tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago



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    eXato acidente
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garatuja (40) – clint eastwood revisited

Publicado por tonymonti em 28.05.2012

Ele não esconde dos outros suas inseguranças.
As fraquezas são seu refinamento, sua sensibilidade,
sua parcela feminina, ele diz,
sem se dar conta do lapso,
e conta vantagem sobre conquistas e proezas sexuais nas entrelinhas dos lamentos.

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garatuja (39) – chuva

Publicado por tonymonti em 08.05.2012

1.
Escrevi o primeiro e-mail já movido por um discreto desespero, sem palavra alguma que me fizesse entender. Preenchi o assunto com um ponto e o corpo do texto também com um ponto. Apertei o botão e enviei a mensagem. O desespero não se tornou menor. Escrevi outro e-mail igual. Antes de apertar o botão, percebi que poderia parecer uma falha do computador, que de repente um mesmo e-mail tivesse sido enviado duas vezes. No terceiro e-mail, preenchi o assunto com muitos pontos e o corpo do texto também. Não sei se você percebeu, o quinto e-mail, o décimo, o décimo sexto e o vigésimo terceiro, todos tinham assuntos diferentes e mensagens diferentes, os pontinhos eram em número variado. Fiz isso obsessivamente por cento e trinta e uma mensagens. Concedo, talvez eu tenha repetido o número de pontos. Não planejei desde o princípio um método. A partir de algum momento, comecei a, às vezes, adicionar espaços entre os pontos. Na sua caixa de entrada, se os e-mails estivessem um abaixo do outro, as linhas sucessivas de pontos poderiam formar uma figura em duas dimensões. Depois de algumas dezenas de e-mails, eu respirava melhor. Insisti até que o desespero tivesse se reconfigurado em absurdo e tristeza tranquila.

Algumas horas depois me chegou sua resposta. Comovido, suponho que você tenha aberto todas as mensagens, mas nunca te perguntei. Você disse apenas: que lindo, uma chuva de bolinhas.

Sim, era isso o que eu queria dizer. Exatamente.

2.
Andava ontem pela rua sem procurar por muita coisa quando apareceu no chão não uma chave perdida mas uma fechadura. O mundo do avesso, um bilhete em branco anônimo escrito num guardanapo.

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garatuja (38) – o silêncio dos cansados

Publicado por tonymonti em 05.05.2012


1.
meu mau humor, querida, é pouco,
é raro,
passa com beijo, carinho e com o tempo
(às vezes preciso ficar sozinho, perdão),
e não vale mais que três mil reais por mês e um apartamento no centro.

2.
cobertor e dois dias ausente no quarto,
conselho nenhum
(o silêncio dos cansados).
na sala a televisão
e os sons mínimos de você lendo no sofá.

3.
fiz queijo quente, você quer?

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Heróis anônimos da reciclagem

Publicado por tonymonti em 26.04.2012

Eu vejo televisão. A Globo anunciou um Globo Repórter para amanhã. O tema é reciclagem de lixo. Os catadores foram chamdos de “heróis anônimos da reciclagem”. No mesmo dia, em mais de um jornal, alguns minutos narraram a transferência do cantor não-anônimo em um avião u.t.i., de Goiás para São Paulo.

A imagem do avião me aborrece. Tiraram as sacolinhas dos supermercados, mas deixaram as Ferraris nas ruas. Quanto de matéria prima e restos materiais inúteis gera um carro deste? O Estado exige relatórios detalhados de impacto ambiental antes de construir metrô e corredores de ônibus. Justo. Mil carros vão às ruas por dia em São Paulo sem impacto nenhum? Um cara tem uma Ferrari em casa, usa duas horas por semana. Ter uma Ferrari em casa me parece querer guardar as Pirâmides no quintal, para olhar no domingo depois do macarrão. Normal para um lugar onde o Estado é propriedade privada.

No fim de semana tem corrida de Formula Indy na cidade. Uma operação gigante. Os heróis anônimos estarão na rua, pegando latinha e papel. Eles não param nunca. Muitos não saem da rua nem para dormir. Dormem no trabalho. Me assusta até a previsão do tempo dada por uma moça bonita na frente de um infográfico 3D. A indiferença dela me torce os pensamentos. Se chover, alguém pode morrer de gripe, e eu sei que o avião u.t.i. está ocupado.

Um plano de saúde (Amil) faz propaganda por ter zerado as emissões de carbono. Eu tento marcar um exame pela Amil há meses e não consigo. Uso o SUS? Se chover tem corrida? Dissimulados.

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garatuja (37) – melancolia

Publicado por tonymonti em 25.04.2012

No congestionamento do fim da tarde na Avenida Paulista um homem sem ar condicionado vê de dentro de seu carro uma mulher a quem ele deseja e um homem desconhecido passarem de mãos dadas por um espaço de poucos centímetros em frente ao parachoque dianteiro. O motorista não se dirige à mulher nem atropela o homem.

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garatuja (36) – respiração

Publicado por tonymonti em 23.04.2012

Russ Mills 

1.
Quase nada é um jogo, uma proposição obscura que se oferece à resolução.
Mas a gente esquece, afasta da vista o amorfo.
Queria que você escutasse o grito como o religioso admira sem entender o milagre.
Mesmo que as coisas não sejam só elas mesmas,
por favor,
não me pede sempre para explicar.

Tem umas coisas que a gente só entende um pouco.
Em uma parte do tempo
não entender é o principal da experiência no mundo.

2.
Às vezes a palavra é um berro,
expressão violenta de um não entendimento.
Não tem nada embaixo,
não adianta perguntar,
é só vontade de eu palavra você.
É um lapso opaco, cena sem cenário.

Também para mim é sofrido respeitar o silêncio
como a gente sabe das pedras,
como a gente acredita que elas existem.

Não me refiro ao mistério infinito,
ao milagre como se ele existisse.
É só esperar um pouco para descansar,
porque eu estou exausto.

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garatuja romântico-rugosa (35)

Publicado por tonymonti em 20.04.2012

A mulher que desconfia da mensagem solitária recebida pelo celular
Você está linda?,
que se desequilibra na interrogação
e desentende o elogio,
suspeitaria dos gestos, da luz e dos abraços.
Infinitos falsos.
Quem não resvala nas dúvidas, 
quem acha que o que se diz não tem ruído nem concavidades,
(o chão finge que escapa)
é o Clint Eastwood, o macho que não sabe fazer carinho.

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colorir

Publicado por tonymonti em 18.04.2012

Meu progresso no Photoshop é lento.

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garatuja (34) – dois

Publicado por tonymonti em 03.04.2012


Me perdoa se às vezes te pareço apático. 
É que só quando vou mais lento enxergo tua extensão.
A euforia é prazenteira mas solitária.
Se puder, aceita esta minha oferta,
não as festas e os excessos, mas o lento compartir do tempo.

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garatuja (33) – futebol

Publicado por tonymonti em 27.03.2012

Tese: ainda que os discursos e as práticas que o cercam sejam tão machistas, infantis e violentas, algo que determina os destinos cotidianos de tanta gente vale o interesse. O futebol, neste aspecto, não é pior que a arte mais transgressora, a novela, a política ou a guerra.

Antítese: a voz dos narradores e o barulho da torcida me deixam tranquilo. Sou hipnotizado pelas imagens na tela. A televisão ligada no futebol me produz prazerosa companhia, adia suavemente a vida.

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garatuja (32) – uma ruína de material morno e mole desgatado pelo vento

Publicado por tonymonti em 26.03.2012


Que tipo de falta é a saudade? Por certo, não a vontade talhada pelos rigores de uma filosofia. É uma boca sem um peito, é a resignação diante de ter que dormir sem o abrigo de alguém. Saudade é a falta de uma mãe?

Que tipo de pergunta é “você tem saudade de mim?”? Você quer saber se eu sofro na sua ausência? Cada vez que eu me movo até aqui, que eu venho te encontrar, não fica expressa uma escolha minha?

Quando falo de saudade, a imagem que me vem à mente é um peito bem redondo.

Não te parece que estamos falando de vestígios de uma lógica de outro tempo?

(Que tipo de saudade é o ciúme?)

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r.i.p.

Publicado por tonymonti em 23.03.2012

Quantas pessoas conhecidas havia antes da televisão, do cinema e da cultura de massa? Quantos ídolos de grande escala? Vai morrer cada vez mais gente conhecida, não tem jeito, de câncer, de acidente, de velhice ou de depressão. Vai formar uma fila de heróis de 27 anos no céu dos heróis. O processo é o mesmo da substituição rasteira de um ídolo por outro, cada vez mais rápida, no seu mp3 e na capa da revista. Probabilidades. Há mais mortes simbólicas e há mais mortes físicas porque há mais gente à vista de todos.

Ao mesmo tempo, porque sempre existe um detalhe do famoso que produz a emoção fácil, cotidiana – morte ou algum aspecto da sua sobrevivência -, a obra some. A arte e a crítica são engolidas pela vida comezinha. Morreu, mistério, não é preciso pensar. Isso cria a impressão positiva e amena de que o mundo existe apesar da rotina mecânica do cotidiano. Uma catarse falsa. A tragédia exemplar, que transforma, que redime, é falsificada na comoção do jornal, do óbvio, do que vai acontecer cada vez mais. Amanhã morre mais um e todo mundo vai compartilhar no facebook.

Lamento menos as mortes do que a comoção. Não sou de ídolos. Vivo bem com meus cinco amigos. Estou um tanto cansado de homenagens póstumas, de informação demais, da celebração das nossas memórias idiotas e comuns. Isso me parece aquela felicidade de criança ao ver o pai cobrir e descobrir o rosto com as mãos, mas agora forjada em tristeza. Reconhecemos em júbilo a permanência das coisas, que pessoas morrem e sempre morreram, que o passado continua no presente, que todos nós, um dia há alguns anos, assistimos ao mesmo programa de televisão. Mas esquecemos do absurdo, a vida, isso tudo serve para quê, o que vamos fazer dela? Morreu, morreu. O obituário já estava inclusive escrito.

- ver também O esvaziamento – anotações sobre a morte célebre

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Questões de geometria: a bicicleta

Publicado por tonymonti em 20.03.2012

1. Há cinco meses caminho cerca de 40 minutos a mais por dia. Há um mês vendi meu carro. A sensação é de que aos poucos o corpo vai se moldando aos caminhos. Já sei escolher os calçados e as velocidades confortáveis. Não sou ciclista, mas simpatizo também com as engrenagens ingênuas da bicicleta, que fazem menos barulho que os automóveis e que isolam menos o condutor e a cidade. De bicicleta é possível ver os detalhes do ladrilho da calçada, notar como o mato cresce, como a rua cheira. Gosto da sutileza da propulsão, da delicadeza do corpo um pouco mais exposto. O ciclista tem uma perspectiva melhor que o motorista para perceber os modos como seu corpo cabe na cidade.

2. Em cada bicicleta cabe apenas uma pessoa. A lei diz que o motorista de veículo automotor deve guardar 1,50m de distância do ciclista para ultrapassá-lo. Legalmente, portanto, a bicicleta é um veículo individual que tem, em certas circunstâncias, 3m de largura. Ainda, ela é em geral mais lenta que o automóvel e que o ônibus e que o metrô. As bicicletas ocupam legalmente espaço nas avenidas já bastante movimentadas da cidade. Se um ônibus fizer uma curva necessária e o motorista competente e atento não enxergar a bicicleta, pode ser que os 3m sejam sutilmente invadidos. Este motorista não é, aos meus olhos, legalmente, um assassino.

3. Corredores de ônibus regulares têm entre 2,75m e 3,30m. Um ônibus permite a mobilidade de um número significativamente maior de pessoas do que uma bicicleta. Se sobrepusermos a mobilidade urbana às vontades individuais, não me parece que a circulação de bicicletas seja uma alternativa eficiente para as grandes avenidas (mesmo que o plano seja retirar os automóveis da rua, o que não me parece ruim). Mais ônibus, mais metrô, menos automóvel. E as bicicletas poderiam fazer bem o trânsito capilar.

4. A defesa da bicicleta sem a reflexão sobre a mobilidade na cidade permite o argumento vazio, neste contexto, das liberdades individuais. Alguém quer andar de bicicleta, alguém vai querer andar de carro. No limite, começo a perceber um fetiche pela bicicleta (não muito diferente do tradicional fetiche pelo carro) e reações violentas de ciclistas a tentativas de dar desdobramentos ao pensamento sobre a cidade. Obedecer apenas às vontades individuais seria desregulamentar o trânsito como alguns querem desregulamentar a economia. Crack. Bolha. Não serve. Uns querem ganhar muito dinheiro, outros querem andar de bicicleta. A palavra liberdade perde o sentido. Falta dar contexto às vontades, matizar com o princípio de realidade as inclinações individuais. Caso contrário, não há política nem senso coletivo.

5. Sim, é possível melhorar a circulação de bicicletas na cidade dentro de um plano abrangente de mobilidade de pessoas (não especificamente de carros, mas também não especificamente de bicicletas).

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garatuja (31) – às vezes eu sou a indiferença de uma girafa quando mastiga

Publicado por tonymonti em 04.03.2012

1. Às vezes a gente passa cinquenta minutos numa aula e move levemente a cabeça na vertical, na hora adequada, sem precisar pensar sobre as circunstâncias, confirmando as palavras que não escutou ou não processou.

2. Quando era criança, eu às vezes ouvia minha mãe perguntar de longe, mas eu não respondia. A habilidade de ficar em silêncio foi aperfeiçoada a ponto de, muitas vezes, eu sequer escutar o som da voz dela.

3. Muitas vezes eu penso nas perguntas que não querem dizer nada. “Tudo bem?” é quase linguagem sem palavra, é um aceno com a mão. Eu penso “estou bem?”, o que não tem nunca resposta simples.

4. Criei uma rotina para facilitar o procedimento. Eu me questiono se estou melhor do que há alguns dias, um tempo fixo e de dimensão inferior a poucas semanas. Então eu concluo “estou melhor do que há 10 dias, o que é bom”. Em seguida, digo ao meu interlocutor “tudo bem”. Dura um instante e é funcional. Eu também diria “tudo bem” se estivesse pior do que há 10 dias.

5. Há situações em que, sem perceber, algo subverte a rotina e, em vez de dizer “tudo bem”, exponho irrefletidamente o pensamento. Em um lapso espontâneo eu revelo cifrado o algoritmo. Estou pior do que há cinco dias, o que não considero bom. Em vez de ser neutro e automático, o espontâneo funciona como sincera libertação.

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Adversativa de carnaval

Publicado por tonymonti em 22.02.2012

Imagem

Mas o carnaval talvez seja exatamente o que faz com que no resto do tempo a vida não seja ele. A gente começa a pensar que os sorrisos e a vida espontânea poderiam transbordar nas outras semanas do ano. Começa a ter esperança, esse sentimento paralisante. Não vai acontecer. Não vai acontecer porque o espontâneo não arranha os preconceitos, as ideologias, as imbecilidades e a concentração das fortunas. O espontâneo é desejo quase sem forma. A gente se sente livre, desfruta, gosta, mas nada permanece.

Saí para a rua no carnaval, para encontrar os amigos e os desconhecidos nos blocos. Disse para alguns “eu odeio carnaval”, e eles riram olhando para minha gravata vermelha e meu chapéu amarelo. Eu dizia com prazer, como se estivesse mentindo, como se esse ódio fosse incompatível com a diversão. Odeio em alguma medida. Porque o carnaval não me parece uma festa separada do resto do ano. É um complemento obsceno dos outros dias. Saí e me diverti, como muita gente fez. E amanhã preto, patrão e pobre voltam a ter os signifcados usuais. A gente gasta o ódio em quatro dias para desaprender a organizar as forças, para ser moldado, em esperança, à submissão.

Tinha que ser junto, e não separado.

[ talvez esse texto comece em "mas" por eu ter lido este antes de escrever:
http://cumachama.wordpress.com/2012/02/22/o-carnaval/ ]

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onde estão, antonio, as histórias de amor?

Publicado por tonymonti em 26.12.2011

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garatuja (30) – mineralia

Publicado por tonymonti em 26.12.2011

1. se não é bicho
nem planta
é pedra.

2. animal é ficção de gente, autorização para gostar da besta que baba entre dentes, come tapete de noite e urina no travesseiro.

3. horóscopo é um catálogo de pedras
no céu,
uma vulgata
longe da vesicula,
é urina abstrata na almofada,
dilapida o tempo e
releva o pensamento.

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A criminalização do pedestre

Publicado por tonymonti em 25.12.2011

Um dos lugares-comuns sobre Bracelona é que, como consequência de uma intenção industrial e portuária, a cidade cresceu de costas para o mar. As regiões costeiras tornaram-se zonas escuras.

A ideia me soou familiar, mas sobre São Paulo. A cidade parece crescer de costas para a rua. Os espaços públicos não são lugares para se estar, são cada vez mais apenas circuitos de passagem. Na região da Paulista e da Augusta, quatro shoppings estão com as obras aprovadas. As casinhas e os prédios pequenos, onde há ainda comércio no térreo, estão sendo demolidos para a construção de edifícios fechados à rua. O que acontecer, será lá dentro.

A ideia de ocupar o espaço público vai se tornando menos um hábito cotidiano do que um enfrentamento intencional. As passeatas, que se tornaram mais frequentes, são logo refreadas pela ação ostensiva da polícia. Ou simplesmente convivem inertes com a vigilância ao lado. Acredito até que, por serem mais frequentes e com motivos mais diversos, perderam o efeito agudo e específico de suas causas. Todas elas se parecem e os motivos declarados às vezes se perdem. Mas restou uma importante causa de fundo de qualquer manifestção na rua: o direito a estar ali, na rua.

Pela lógica deste Estado, parece que só está na rua quem não tem mais o que fazer. Criminalizou-se o caminhar, o passear. A Lei da “cidade limpa”, contra a qual nada tenho, parece, no entanto, esconder atrás de si a mesma lógica perversa de que parte do serviço de limpeza é retirar os vagabundos da calçada. Quem não estiver no carro, indo ou voltando do trabalho, está fora do lugar.

Ou então a rua tem que ceder à lógica tosca do espetáculo, das grandes aglomerações eventuais e caóticas, da carreata na Paulista para ver a decoração de Natal.

A aplicação das leis torna-se grosseira. Supõe-se a cidade como um mecanismo homogêneo, regulável por um controle simplório. A mesma lei do bairro mais residencial da cidade manda fechar os bares das ruas tradicionalmente 24h do centro antes da uma da manhã. Do conjunto de demandas da cidade, da obrigatoriedade da educação e saúde de qualidade, de dar albergue a sem-teto, da possibilidade de aumentar a quantidade de pontos de cultura, de bibliotecas, de teatros, escolheu-se criminalizar o pedestre, tratar tudo o que não seja bem privado como caso de polícia. Há questões a resolver em todas as áreas, mas este Estado afiou a faca para compor um binômio simples em que ou a propriedade é privada (e não lhe diz respeito) ou é pública (e dessa cuida-se com a proibição e com a polícia). No mesmo compasso, as grades contra mendigo, o panopticismo e o medo da rua. O Estado fica reduzido a um gestor de polícias igual ao que ocupa morros no Rio e constrói uma lógica que faz esquecer as faces desarmadas do governo, aqueles outros modos de ocupar a rua, de sentar num degrau e poder apenas estar.

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garatuja (29) – animalia

Publicado por tonymonti em 24.12.2011

1. há critérios para a beleza humana,
pessoais, variáveis, cricunstanciais, interessados, sensuais, morais,
que não valem para os bichos.

2. cachorros e gatos podem ser bonitos ou feios, por comparação, por uma identificação infantil entre os bichos e a gente. se são bonitos ou feios, é por comparação ao humano.
como regra, animal interessante é animal exótico,
com pernas e olhos múltiplos e enormes,
lentidão, acefalia, modorra, asco, peçonha, fedentina, estultice, sanha, nescidade,
que faz ninho de saliva, que come a cria, que hiberna, que morre de fome,
que mata tranquilo,
que tem vida maquinal em sociedade,
que quase perde a forma, que parece pedra, que parece água, que é invisível, que voa sem asa no vento que os outros respiram, que os outros sopram, que os outros soltam,
que faz teia, que faz buraco, que chupa sangue.
enfim, desumanidade, bestialidade, animosidade.
mineralidade às vezes.
um vazio.
nem beleza nem feiúra, uma amoralidade estética.

3. (olhos azuis, cabelos vermelhos, cores inumanas)
para pessoas, a beleza é moral.

4. assustador, no entanto, é o macaco. nele eu me vejo e, supostamente, deveria ver nada.

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garatuja (28) – o som e o tempo

Publicado por tonymonti em 21.12.2011

Antes de retirar a espada da bainha, o samurai mede o corpo e as habilidades do oponente. O confronto ideal começa enquanto os adversários se olham e termina depois do golpe único, ao verter do sangue. Como o enxadrista experiente, que abandona o jogo lances antes de o xeque-mate acontecer no tabuleiro, por vezes um dos samurais não se mexe. Em respeito ao outro, abandona o controle dos músculos se percebe que estender a resistência consumiria segundos da vida do samurai sobrevivente. Não existe o som repetitivo dos toques entre as lâminas. O som fica concentrado em um kiai solitário e, às vezes, em um urro transtornado de dor ladeado pelo silêncio das árvores.

[Este é também um trecho do meu texto publicado no livro de fotografias Vai e vem - Um passeio visual pela rede ferroviária do estado de São Paulo, lançado há poucos dias pela editora binóculo]

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