greve, frequentei a biblioteca da FAU. A qualificação aconteceu em junho. Neste mesmo período fui convidado para duas coletâneas de contos. Geração Zero Zero - fricções em rede (organizada por Nelson de Oliveira) saiu em julho de 2011 e Rock Book (por Ivan Hegen) sai logo mais, provavelmente em outubro. Interrompi o período de estudos na universidade para escrever os contos.

 

Para a Geração Zero Zero, foram convidados os 21 autores que, na opinião do organizador, são os mais significativos entre aqueles que estrearam na ficção na primeira década deste século.

Tínhamos um espaço rigidamente delimitado, se não me engano de 18000 a 22000 caracteres, para ser ocupado com um ou alguns textos em prosa inéditos. Minha intenção era escrever sobre uma imagem que eu guardava há tempos na cabeça e que eu supunha dar um conto. Ultimamente tenho pensado sobre isso, sobre uma dificuldade específica de escrever narrativas. Como contar uma história no tempo? Eu tenho em geral imagens curtas, takes fotográficos que quase não se estendem no passado e no futuro. Eu pensava em escrever sobre uma moça que queimava o próprio braço com uma ponta de cigarro. Via a cena em muitos ângulos, em detalhes – a pele lisa do braço, o caminho da fumaça no ar, a brasa se mexendo quando tocasse a pele. Pode-se postular um tempo de leitura das descrições e do acúmulo de imagens para dar outras dimensões (social, estética, afetiva etc) à imagem visual, mas não havia uma história, eu não tinha fatos que se sucedem em nexos lógico-temporais.

Por fim, o conto ganhou alguns contornos também no tempo, mas a cena da moça com o cigarro ainda é central e flutua, pelo menos para mim, sem se ligar com rigidez a tudo o que a cerca. Escrevi um texto fragmentado. Algumas passagens me agradavam. Mas eu estava insatisfeito com o resultado geral. Pedi uma opinião aos escritores Abilio Godoy e Julián Fuks, Ambos deram sugestões pontuais, em parte aceitas por mim, e disseram gostar do texto. Mas não me convenceram. Ao mesmo tempo, pressionado pelo prazo do doutorado, eu queria finalizar logo o conto. Eu não podia esperar semanas para as ideias aparecerem aos poucos.

Numa madrugada, tomei uma decisão difícil. Tentava dormir, mas pensava no conto. Resolvi levantar e trabalhar um pouco. Virei a noite eliminando tanto frases isoladas quanto passagens longas, em um equacionamento sofrido entre a vontade de melhorar o texto e a dificuldade de jogar fora parte do trabalho já feito. Quando o dia amanheceu, eu tinha diminuído o conto em mais de 20%. Durante a madrugada, no correr do processo, houve um momento em que eu não tinha mais o conto inicial e ainda não tinha um conto novo. Tudo desorganizado, com uma perspectivas difusa de que a coisa melhoraria. Semi-desespero. A experiência deste momento foi útil para, meses depois, ter energia e coragem de reescrever partes longas do doutorado. Dormi um pouco, aparei arestas por mais dois ou três dias e dei o conto “Esc” como pronto. Fiquei satisfeito. Pedi de novo ajuda aos amigos e dessa vez gostei mais das opiniões deles (talvez porque, por falta de tempo, precisasse gostar). O Abilio disse que ficou impressionado como o conto tinha mudado tanto com tão pouca mudança no texto. O Julián disse que jamais mudaria tanta coisa em um texto que já estava praticamente pronto, e que estava admirado. Ótimo.

Mas agora eu tinha 15000 caracteres, abaixo da extensão combinada. Escrevi ao Nelson de Oliveira e ele disse para eu não me preocupar com o prazo. Sugeriu que eu escrevesse outro conto, mais curto, para completar minha paricipação no livro. Aceitei, embora não soubesse como lidar com o tempo. Escrevi em poucos dias “Esboço de Ana”. Por meses eu o considerei apenas um conto funcional, para completar o espaço. No entanto, quando o livro foi lançado, um ano e meio depois, mais de um leitor me chamou a atenção para certos aspectos do conto que me escapavam a princípio e que davam a ele uma dimensão que ultrapassava minha intenção inicial. Hoje gosto dele. O conto é a história de um pequeno desespero, uma tentativa de contornar com segurança o rompimento com uma pessoa querida. Bom que tenha sido assim. Em vez de um, há lá dois contos.

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– parte 4 –

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Parceria deste blog com a Livraria Cultura

Publicado por tonymonti em 31.07.2011

Faz tempo que não divulgo isso: 

Este blog tem uma parceria com a Livraria Cultura. Quando alguém faz compras na Cultura a partir de um clique em qualquer link da livraria do blog (há um na coluna da direita), o blog recebe 4% do valor da compra. Funciona como distribuição de renda, tira 4% do grande empresário e repassa ao escritor. ; )

É só lembrar de entrar neste blog quando for fazer a compra, e clicar no link da Cultura.

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