tony monti eXato acidente

leio, escrevo e apago

Para os amantes da boa música

Publicado por tonymonti em 11.11.2009

eu e o quase

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Re: Bravo!

Publicado por tonymonti em 10.11.2009

Eu tinha lido a Bravo! na internet. A revista de papel apareceu na minha frente e eu fui dar mais uma olhada. O texto sobre o Rubem Fonseca melhorou. Fiquei com vontade de apagar o post anterior até. Reescrever. A revista é então, em grande parte, o papel e a diagramação? Sei não.

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Clarice Lispector

Publicado por tonymonti em 09.11.2009

cosmolit

Não por acaso, embora não conheça os liames subterrâneos, há também na Bravo! um texto sobre uma nova biografia de Clarice Lispector. Foi sobre a Clarice o meu mestrado (vale o que disse sobre o doutorado, o mestrado era a desculpa social para eu ler livros, ver filmes e pensar a vida). O texto forma, com o texto sobre o Rubem Fonseca, quase tudo o que há de literatura na revista. Gosto, não muito, de biografias, e tenho curiosidade sobre a vida dos autores, mas sinto falta de que se fale de texto literário. Dos bons autores, quase sem exceção, o centro tem que ser o texto. A vida, uma periferia discreta, talvez o contexto que emoldura a matéria ficcional. Menos que isso. As histórias da vida do Fonseca e a vida da Lispector não valem uma página dos seus piores livros (mesmo o livro de crônicas do Fonseca que antecedeu ao romance agora lançado).

Na Argentina existe uma revista que assumiu essa vontade obscura, sexy, audaz y con un touch intectualoide. Dei uma olhada na Cosmo lit e fiz um pensamento, mas guardei para mim.

No site da Bravo!, ao lado da matéria sobre a biografia da Clarice, lê-se o resumo de outra matéria: “Roberto Carlos e a Canção Misteriosa - Myrian Rios? Um amor mal-sucedido? Para quem o Rei compôs ”Do Fundo do Meu Coração”, a música triste que inclui em seus espetáculos mais recentes?” Sei não.

Para falar também de flores, há na Bravo! um conto da Veronica Stigger, autora que muito me agrada, em um interessante espaço que a revista reserva a textos ficcionais. Talvez mais alguma coisa, sempre há, não li o resto. Sugestão para pauta de revista de cultura: a impossibilidade comercial de uma revista de cultura no Brasil.

Links:
Biografia da Lispector na Bravo!
Cosmo lit, a revista da Maria Teclado (assim batizou Joca Terron), sexy, audaz y un touch intelectualoide (como ela mesma se descreve)
Capa da Bravo, onde há o resumo das matérias deste número.
“Os anões”, Veronica Stigger

cosmolit

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Fonseca no Estadão

Publicado por tonymonti em 09.11.2009

Apenas para completar o assunto. Saíram dois pequenos textos no Estadão de sábado sobre o lançamento do Rubem Fonseca. O assunto aqui deixa de ser o autor e passa a ser o modo de os jornais tratarem o lançamento. Legal, fico sabendo que o Rubem Fonseca lançou livro novo.  Acho ok contar um pouco do enredo e da estrutura da narrativa. Mas fiquei com a impressão de estar lendo o release que a editora escreve para a imprensa (também porque parte das informações do texto são tomadas em entrevista com o editor). Ainda assim, não vejo problema. 

Mas reforço a idéia de que sinto falta de discutir um pouco mais o texto e os processos, algo que dê ao jornalismo uma face que não se pareça com propaganda.

Links: primeiro texto e segundo texto

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Rubem Fonseca

Publicado por tonymonti em 07.11.2009

Tenho usado boa parte do meu tempo em um doutorado sobre Rubem Fonseca. Digo “boa parte”, embora não seja tanto tempo assim (quando comparo com o que alguns colegas dedicam a suas teses), porque tempo é sempre bom, mesmo que em partes, grandes ou pequenas, e sempre falta. Bom é o que a gente quer mais. Fora tempo, tem o quê? E dizer que é sobre o Rubem Fonseca também não é muito. “Rubem Fonseca” é a maneira mais direta de dizer sobre o que o texto é. Ele é sobre mim e o escrevo enquanto tento me entender (n)o mundo. Leio Lacan, Badiou e Lourenço Mutarelli e digo que é para o doutorado. Enfim, a face do trabalho visível aos outros é um estudo sobre os contos de três livros do Rubem Fonseca, de 1967 a 1979, com o foco nas frequentes aproximações e semelhanças entre artistas(arte) e criminosos(crime).

Nesta brincadeira, fico atento ao que se escreve sobre ele. Como está lançando livro novo – O seminarista -, é normal que saia alguma coisa na imprensa, sempre interessada em um gancho, para encher o espaço branco da folha que acompanha as propagandas no jornal e na revista. Logo deve sair mais alguma coisa, e eu mesmo talvez publique uma resenha do livro se ele chegar logo aqui em casa. Até agora, vi dois textos muito diferentes, uma resenha do Alcir Pécora que saiu na Folha de hoje e um texto jornalístico longo na Bravo!.

Chama a atenção a diferença de tratamento que ambos dão ao fato (Rubem Fonseca lança livro novo). O Pécora faz uma leitura crítica com a qual concordo (na medida em que é possível, e é possível, concordar antes de ler o livro). O agudo Rubem Fonseca dos anos 60 e principalmente 70 não apareceu mais desde então. Uma coisa que me desagrada no que ele escreveu depois (e que agrada a algumas pessoas) é o que o Pécora chamou de Trívia, aquele emaranhado de penduricalhos enciclopédicos na narrativa. Quase nunca funciona bem. Soa para mim como idealização do almanaque e pouco caso com o pensar (e eu acho que a arte está mais para pensar um pensamento que para listar nomes de charutos).

O texto da Bravo! trata de questões polêmicas, como a orientação política de Fonseca e seu possível alinhamento com o Regime Militar (que ele nega, e eu tendo a acreditar nisso), mas vê tudo de um modo que me incomoda. A voz do texto da revista é apaixonada pelo autor, não consegue se afastar para ponderar e críticar. Ao mesmo tempo, essa voz faz uma versão caricata dos posicionamentos políticos possíveis. O marxismo, por exemplo, torna-se um panfleto acrítico, um pouco como o amante que não reflete sobre o objeto amado porque uma das prerrogativas da reflexão é o afastamento. Ao amante, afastar-se é dolorido, assim como reconhecer pontos negativos naquilo que se (escolhe para) gosta(r).

Links:
Pécora na Folha
Fonseca na Bravo!
(não sou de falar mal, quero ver até onde isso vai)

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mais livro

Publicado por tonymonti em 19.10.2009

Lisias

Na quarta-feira da semana que vem, 28/10, Ricardo Lísias lança seu novo romance O livro dos mandarins na Livraria da Vila, em Pinheiros, a partir das 18h30.

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Sótão

Publicado por tonymonti em 09.10.2009

Já não é mais quarta-feira.

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Lançamento – As vozes do sótão, Paulo Rodrigues

Publicado por tonymonti em 02.10.2009

Sotão
Na próxima quarta, 07/10, Paulo Rodrigues lança seu novo romance As vozes do sótão na Livraria da Vila da Fradique Coutinho a partir das 19h.

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Lourenço Mutarelli e a arte de produzir arte

Publicado por tonymonti em 30.09.2009

Outro livro legal que é finalista do Prêmio Portugal Telecom é A arte de procuzir efeito sem causa, do Lourenço Mutarelli. escrevi o texto abaixo há bastante tempo no jornal Rascunho.

mutarelli 

Na casa de Sênior, Júnior dorme, Júnior acorda. Um dia, acabou a pilha do relógio da cozinha. Outro dia, acabou a luz: o relógio da sala pisca e mostra sempre a mesma hora. As frases sucedem-se rápido, os fatos repetem-se, às vezes idênticos, às vezes um pouco modificados. Marca-se assim uma cadência, um ritmo implacável que acompanha a desintegração do personagem principal e do mundo que o cerca.

O protagonista desenha obsessivamente, com uma caneta Bic, figuras que ilustram uma fração de seus transtornos. O livro A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli, transforma-se assim em um objeto um pouco diferente de um romance usual. Os grafismos do autor, atribuídos ao personagem, compõem e moldam a narrativa. O apelo estético do livro ultrapassa o texto e faz lembrar a obra de Mutarelli, em quadrinhos, que antecedeu sua experiência com a escrita de romances (a associação da imagem deste autor a romances se consolidou, para mais gente, e ultrapassou as fronteiras dos leitores de quadrinhos, com a adaptação para o cinema de seu livro anterior, O cheiro do ralo).

No início da narrativa, o desajuste de Júnior parece ter uma explicação social. Depois de abandonar o emprego e o casamento, ele vai para a casa do pai, Sênior, que aluga um quarto para Bruna, uma jovem estudante de artes. Sênior compreende a situação difícil e cuida do filho. Oferece, como possível, condições emocionais e materiais para que Júnior se recupere.

Conforme o tempo passa, o desajuste do protagonista torna-se mais agudo. Em diversos momentos, fica evidente sua dificuldade em dividir os espaços e conviver. Torna-se mentiroso e traiçoeiro, embora ainda guarde algumas qualidades com as quais o leitor pode simpatizar. Neste momento, as relações entre os personagens, em particular os divertidos diálogos que têm entre si, apresentam um sistema de valores em que o convívio social parece mais bem avaliado pela narrativa do que o isolamento.

No entanto, logo fica evidente uma força externa para governar a vida dos personagens, algo misterioso e intangível. Júnior passa a receber, pelo correio, caixas anônimas contendo objetos e mensagens com sentido difícil de decifrar. Essas aparições fantasmáticas acompanham a corrosão do personagem em um ser com enormes dificuldades de comunicação. Ele não consegue mais elaborar pensamentos em linguagem porque não consegue encontrar palavras que expressem seus estados internos ou o mundo.

Desse modo, arma-se uma perspectiva trágica em que a vida social é valorizada, mas que não pode ser atingida apenas pela escolha dos indivíduos, na medida em que elementos que escapam do controle determinam o destino dos personagens. Falha a explicação do desajuste social simples. O mundo do personagem, apresentado no livro, parece mais com uma doença física que tem conseqüências comportamentais.

Vale dizer que a decadência trágica do protagonista não é acompanhada apenas pela apresentação valores destrutivos. Como já foi dito, a experiência coletiva e não utilitária entre os personagens é descrita de um modo que a valoriza. Ao avesso, a decadência de Júnior é acompanhada com sua cada vez mais aguda incapacidade de se relacionar.

Um dos elementos do texto que destoa da perspectiva trágica é a personagem Bruna, a estudante de artes. Ela, em alguns momentos, consegue subverter a dificuldade de comunicação de Júnior tanto pelo diálogo despretensioso quanto pelo apelo estético. Com ela, quando a experiência coletiva não é suplantada e instrumentalizada por algum interesse individual, Júnior obtém doses de boa convivência. A arte, figurada nesta personagem, valoriza a experiência comunicativa e o tempo presente, e interrompe, ainda que apenas por uns instantes, a tendência destrutiva que governa as ações do protagonista.

O enunciado do livro desdobra-se, assim, fruto de dois motores que não se excluem: a visão fatalista segundo a qual a decadência se impõe indiferente às vontades, e a valorização das atividades humanas em torno da vida coletiva, da comunicação e da arte.

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Prêmio Portugal Telecom

Publicado por tonymonti em 25.09.2009

Saíram nesta semana os finalistas do Prêmio Portugal Telecom deste ano. Não li todos os livros. Gosto bastante de dois dos que li, Ó, do Nuno Ramos, e A arte de produzir efeito sem causa, do Lourenço Mutarelli. Escrevi sobre os dois nos últimos meses. Abaixo, o texto “sobre” o Ó, que saiu no Terra Magazine há alguns meses. Devo publicar aqui nos próximos dias a resenha do livro do Mutarelli.

nuno
Acho que é sobre a morte, pensei num lapso, como se pudesse dizer em uma palavra o irresumível. Acho também que é sobre estar atento. A atenção do olhar do autor artista plástico é das coisas que mais me impressionam no livro. Atenção distraída. Morte e atenção são, em suas amplitudes, características de quase tudo. Morte não como um fim, mas como um processo. Nuno Ramos é atento e cuidadoso como aquele que não tem pressa, embora o peso da desintegração o empurre. Sem pressa no olhar nem no pensamento. O plano é eu dizer alguma coisa com o corpo ainda pulsando as vontades que o livro, Ó, me provocou.

Acho que há uma busca por um tempo exato das transições, tive a sensação de que, em cada texto, Nuno leva um fio de pensamento até o limite, onde uma fronteira tenha se desenhado sem ter sido anunciada. O texto preenche de idéia um pedaço de espaço, devagar, até o instante em que a forma está pronta. A maioria dos textos do livro têm títulos compostos – “galinhas, justiça”, por exemplo. As palavras enchem grão a grão a idéia galinha, o enunciador conta da impressão que lhe causam as aves quando presas em gaiolas. A idéia deriva e expande até que uma forma compacta e detalhada esteja posta.

Mas ainda há mais idéia. Um grão cai no texto. Não cabe mais em galinha. Escapa no tempo certo para então começar a idéia justiça. Lembrei agora da naturalidade com que alguns palhaços tomam tombos. Ou continuam em pé. Um palhaço caminha em direção a um buraco, sorrindo. Está distraído com a bola vermelha que carrega nos braços. Anda trôpego, calças largas, gravata borboleta, um catavento no chapéu. Assopra o cabelo de lã, mas os fios voltam a cobrir os olhos. Cordas coloridas pendem do teto, atravessam o picadeiro como cipós e insistem em desviar do homem.

No outro lado do palco, uma tábua se desloca devagar perto do chão. O palhaço dá seu último passo antes de desabar, um pé no ar sobre o abismo. A tábua se aproxima, cobre o buraco sob o sapato enorme. Um acidente ao avesso. No passo seguinte, o palhaço deixa a tábua, caminha em uma direção diferente da primeira, o buraco para trás. Ele não viu. A tábua continua a se mover. Uma cratera separa o palhaço do lugar onde ele estava dois segundos antes.

Borges contava a vida de um místico sueco, Swedenborg. Eu estava na praia, com o livro nas mãos. Fascinado com uma dúvida – se o que ele dizia era ficção e ele me enganava, eu alternava o olhar entre o livro e o corpo das pessoas embaixo do sol, aquela evidência da realidade perto de mim. Parece que Swedenborg existiu. Ali, Borges foi o avesso do que foi em Ficções, ensaio com aparência de conto. Ou o que seja. Sob muitos aspectos, a dúvida é tão possível e válida quanto a resposta é desnecessária.

O palhaço vai saindo do palco. As pessoas riem, não todas, quase fecham os olhos devido aos espasmos musculares. Alguém ainda presta atenção, mordendo forte. Aguarda, pensa. Evita o riso para enxergar o último detalhe, se houver algum.

Contos ou ensaios. Sem responder, localizo, no universo, um ponto de dúvida. Ó, o livro, constrói-se no percurso, com a marcha do mostrar. Não pergunta como quem quer resolver um problema, mas com atenção de quem quer vida, tocar a matéria e pensar, antes que acabe. Acho que é sobre ter que ser outra coisa para afirmar alguma liberdade.

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